Está aqui

Rita Medinas

Dei-te tudo

Dei-te o mundo. Pelo menos o meu.

Dei-te as minhas lágrimas, dei-te a minha dor e continuo do avesso.

Perdi a minha voz, o meu olhar, perdi-me em ti e ainda não me encontrei.

Dei-te o meu ar junto da minha mão e largaste-a. Caiu tão suavemente que só senti quando voltei a ter um frio desconhecido, será? Tão desconhecido assim?

Fiz as pazes com a dor e jogamos xadrez. Caída nela, dá-me forças (ironicamente), não me puxando contra si, não desistindo de mim.

Hoje, contra o vento furioso, despeço-me da tua sombra que me persegue inconscientemente.

Tempo sem senso

O tempo mandou avisar que leva tudo, insistindo que nem o que parece cruel o é. Que tudo acabará por ter um sentido, por mais impiedoso que pareça.

Deito-me com o olhar dirigido para as nuvens, que formando desenhos inconstantes, parecem dançar com o azul claro do céu. Isso é bom, certo? Está claro simbolizando tranquilidade. Fecho os olhos e quem está a nadar agora sou eu. É a minha vez de sonhar com um mundo utópico; será que ele chegará para mim?

Uma carta à alma

Querida Alma,

Prometi-te parar de escrever sobre ele; mas sinto-me nua sem a sua presença, preciso de palavras que me marquem, que me vistam e que me agarrem tão ou mais forte quanto os braços dele.

O Medo viaja sem passaporte

Medo de mim. Medo que a minha mente viaje sem a minha autorização.

As minhas veias estão preenchidas de lágrimas zangadas. O meu coração está deprimido, colorido com a cor mais melancólica que alguma vez conhecera.

Os meus ouvidos estão esgotados dos pensamentos que berram uma sinfonia infeliz. Segurando a minha cabeça inquieta entre as duas mãos, grito sussurrando,

"-Ajuda".

Mas é em vão. Não será tudo?

Ao lado do sofá verde pardo há um espelho. Serei corajosa o suficiente para encarar o meu monstro?

Uma súplica de Liberdade

É como se estivéssemos todos a viver dentro do mesmo sonho, aliás, presos nele. Sempre que vemos a saída, voltamos ao início. É quase como um jogo que dura há meses, onde para ganhar, se requer o esforço de todas as partes, onde nem todas estão a colaborar. É o jogo mais difícil que passará por todos nós; mexe com emoções, principalmente com o medo. Há dias e dias que adormecemos junto a esse monstro, pedindo que ele desapareça o mais depressa possível. Mas ele insiste em regressar sempre.

Parece um universo paralelo. Repetimos sempre o dia anterior. Como um flashback.

Medo do Tempo

Tenho fobia ao tempo.

Ao ponteiro que corre mais depressa que o meu próprio piscar de olhos.

Ao barulho irrequieto que conta os passos que os segundos dão. Dias mais tarde, apaixonei-me por ele, o tempo.

Dei por mim afundada numa relação tóxica presa entre quatro paredes. Quatro paredes negras com um cheiro desagradável que se aproximam de mim mais depressa que os ponteiros um do outro.

Foi aí que o vi. Aí sim, o tempo decidiu dar-me tempo e parou.

O meu superpoder

Tenho um superpoder. Num tempo indeterminado, que penso que sejam segundos, consigo voltar anos atrás e sentir tudo. A minha pele regressa ao passado e com ela, a minha mente. O meu coração. Os meus olhos. O ar que, agora, não consigo respirar.

Olho ao meu redor e estou num labirinto. Não sei o que aconteceu. O que me aconteceu. É tão familiar para mim que já não me assusta. Será?

A história da Lua e do Sol

Todos os anos releio a história mais antiga que conheço. Não é um clássico, mas causa O efeito mágico em mim.

Estou a falar da história da Lua e do Sol. Decidi partilhá-la convosco.

Começa com estes dois a apaixonarem-se. Um amor tão único e mágico que faria inveja a qualquer um. Viveram o amor deles enquanto conseguiram, porque o Mundo acabou por “ser criado”.

Na criação deste, foi-lhes dado brilho próprio, para que o Sol iluminasse o dia e a Lua, consequentemente, a noite. Com isto, foram obrigados a viver separados. Imaginem o que ambos sentiram.

Presos em nós

Estou (estamos) presa sem ter cometido nenhum crime. Enclausurada por um erro inconsciente. Mas eu sou a próxima geração. Não posso. Não devo. Não vou sair.

Os acontecimentos recentes levaram-me a passar tempo comigo mesma, descobrindo novas partes de mim que nunca tivera conhecido e aprendendo a lidar com novas emoções e pensamentos.

Respiro fundo várias vezes ao dia porque sei que isto vai passar. Sei que vai passar porque confio em mim e confio nos outros. Sei que, juntos, trabalharemos para chegar ao final desta pandemia negra o mais depressa possível.

Os jardins não nascem de um dia para o outro

Na minha cabeça já só andaria para frente; mas virei as costas. Foi mais forte que eu. Algo me puxou. Caí, de novo. Numa lama suja que me embrulha de uma forma, (in)felizmente, familiar.
Jamais pensaria que os meus passos se enganassem, e regressassem anos atrás. Percebi isso quando senti os meus pés a queimarem, ao mesmo tempo que o vento embalava os meus fios longos de cabelo numa balada desajeitada.

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