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Cate Blanchett

CAROL

Talvez seja através das coisas mais simples que conseguimos chegar ao âmago das questões mais complexas que existem. A cena inicial de “Carol” (2015, real. Todd Haynes) começa por nos guiar através do tema que será explorado ao longo de todo o filme. Começamos na ambiência de rua, entre os anos 50, de noite, a neblina e o fumo de um cidade movimentada, a câmara persegue um homem de gabardine e chapéu, que entra num restaurante e vê duas mulheres a conversar. Sem hesitar grita o nome de uma delas, “Therese!”, a que está de costas e acaba por se virar incomodada, aproxima-se, fala dos planos que tem para essa noite, em casa de um amigo comum, e em como lhe poderá dar boleia. Define o plano e ela é obrigada a aceitar, incapaz de recusar perante a determinação e à vontade do homem que permanece de pé sem cumprimentar a outra mulher. Carol levanta-se, despede-se e incentiva-a a ir à festa e a cena corta quando Therese se levanta, para a mostrar já dentro do carro, de onde vê Carol caminhar ao lado de outro homem na rua. Este é um filme em que, mais do que retratar o amor e paixão de duas mulheres, reforça o “falocentrismo” de uma sociedade que permanece (ainda hoje) vivo, sob o duplo pressuposto errado: não só as mulheres são diferentes dos homens, isto é, inferiores, como qualquer gay ou lésbica tem um distúrbio moral e psiquiátrico inaceitável e passível de tratamento.