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Ricardo Jorge Claudino

As voltas de um ciclo

I - 1960’s

O Alentejo é uma imensidão de gente.

Do litoral ao interior,

em cada casa, em cada aldeia,

há vida que canta alegre e arduamente.

.

A grande metrópole inveja a simplicidade.

Os feriados de cada terra

dançam até de madrugada,

no baile e na festa celebra-se a felicidade.

 

II - 1980’s

O Alentejo ainda é uma imensidão de gente.

Esta gente faz planos

em prol da terra mãe,

a mesma que um dia brotou a sua semente.

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Ser Casa

Tenho duas casas paralelas
aconchegando-me em tempos paralelos;
é como se uma estivesse abraçando o céu
e a outra beijando raízes profundas na terra.
Na linha ténue desenhada pelo horizonte
quase que ambas se tocam, mas o quase
é algo que não chegou a ser; é a miragem
que relança questões para além do incerto.
Bem sei que sou a perpendicularidade
entre cada uma delas. Por isso fecho os olhos,
estendo os braços, e com uma casa de cada lado
deixo que os caminhos sejam traçados
nas linhas escritas por cada passo,

Ricardo Jorge Claudino lança primeiro livro de poesia

Ricardo Jorge Claudino, o poeta de adoção alentejana, e colaborador deste jornal, acaba de lançar o seu primeiro livro intitulado “A Cor Do Tempo” e vai estar este domingo, dia 13 de setembro, a partir das 14h, a autografar a sua obra na Feira do Livro de Lisboa, no stand B31 da editora Cordel d'Prata.

Apanha da azeitona

Costuma ser em Novembro
mas tudo é uma questão de tempo.
Sabes, tudo tem o seu tempo;
e se mesmo assim tentares
comer uma por teimosia,
o paladar chamar-te-á a atenção:
— Anda daí que ainda não é dia!

.

Ah! sempre que chega o dia

— Que preguiça, preguicite, que soneira!
só me apetece ficar aqui a observar
os homens e as mulheres de varapaus nas mãos
sovando a pobre da oliveira.

.

Os oleados no chão
são lenços que amparam as lágrimas;

Sapateiro

SAPATEIRO

Por Ricardo Jorge Claudino

.

Mestre sapateiro

sediado em terra singela;

martelo na sola,

martelo ao sol,

mão que segura a sovela

conduz o cerol.

.

Avental posto

Uma viagem elementar

Por Ricardo Jorge Claudino

 

 

Se penso sobre o AR,
Penso no vento
E penso em todas as andorinhas
Que se deixam guiar
Para chegarem até aqui — agora,
E não numa outra estação qualquer.

Se penso sobre a ÁGUA,
Penso nos rios e nas ribeiras
Que nutrem as colheitas.
Só depois penso nas barragens,
Criadas pelo homem, contra a escassez.

Arqueologia do Tempo

 

Desenterra-se o tempo
escondido debaixo da terra
porque na superfície estamos exaustos.

.
Nunca vi quem tanta esperança
depositasse no passado:
tu, eu, nós e eles; todos,
os que se perderam sem nunca
se terem encontrado.

.
A arqueologia de nós próprios
é uma viagem até ao fundo
do que suspeitamos ser.

Na ceifa, cantando

A ceifeira canta com sua branca tez,

alegre, no primeiro dia de labor;

canta mágoas fingidas sobre o tempo

só o futuro lhe concederá louvor.

 

O dia alto e o trigo iluminado

ecoam calor pelos campos fora;

pobre ceifeira que na ceifa cantando

lembra o amanhã, batalhas de outrora.

O Destino das Estrelas

Por Ricardo Jorge Claudino

 

De noite,
pelas aldeias e pelos campos,
apagam-se as luzes
que dantes não existiam.

.
Daqui,
graças ao real escuro da noite,
há um reencontro
entre a minha pele
e a luz esbatida das estrelas
— que me falaram há milhṍes de anos-luz atrás.

Alentejo - a certeza de querer ir

Alentejo - a certeza de querer ir

Por Ricardo Jorge Claudino

 

 

Há quem adormeça
a olhar um horizonte vasto, sem fim. 
Há quem se canse
de percorrer estradas sem sombra à vista. 
Há quem se perca
no centro de uma vasta imensidão.

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