14 Outubro 2016      17:07

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DEFICIÊNCIA, TALENTO E O PODER DA INOVAÇÃO SOCIAL!

Apesar de qualidades fantásticas e de características especiais, a sociedade ainda não se desabituou de olhar para as pessoas portadoras de deficiência ou com doença mental como pessoas limitadas, menos capazes e para todo o sempre dependentes das ditas “pessoas normais”. A limitação em alguns campos leva a que pessoas com deficiência desenvolvam extraordinárias capacidades para suprir essa deficiência, verdadeiros talentos, que poderão ser determinantes para a sua plena inclusão social.

Os pais e cuidadores têm, desde muito cedo, um longo e espinhoso percurso a percorrer lado a lado com os seus filhos, lutando exaustivamente, muitas vezes sós, por cada pequena vitória dos seus filhos, procurando novos produtos, serviços e processos para dar melhores respostas às necessidades dos seus filhos ou familiares. Muitas vezes, reúnem-se em organizações sem fins lucrativos, trocando pontos de vista, conhecimento, ideias e experiências com outros pais, familiares, técnicos, investigadores…

É neste ambiente de imersão e procura profunda para resolução aos seus problemas quotidianos, que surgem novas respostas mais eficientes ou mais eficazes que as soluções alternativas dominantes para estes problemas complexos. Após algum tempo de experimentação e de validação destas novas soluções, é possível codificar este processo desenvolvido a um nível local ou micro-escala, oferecendo-se a possibilidade de o replicar noutros contextos ou de desenvolver noutras escalas, alcançando um relevante impacto social na resolução de problemas similares.

Uma das questões que muito preocupa os pais e familiares dos cidadãos com deficiência ou com doença mental é a sua total inclusão social, a qual também se concretiza pela sua plena integração e valorização profissional.

A integração profissional foi, e é, realizada muitas vezes pela colocação em tarefas simples e repetitivas que, sendo socialmente úteis, se focam fundamentalmente na ocupação do tempo destas pessoas e não se focam no desenvolvimento do seu potencial pessoal ou profissional, capacitando-os para um melhor desempenho. Não quero, de todo, afirmar que o trabalho fantástico e muito difícil que organizações da sociedade civil, da área da deficiência ou da saúde mental realizam para a integração profissional tem sido despiciente. Desejo sim apresentar alguns bons exemplos nos quais, através de processos de inovação social, são valorizadas as características distintivas destas pessoas e tornam as suas tarefas fantásticas e especializadas, promovendo a sua autonomia, autoestima e inclusão social.

O primeiro exemplo que gostaria de referir é desenvolvido por uma organização alemã, a Discovering Hands. Esta organização foi criada por Frank Hoffman, um médico ginecologista alemão que, ao ser confrontado em 2005 com a lei da mamografia, a qual, segundo ele, o impedia de servir os seus pacientes com a qualidade de cuidados que desejava, procurou novas soluções para garantir a qualidade do diagnóstico. Assim, detetou a possibilidade de oferecer emprego para pessoas cegas, do género feminino, um grupo altamente excluído do mercado de trabalho, formando-as para que, através das suas extraordinárias sensibilidades tácteis, pudessem detetar nódulos de cancro da mamã em fase ainda muito precoce, conseguindo melhores resultados que médicos treinados, tendo mais tempo para os pacientes, humanizando os cuidados médicos. Esta metodologia consegue detetar precocemente nódulos, até 50% mais do que os médicos com o a palpação tradicional. Frank tem trabalhado desde então no desenvolvimento desta metodologia, fundou uma ONG com o mesmo nome, a Discovering Hands, e hoje, esta organização sem fins lucrativos está já na Alemanha e Áustria onde emprega pessoas invisuais em clinicas de saúde, e tem projetos piloto na India e Colômbia.

Outro projeto que gostaria de apresentar é o Specialisterne que, em dinamarquês, significa “os especialistas”! Este conceito foi desenvolvido por Thorkil Sonne, um dinamarquês, pai de um menino com Autismo. Thorkil verificou que o seu filho e, outros autistas, possuíam capacidades fantásticas como uma excelente memória e um olhar surpreendente para os detalhes e para as alterações ao padrão. Ao conhecer um outro jovem autista, brilhante em programação de software, mas que vivia excluído pelo Autismo, Thorkil percebeu que o potencial deste e de outros jovens autistas poderia ser plenamente potenciado na verificação e testagem de programação e software, identificando facilmente os erros de código, mais invisíveis ao comum trabalhador. E assim nasceu a Specialisterne, hoje em forma de Fundação que desenvolve um negócio social que já está espalhado por todo o mundo, que emprega pessoas com autismo encarando este facto como uma vantagem competitiva e uma forma de integração profissional.

Num outro campo da saude mental, temos a Eye to Eye. Esta associação foi criada por David Flink, um norte-americano que, aos 10 anos, lhe foi diagnosticada Hiperatividade e Deficit de Atenção (HDA), com todas as consequências que daí advêm, como más notas, problemas disciplinares, bulling… David foi então para uma escola especial na qual estavam outros alunos com o mesmo problema e, na qual, conseguiu descobrir os seus pontos fortes e obter boas notas. Confiante, ingressou na Universidade de Brown onde partilhou esta experiência com outros alunos com o mesmo problema e compreendeu que, tutorando jovens do ensino primário com HDA, conseguiam que os mesmos obtivessem melhores resultados escolares, maior autoestima e melhor inclusão social. A metodologia utilizada foi colocar jovens universitários e crianças, ambos com HDA, em projetos de arte para compreender melhor a forma como aprendiam, expressavam as suas emoções, criatividade e, mais importante, como reconstruir sua autoestima. Com base neste trabalho, codificaram a metodologia e constituiram a Eye to Eye, um movimento de mentoring de jovens com HDA para crianças também com Hiperatividade e Deficit de Atenção, auxiliando a compreender a sua forma única de aprender e de pensar, trabalhando sobretudo para melhorar a sua autoestima, as suas competências escolares e as suas habilidades, tendo em vista a sua plena autonomia.

Não podia deixar de falar nesta breve crónica da Patient Innovation, uma plataforma online desenvolvida por um português, Pedro Oliveira, investigador na Universidade Católica e no MIT que, no âmbito do seu trabalho de investigação, compreendeu que “existia uma quantidade desmesurada de soluções, seja terapias ou equipamentos médicos, que são desenvolvidos pelos próprios pacientes” e que a todos interessava sistematizar e partilhar. Esta plataforma permite facilitar a troca de soluções desenvolvidas por doentes, cuidadores ou técnicos, partilhando para uma comunidade superior a 37.000 pessoas estas soluções inovadoras desenvolvidas em diferentes áreas da saúde. A plataforma reúne já mais de 600 inovações na área da saúde e é evidente o seu elevado potencial de impacto social, de tal forma que o Museu da Ciência de Londres promoveu conjuntamente com a Patient Innovation uma exposição europeia itinerante denominada ‘Beyond the Lab: The DIY Science Revolution’, a qual irá passar por 29 cidades europeias, incluindo Lisboa.

Estes são alguns exemplos de inovação social que permitiu promover a inclusão social de tantas pessoas com deficiência ou com doença mental, focando-se sobretudo nas caracteristicas que as tornam especiais, nos seus talentos, como para qualquer comum profissional, trabalhando sobretudo para ajudar as mesmas a encontrar o seu lugar, por direito, na nossa sociedade!

Na imagem de capa, Frank Hoffman, da  Discovering Hands.

 

 

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