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TALVEZ...

Talvez sim, talvez não… talvez o mundo seja um ovo redondo e não oval, mas achatado nos polos. Talvez os pensamentos dos homens possam ser escritos em crónicas como esta e com isso adiantem algo de novo ao conhecimento do mundo e dos homens em geral. Por que não? É bem possível que este advérbio de dúvida se torne uma certeza e seja entendido na sua plenitude de sentidos. Talvez…

FONTES

De repente, esta manhã, no meio de pensamentos vagos, repete-se, na minha cabeça, uma canção que ouço já desde a infância. Fogem-me os pensamentos para o Alentejo, outra vez, e para os tempos em que em cada vale havia uma fonte que guardava as águas vindas das nascentes dos montes. Em que o correr contínuo da água, vinda dos confins da terra, se juntava à restante, cristalina, que já lá estava a repousar. Ao lado, um cocharro feito à medida dos que por lá passavam e saciavam a sede. Faz-me lembrar uma canção, dessas que se ouvem nas tascas, cantadas a despique. Faz-me lembrar o tempo em que, na parte mais fresca do monte, escondidas dos 40 e tal graus do Alentejo no verão, havia uma fonte que me chamava. E foram esses pensamentos e essas imagens que agregaram a canção, em todos os seus versos, uma história que se pode contar.

DOIS DEDOS DE CONVERSA E UM COPO DE TINTO

- É verdade, meu caro amigo, lembro-me como se fosse hoje! As nossas conversas eram feitas de copos de tinto, acompanhadas por leves tiras de presunto e de pão alentejano, com azeitonas. Um bom vinho alentejano aquele que se bebia nos bancos da nossa tasquinha. O meu amigo, lembra-se? Os assuntos, esses, variavam de acordo com os temas da atualidade, as capas dos jornais do dia ou as histórias do passado, no tempo em que nos conhecemos. O meu amigo, lembra-se? – perguntava, enquanto deitava mais um pouco de vinho no copo, deixando-o meio cheio e meio vazio, ao mesmo tempo.

INSÓNIAS

O despertador tocou eram sete horas da manhã. Os olhos dele pareciam duas bolas inchadas que teimavam em denunciar que tinha tido uma péssima noite de sono ou ausência dele. As suas noites eram mais claras na escuridão do quarto. Ouvia cada barulho a cada segundo. Deve ter-se deitado pouco depois das dez horas da noite. O seu corpo acentuava o cansaço do dia e não se aguentava por mais tempo. Parecia desfalecer e desmantelar-se na sua fragilidade. Tomou um banho de água quente para relaxar os músculos, bebeu um trago de água e deitou-se na cama. Debaixo dos lençóis brancos de algodão as noites pareciam mais calmas. No quarto, também ele pintado de uma cor branca, onde se notavam as fissuras do tempo, a cama ocupava meio espaço. O restante era ocupado pelo armário sóbrio e descaracterizado em madeira castanha escura. Mais duas pequenas mesas ladeavam a cama e tornavam o ambiente menos distante de si e mais familiar. Ainda assim, estava sozinho numa cela que ele próprio construíra.

QUASE

Esta é uma quase história, escrita no momento em que quase agarrava na caneta para escrever. Pensei numa história que pudesse representar quase tudo aquilo que queria dizer em poucas palavras, mas nenhuma história fica verdadeiramente contada sem que se conte desde o início – aquele momento crucial em que se começa a desenrolar o enredo, as peripécias dos heróis e das heroínas. Que se acabe tudo no fim, com uma catarse que remate as ideias, lhes conceda o devido lugar no pódio, assegurando os louros… sem que pelo meio, no desenvolvimento se coloquem as intrigas que desafiam os autores na sua epopeia narrativa.

ADORMECER

- Lembrai-Vos também dos nossos irmãos que adormeceram na esperança da ressurreição, e de todos aqueles que na vossa misericórdia partiram deste mundo: admiti-os na luz da vossa presença (Oração Eucarística II – Intercessões).

Numa noite fria de inverno, no piso gelado de neve, regressando a casa do trabalho distante em terras frias e solitárias, adormeceu ao volante. António adormeceu. Em casa, a família, no lar quente, em sala com tapete de Arraiolos, e com televisão que passava canções de Natal e de felicidade pelo nascimento de Cristo, esperava-o. Em casa, todos esperavam António.

SORRISO

Eu sorri, sabes? Sorri tanto quando te vi chegar que os meus olhos se inundaram de água salgada de felicidade. Sorri como já tinha sorrido antes tantas vezes. Sabes que nós, aqui, neste hospital pintado de paredes monocromáticas e sem sensibilidades, não sorrimos. Somos manipulados para não sorrir nem deixar que o nosso rosto passe as memórias do verão deslocado para camas de hospital.

O TELEFONEMA

O telefone tocou durante largos minutos. Era um daqueles telefones pretos, pesados que rodava com a força de um dedo indicador. O som ecoava por toda a casa e o estrondo ficava ainda durante largos minutos. O silêncio que se seguia deixava antever o isolamento daquela casa. As portas eram de madeira maciça e o percurso da antiga casa senhorial longo até que se pudesse chegar ao telefone.

EN ROUTE...

Seis da manhã. Naquela pequena cidade de França, perto de Marselha, um agregado familiar constituído por cinco pessoas, Alice, Paulo, Pierre, Janine e João. Todos estão já levantados, ainda o sol não espreita atrás das chaminés e dos reatores da zona industrial. Já se vislumbram os seus primeiros raios e há, nesse dia, no ar, um certo pó poluído que se mistura com o nevoeiro, dando-lhe uma cor alaranjada e cinzenta. 

MANTA DE RETALHOS

No primeiro dia do mês de agosto, a família reunia-se toda à beira da arramada e a matriarca da casa aparecia da porta mais baixa, fechada a trinco e a cadeado. Vestida de lenço negro na cabeça, avental cinzento e a cara enrugada pelos anos, trazia nas mãos uma manta de retalhos. Uma manta tão bem feita, produzida durante os meses frios do inverno, aquecida no calor dos primeiros dias de julho e arrefecida e lavada pelo vento no fim de setembro, princípios de outubro.

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