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Ricardo Jorge Claudino

Apanha da azeitona

Costuma ser em Novembro

mas tudo é uma questão de tempo.

Tudo tem o seu tempo;

se ainda assim fores com pressa

e provares uma por teimosia,

o paladar chamar-te-á a atenção:

— Anda daí que ainda não é dia!

 

Ah! sempre que chega o dia

— Que preguiça, preguicite, que soneira!

só te apetece ficar a observar

os homens e as mulheres de varapaus nas mãos

sovando a pobre da oliveira.

 

Os oleados no chão

são lenços que amparam as lágrimas;

gotas

       que

Reencontro

Conhecer lugares

conquistar o mundo

ser dono de tudo

descansar deitado

para sempre

— ser nada.

 

quando te olhei

estavas sentado — esperando —

e nesse gerúndio,

do teu lugar que é meu,

apenas me resta a chaminé

que perfumou para sempre

as ruas da minha infância.

 

Nada pode tirar

o que a vida deu.

 

Pode-se ser feliz

onde nunca se foi.

 

Conhecer lugares, conhecer lugares e mais lugares!

 

As cadeiras à noite pela fresca

as cadeiras sentam-se
e arejam a noite
da terriola mais quente.

as vozes saem de casa
e a rua escuta epopeias
exaltadas pela sua gente.

são as primeiras redes sociais
sem seguidores ou amizades formais
o mito do vizinho que enriquece
e o zum-zum da vizinha que enlouquece
não passam de fake news imorais.

mas que bom que é falar sem internet
sem binários mal interpretados
e sem medo da palavra a dizer;
por isso a rua da minha aldeia é assim:
a voz da liberdade a prevalecer.

 

A pergunta

pergunta o velho ao jovem,

sabes o que esta casa gasta?

e prosseguiu sem esperar resposta:

mais do que as contas normais,

o desgaste das paredes e

algumas telhas que vão caindo.

a sombra que persegue a minha voz

é a maior despesa desta casa.

 

o jovem ficou em silêncio

longe da sua própria sombra;

quem cala consente

ou está ausente na fraqueza

de simplesmente concordar.

 

não eram palavras

nem teses fundamentadas

que o velho esperava ouvir.

 

O lugar

solto-me na imensidão

que mergulha os meus olhos

 

sobreiros caminhando pelo tempo

rebanhos na azáfama do dia

campos dourados de trigo

dão luz a quem lhes dá vida

 

sei que aqui estou

quando os horizontes

se cruzam com a origem

 

todas as histórias têm um lugar

este é a liberdade

na grandeza do Alentejo

onde o olhar beija a saudade.

 

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Sobre o 10 de Junho

Tenhamos consciência do que sempre fomos,

E que nunca mais se viva o que já foi vivido.

Se do cavaleiro brumoso esperarmos retorno,

Jamais o caminho em frente será cumprido.

De nuvens baixas vive a promessa do nevoeiro,

Lutemos por um céu limpo e azul, por inteiro.

 

 

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As oliveiras e o tempo

As oliveiras falam através do tempo.

Não é por isso que as invejo;

é, sim, por terem passado

por tanto ou tão pouco,

sem nunca moverem raízes.

 

Escuto-as

sem pressa de abalar.

 

Ramos milenares sustentam

os mais atrevidos pássaros cantantes;

A mando de quem vieram

para me agoirar?

 

Nesse instante

o tempo faz-se.

 

Percebo que tudo é parte da melodia.

Os pássaros, as galinhas, os perus,

os cães, os porcos, os leitões, as ovelhas,

nós e tu.

 

O que fazer no Alentejo?

Assistir ao brotar de um grão de trigo
e pela primeira vez pensar
na derradeira sorte
de ter pão e vida.

 

Imagem de casaredo .com

 

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O Grande Lago

Neste lago de infinitas polegadas

peço explicações a todas as minhas

reflexões.

 

Foi por escutá-lo que entendi

as suas ondas ténues falantes,

formadas de gota em gota,

tal como humanos se formam

de palavra em palavra:

 

— Somos um espelho;

reflectimos nos outros

o que reflectem em nós.

 

 

Liberdade

Se pudesses escolher

que cor darias à liberdade?

 

Tens a certeza?

Mesmo depois de te ensinarem que

vermelhos são os campos,

verdes são os lírios e

azul é a tempestade?

 

A tua liberdade

é do tamanho do livre-arbítrio

multiplicado pela vontade.

 

Nunca uma coisa tão real

foi tão infinita

e nunca o infinito

foi tão limitado

para se tornar essencial.

 

Anda, vem brindar connosco;

— quem é livre de festejar

toma a sua liberdade por gosto!

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