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CAFÉ

Cheguei à entrada do café passavam alguns minutos das sete horas da manhã. Óculos escuros postos para disfarçar o olhar matinal de quem vê o Sol como se o visse pela primeira vez na vida. Os olhos emocionam-se, reagem de forma alérgica e ficam vermelhos e inchados. É o repetir dos dias e o peso do sono. Nada a fazer, exceto um café matinal para agitar a adrenalina que se acomodou durante a noite. Após passar a portada do café, esperavam-me tantas caras desconhecidas quanto espaços vazios na cafetaria. Encostei-me ao balcão e o empregado, do outro lado, lançou-me um olhar de rapidez inquiridora do que me levava ali e perguntou se queria café. Respondi que sim e um pastel de nata. Veloz como a necessidade urgente de retirar as borras, por mais pó e tirar mais cafés numa máquina industrial a precisar de se alimentar de mais e mais cafeína. Ouvia o barulho do moinho a transformar os grãos em pó. Eu tomaria apenas uma pequena dose desse volume incomensurável de café que se misturava na água, se cobria de creme e tinha o poder de despertar até os mais sonolentos.

O VENTO

Nestes dias de julho, cá deste lado, em Timor-Leste, o vento sopra com força. Por causa disto, fiquei a saber que em Timor-Leste e na Indonésia as motorizadas são conduzidas com casacos não porque esteja frio mas para evitar que este faça entrar doenças no corpo como por cá se acredita. Não me lembro que, no resto do ano, nem na época seca nem na época das chuvas, sopre da maneira persistente e meio enfurecida que hoje sopra. As montanhas que rodeiam Díli aparam um pouco a sua força, mas o sussurrar de segredos ao ouvido das árvores é contínuo. Tem sido assim, nestes dias, Talvez seja pelas tempestades ao sul ou talvez seja porque ao oeste, naquele que é conhecido como o Anel de Fogo, os vulcões começaram a acordar de um sono prolongado.

LIVROS

Na casa do Ti João havia uma prateleira cheia de livros. Embora não soubesse ler nem escrever, o Ti João gostava de ter livros em sua casa. Quando os netos o visitavam, a casa enchia-se de alegria e os livros saíam da prateleira e andavam de mão em mão como as pombinhas da Cat’rina. Mais do que os seus livros, o Ti João amava os seus filhos e os seus netos. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto abaixo quando ouvia o barulho do carro deles, a virar a encosta, o qual lhe transformava os dias taciturnos e fazia com que as nuvens que cobriam o Sol se dissipassem, como o nevoeiro, nas manhãs frias.

ESCRITA DO SUDOESTE

Esta é uma história dentro da história. É a história de um povo que viveu há mais de dois mil anos e do qual não se sabe tanto quanto se gostaria de saber. Sobre um povo que a BBC quis conhecer melhor e recentemente filmou uma série em Loulé e Almodôvar. Em parte, não sabemos muito porque ainda não o conseguimos ler e só quando conseguimos ler alguém ou algo é que ficamos a saber muito mais sobre as pessoas ou sobre as coisas. Mas esta é, essencialmente, uma história de pedras, de estelas e de lápides funerárias que se escondem e têm vindo a ser encontradas no Alentejo e Algarve.

JOSÉ JOAQUIM DE SOUSA REIS

Há figuras na Serra do Caldeirão, ainda do lado de cá, no Alentejo, embora já numa fronteira em que não se diferencia bem o Alentejo do Algarve, que nos fazem recordar tempos idos. Há, na memória coletiva dos habitantes, ainda hoje, referência dessas pessoas. Todas elas já foram parte de um universo que se ficcionou mais do que se manteve fiel ao real.

À MESA DO RESTAURANTE

Cheguei ao restaurante pouco passava das nove horas da noite. Uma rapariga de aspeto baixo e magro esperava os clientes com um bloco de notas escrito e rasurado à porta. Olhou-me e perguntou para quantas pessoa era a mesa. Respondi-lhe que estava sozinho e não esperava mais ninguém. Pediu-me, num gesto de simpatia algo forçada, por se tratar do seu trabalho, que me sentasse no balcão que servia de bar e outros como eu aguardavam mesa para se sentarem. Alguns deles, em grupo, falavam de assuntos tão diferentes como a política dos seus países, a noite no bar, na semana passada o curso de surf e de mergulho… Outros sentavam-se simplesmente em casais e olhavam-se sem adiantar muitas palavras. Sentei-me no meio de dois casais e pedi um copo de vinho tinto, um cabernet sauvingnon do Chile. Comecei a observar os que já se encontravam a jantar e aqueles que esperavam ainda.

ROSTOS

As fotografias captam os rostos das pessoas e escondem-nos em livros onde todas as histórias são contadas. Conheço o mundo, os rostos deste mundo, os de todas as raças pelo olhar filtrado pelos rostos do Alentejo. Os livros, os computadores e todo o conhecimento dizem-me que o mundo é redondo e a estatística que nós somos sete mil milhões de rostos neste mundo, que caminhamos cada dia com o olhar de ontem e o de amanhã. Mas, cada um é diferente de todos os outros. Seja em que parte do mundo for, as fotografias dos rostos das pessoas são a memória do seu olhar, da idade gravada no rosto, as rugas que são regatos feitos pelas lágrimas, os cabelos são não mais do que o anoitecer de cada dia em tons grisalhos como se um nevoeiro se apoderasse do tempo e da idade. O lugar onde o rosto é fotografado faz parte de cada um de nós. O meu rosto é a fotografia do Alentejo, o Baixo, esse onde as espigas se refletem no rosto queimado do Sol.

TERMINAL DE AEROPORTO

Os terminais dos aeroportos são sítios estranhos onde as pessoas se cruzam, olham, ignoram, seguem viagem sem que muitas se voltem a ver. Os terminais dos aeroportos são um sítio de passagem para tantos que anseiam pelo regresso a casa. A permanência de cada um de nós neles resume-se a poucas horas e, em cada movimento dos transeuntes entende-se a extensão da sua demora no terminal. Os passos apressados, as caras preocupadas de quem corre em busca da porta para embarcar e está atrasado para o voo. Os que se passeiam lentamente nos corredores do terminal, esperando que o tempo passe e as horas corram nos ponteiros do relógio. Todos são o terminal. Em cada área, um visor que mostra as horas dos voos, o tempo que falta para anunciar a porta de embarque, através dos grandes vidros, que são paredes, veem-se os aviões que chegam e partem, as suas asas longas em contraste com as pequenas janelas, os símbolos das companhias aéreas que representam o mundo. Num terminal, toda a diferença étnica que caracteriza o ser humano. Todas as pessoas querem chegar ao destino. Todas as pessoas sabem que a sua casa não é ali e que os aviões são parte do percurso de vida, que foram criados pelos Homens para se chegar mais depressa a um qualquer lugar. No futuro, os Homens vão inventar outra coisa para chegarem ainda mais depressa. No terminal, entre produtos que se vendem em lojas que não conseguimos evitar no percurso e em pequenos cafés que acomodam os que esperam durante algum tempo, os minutos vão decrescendo para a hora do voo.

A MÚSICA

A história da vida dos Homens é escrita em livros e guardada em museus e arquivos grandiosos e antigos, onde se mistura com esculturas, pinturas, bustos, artefactos e muitos outros fragmentos de memória. A história da vida de um Homem não cabe num museu e, para ser contada, tem de ser escrita em volumes vários. Cada Homem é um fragmento da multitude de artes, conhecimentos e criação. A história da música confunde-se com a história dos Homens e é escrita em pautas e guardada nos ouvidos dos Homens que a ouvem, que a escrevem e que fazem parte da história.

O AMANHECER

O dia amanhece antes que o murmúrio do nosso olhar assente no horizonte. Há um Sol que surge sempre a Oriente e desaparece nos antípodas. Diria que somos conhecidos, que já nos vimos em muitos lugares do mundo, em tantas das minhas viagens e aventuras pelo globo terrestre fora.

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