Está aqui

Ricardo Jorge Claudino

Esperança

Nascem flores no céu

sempre que a terra chove.

A água cai torrencial e

mata a sede dos anjos,

pinta as nuvens de verde

e evapora a fraca descrença.

.

A linha no horizonte

reflecte um sopro de luz;

todos sustentam a hipótese

sobre o regresso dos que sonham ter

as nuvens no céu e as flores na terra.

.

E cheios de esperança vão

os que ousaram criar

o novo mundo.

 

Imagem de capa de postal da Coleção de Énio Semedo

Banco de jardim

São espaços fechados com correntes de ar,

Todos os jardins que aqui frequento.

Há sempre um banco, — o meu lugar,

Que faz esquecer todos os jardins sem assento.

Árvores, plantas, o verde; — ó asas triunfantes!

Levantam o chão, beijam o céu, por instantes.

O céu é o lugar mais infinito para pensar,

Mas eu prefiro ficar sentado no meu banco.

Para fora do infinito não há como raciocinar

E para fora deste banco tenho todo este flanco,

Desde aquela árvore (que calou para consentir),

Não há melhor lugar

Não há melhor lugar

senão aquele onde o tempo

caminha sem nunca chegar,

Miradouro

É urgente desfrutar da paisagem.

É necessário ser o que se vê.

É perigoso olhar para trás

cair onde caímos

pela última vez.

 

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Os mil e um lírios

Por Ricardo Jorge Claudino

Era uma vez um lírio, 
vizinho de muitos outros; 
era roxo, alto e cheiroso: 
era o lírio mais diferente de todos. 

.
Não falava nem escutava 
nem tão pouco sabia ler; 
o que tinha este lírio 
de tão especial que o fizesse valer? 

.
O fotógrafo parou o carro 
seduzido por mil e uma cores 
tentou capturar o momento 
mas a máquina não fitava as flores. 

Ó Sol que raias p´la manhã

 

Ó Sol que raias p’la manhã cedinho,

aceita estas nossas graças, 

por mais um dia com saúde 

e aquece o nosso caminho.

.

Alimenta a terra cultivada, 

mas tem avondo com a tua força,

não nos leves tanta água, 

e apoia a nossa empreitada. 

.

Quando o meio dia bater 

e alcançares o teu esplendor, 

lembra-te que a teu redor 

O Relógio do Sol

Por Ricardo Jorge Claudino

.

No meio urbano 

todas as horas contam, 

porque todos os minutos 

e todos os segundos 

são contados.

.

A vida da criança da cidade 

tem o mesmo fulgor 

que a vida do adolescente, 

do adulto e do velho, 

em seu redor. 

.

A criança da cidade 

tem um relógio 

O Miradouro da Recompensa

Por Ricardo Claudino

 

Ao subir o pequeno monte que a planície erguia,

fitava a linha que separava o céu do chão.

.

As minhas pernas, cansadas,

espelhavam a incerteza

sobre a recompensa

no final da imponente subida.

Quanto maior a inclinação do monte

mais os pés sentiam,

mais o coração sonhava.

.

Que prémio me esperava?

Sentia a confiança

de um ciclista de montanha

e trazia a certeza

de que um terreno no Alentejo

nunca poderia ser tão inclinado

Perder para ganhar

Por Ricardo Jorge Claudino

Perco-me;

às vezes nas palavras,

frequentemente no interesse.

.

Todos os dias

insisto em me perder no tempo.

E perco-me nas ruas

das maiores cidades do mundo;

não com tanta frequência

como todas as vezes que me perco

nas travessas das mais pequenas

aldeias alentejanas; também elas

perdidas no tempo, embora

não por vontade própria.

.

Também me perco

nas lembranças que se

perdem de mim.

Lembro todos os meus avós

A sombra e o chaparro

Por Ricardo Jorge Claudino

.

A sombra do vento

cai sobre o chaparro;

fico com a sensação

de que o calor, exausto,

se deu por vencido.

Apenas aqui me sento

porque um alentejano

só se senta para pensar.

.

O vento sopra

e a sombra abraça-me.

.

Penso em negar-lhe o momento;

atroz este meu pensamento

que espera sempre mais

de quem dá menos.

.

Talvez tenha sido uma má escolha;

— mea-culpa,

há mais chaparros nesta terra e

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