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O utente petrificado

(memória informe de um filme de horror cujo título se perdeu):

O utente sente uma dor que tenta esquecer. Mas a dor persiste, aumenta ao ponto de não se prestar a equívocos. Deixou de incomodar e já passou definitivamente a doer. O utente, que passou o dia inteiro a evitar sair de casa, olha em volta e em cada parede vê reflectido o Inferno. Exageramos, é claro, mas nenhum de nós está a sentir aquela dor. Pode, por isso, viver de uma forma que ao utente petrificado está vedada.

O Disco Perdido – Era Uma Vez…

Pode parecer estranho para alguém nascido depois de 1990, mas houve uma época em que a música influenciava o comportamento de vastas franjas da sociedade. Se um determinado álbum influenciava futuros álbuns, isso não significava apenas que um determinado músico influía no trabalho de outros músicos, mas algo muito mais abrangente. Grupos mudavam de hábitos, criavam novas rotinas, e só então eram produzidos discos para reflectir as novas perspectivas. Mas, é claro, tal leva à seguinte proposição: antes da vida havia o disco, aquele disco específico, o disco primordial.

Chico Buarque e Milton Nascimento

Cálice

 

“Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Man Of The West – parte 2

Man Of The West (1958), de Anthony Mann

Man Of The West – parte 1

Man Of The West (1958), de Anthony Mann

A Vertigem de Marguerite Duras

A Vertigem de Marguerite Duras (Détruire Dit-Elle, 1969)

- L’Homme Révolutionnaire:

Marguerite Duras, enfim, a mais notável das escritoras, e também cineasta do dizível infazível, sempre trabalhou na margem do Ser Revolucionário. Ser sonhado, incapaz de alcançar a plenitude, apesar de perfeitamente capaz de expor a sua mágoa e, a certo ponto, a sua necessidade (de mudança, claro está – o paraíso da ideia por concretizar). Só que, digamos, tal regime tende a tornar-se abstracção, vai durar 'para sempre'.

A canção pop perfeita…

Por mais voltas que o pobre e belo mundo venha a dar dificilmente se poderão definir (ou melhor, circunscrever) as razões que levam uma canção pop a ser considerada perfeita. Não com a certeza pós-primitiva que é apanágio dos justos. Canção pop perfeita – Ui! Plim plons plim plons numa sequência subjectiva como que a levar-nos pela mão ao altar da mestria absoluta em pouco mais de três minutos. É o impraticável tornado viável, apesar de tudo? Singularidade que apenas interessa aos “náufragos do fim dos tempos” – aos que restam (sim, refiro-me a nós).

Jean Claude Brisseau e Henry Miller

Apontamento sobre o cineasta Jean Claude Brisseau (com um piscar de olhos ao perverso mais sincero – apetecia dizer singelo – que este mundo alguma vez conheceu: Henry Miller)

Um atraso estruturante

(O atraso mental estruturante) – (ou a perturbação e pele de galinha) – (ou o empreendedorismo híper-democrático versão youtuber):

 

Encontro de alienígenas – Sábado à noite –

Será que por uma vez podemos dizer que vivemos tempos estranhos sem incorrer num óbvio e recorrente exagero? Sim, podemos e devemos dizer que sim, afinal o caso é extremo.

Deste Lado da Ressurreição

Deste Lado da Ressurreição (um filme instável e potencialmente falhado (dito como elogio) de Joaquim Sapinho):

O título é enigmático e predispõe ao sorriso expectante. Também pelos vestígios do (ainda assim não muito) que se leu sobre o assunto. Começa – e começa bem. O contraponto de silêncios entre o interior / entrada do cenóbio e as sequências de surf. Silêncios? Expressão talvez equívoca. Interiores, representações de fé, céu, mar, debaixo de água, depois um grito que naquele ponto já sabe a pouco. As imagens são, de igual modo, dispares, ou de grande ou de recôndita beleza.

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