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Poesia

Para Além do Tejo

PARA ALÉM DO TEJO

Por Ricardo Jorge Claudino

(entre a batalha de Ourique e a chegada a Calecute)

A sul do Tejo

fica a terra que a norte

se via muito para além

do tempo.

.

A jovem nação,

refém entre vales e serras,

Indenidade

Não te consigo ver.

Está tudo tão cinzento.

Mexe-te, por favor. Esforça-te por mim.

A nuvem insiste estar permanentemente desenhada à minha frente com um olhar incerto que nem o teu sorriso a consegue iluminar.

Não te afastes de mim; eu sei que me consegues ver, eu consigo sentir-te do outro lado.

Ténue Planície

 

— A vida podia ser apenas

estar sentado admirando a planície;

As voltas de um ciclo

I - 1960’s

O Alentejo é uma imensidão de gente.

Do litoral ao interior,

em cada casa, em cada aldeia,

há vida que canta alegre e arduamente.

.

A grande metrópole inveja a simplicidade.

Os feriados de cada terra

dançam até de madrugada,

no baile e na festa celebra-se a felicidade.

 

II - 1980’s

O Alentejo ainda é uma imensidão de gente.

Esta gente faz planos

em prol da terra mãe,

a mesma que um dia brotou a sua semente.

.

Apanha da azeitona

Costuma ser em Novembro
mas tudo é uma questão de tempo.
Sabes, tudo tem o seu tempo;
e se mesmo assim tentares
comer uma por teimosia,
o paladar chamar-te-á a atenção:
— Anda daí que ainda não é dia!

.

Ah! sempre que chega o dia

— Que preguiça, preguicite, que soneira!
só me apetece ficar aqui a observar
os homens e as mulheres de varapaus nas mãos
sovando a pobre da oliveira.

.

Os oleados no chão
são lenços que amparam as lágrimas;

Reencontro

Conhecer lugares

conquistar o mundo

ser dono de tudo

descansar deitado

para sempre

— ser nada.

 

quando te olhei

estavas sentado — esperando —

e nesse gerúndio,

do teu lugar que é meu,

apenas me resta a chaminé

que perfumou para sempre

as ruas da minha infância.

 

Nada pode tirar

o que a vida deu.

Pode-se ser feliz

onde nunca se foi.

 

Conhecer lugares, conhecer lugares e mais lugares!

A filosofia de um adulto tem como base a ganância;

Sapateiro

SAPATEIRO

Por Ricardo Jorge Claudino

.

Mestre sapateiro

sediado em terra singela;

martelo na sola,

martelo ao sol,

mão que segura a sovela

conduz o cerol.

.

Avental posto

Uma viagem elementar

Por Ricardo Jorge Claudino

 

 

Se penso sobre o AR,
Penso no vento
E penso em todas as andorinhas
Que se deixam guiar
Para chegarem até aqui — agora,
E não numa outra estação qualquer.

Se penso sobre a ÁGUA,
Penso nos rios e nas ribeiras
Que nutrem as colheitas.
Só depois penso nas barragens,
Criadas pelo homem, contra a escassez.

Comprei lá uma panela de barro, que ainda uso.

(Eu) Olá, como estás hoje?

(Espelho) Bem, percebes que é a primeira vez que me perguntas?

(Eu) E tens razão. Reconhece que costumas-me dizer coisas irritantes ou desagradáveis.

(Espelho) Refletir sobre o que nos irrita nos outros pode ajudar-nos a entender melhor a nós mesmos.

(Eu) Eu já ouvi essa frase.

(Espelho) Sim, nos livros que estás a ler, mas que não compreendeste.

Arqueologia do Tempo

 

Desenterra-se o tempo
escondido debaixo da terra
porque na superfície estamos exaustos.

.
Nunca vi quem tanta esperança
depositasse no passado:
tu, eu, nós e eles; todos,
os que se perderam sem nunca
se terem encontrado.

.
A arqueologia de nós próprios
é uma viagem até ao fundo
do que suspeitamos ser.

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