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Poesia

Alentejo ao luar

Os dias mais limpos

vislumbram a Lua

bem antes do Sol

se pôr. A forma estreita

da rua por onde vou

não tem nexo; e só

neste instante percebo,

que o ter ou não ter nexo,

é um mero vício citadino.

 

É apenas aqui,

nesta aldeia do Alentejo,

que quando olho para cima

vejo o que existe para lá

daquilo que já conhecia.

Enquanto houver luar,

haverá claridade

para iluminar as ruelas

que me conduzem

até ao largo da igreja.

 

Pelo caminho,

Esperança

Nascem flores no céu

sempre que a terra chove.

A água cai torrencial e

mata a sede dos anjos,

pinta as nuvens de verde

e evapora a fraca descrença.

.

A linha no horizonte

reflecte um sopro de luz;

todos sustentam a hipótese

sobre o regresso dos que sonham ter

as nuvens no céu e as flores na terra.

.

E cheios de esperança vão

os que ousaram criar

o novo mundo.

 

Imagem de capa de postal da Coleção de Énio Semedo

Banco de jardim

São espaços fechados com correntes de ar,

Todos os jardins que aqui frequento.

Há sempre um banco, — o meu lugar,

Que faz esquecer todos os jardins sem assento.

Árvores, plantas, o verde; — ó asas triunfantes!

Levantam o chão, beijam o céu, por instantes.

O céu é o lugar mais infinito para pensar,

Mas eu prefiro ficar sentado no meu banco.

Para fora do infinito não há como raciocinar

E para fora deste banco tenho todo este flanco,

Desde aquela árvore (que calou para consentir),

Universidade de Évora atribui Prémio Vergílio Ferreira a Ana Luísa Amaral

O Prémio Vergílio Ferreira, instituído pela Universidade de Évora (UÉ) em 1996, foi entregue na edição deste ano à poetisa Ana Luísa Amaral, divulgou a academia.

Este galardão incide sobre o conjunto da obra de um autor que se tenha distinguido nos domínios da ficção ou do ensaio e, na edição de 2020, contou com nomeações oriundas de sete instituições de dois países.

Miradouro

É urgente desfrutar da paisagem.

É necessário ser o que se vê.

É perigoso olhar para trás

cair onde caímos

pela última vez.

 

...............................

 

Os mil e um lírios

Por Ricardo Jorge Claudino

Era uma vez um lírio, 
vizinho de muitos outros; 
era roxo, alto e cheiroso: 
era o lírio mais diferente de todos. 

.
Não falava nem escutava 
nem tão pouco sabia ler; 
o que tinha este lírio 
de tão especial que o fizesse valer? 

.
O fotógrafo parou o carro 
seduzido por mil e uma cores 
tentou capturar o momento 
mas a máquina não fitava as flores. 

O Miradouro da Recompensa

Por Ricardo Claudino

 

Ao subir o pequeno monte que a planície erguia,

fitava a linha que separava o céu do chão.

.

As minhas pernas, cansadas,

espelhavam a incerteza

sobre a recompensa

no final da imponente subida.

Quanto maior a inclinação do monte

mais os pés sentiam,

mais o coração sonhava.

.

Que prémio me esperava?

Sentia a confiança

de um ciclista de montanha

e trazia a certeza

de que um terreno no Alentejo

nunca poderia ser tão inclinado

Perder para ganhar

Por Ricardo Jorge Claudino

Perco-me;

às vezes nas palavras,

frequentemente no interesse.

.

Todos os dias

insisto em me perder no tempo.

E perco-me nas ruas

das maiores cidades do mundo;

não com tanta frequência

como todas as vezes que me perco

nas travessas das mais pequenas

aldeias alentejanas; também elas

perdidas no tempo, embora

não por vontade própria.

.

Também me perco

nas lembranças que se

perdem de mim.

Lembro todos os meus avós

A última a morrer

A última a morrer

Por Rita Nascimento
 

Chego-te, através do horizonte,

leve, ténue e casta brisa

profetisa,

envolta em névoa que solta,

te toca sem te tocar.

Em tudo me sentes.

Em nada me vês.

Mas crês que existo

e que de longe venho

contendo arte e engenho

(não olhas para trás).
.

Três passos mais perto

do fim do deserto

e miragem ainda sou...

Reflectindo uma imagem

de sonho e coragem

que contigo acordou.

Não páras.

Sempre adiante,

A sombra e o chaparro

Por Ricardo Jorge Claudino

.

A sombra do vento

cai sobre o chaparro;

fico com a sensação

de que o calor, exausto,

se deu por vencido.

Apenas aqui me sento

porque um alentejano

só se senta para pensar.

.

O vento sopra

e a sombra abraça-me.

.

Penso em negar-lhe o momento;

atroz este meu pensamento

que espera sempre mais

de quem dá menos.

.

Talvez tenha sido uma má escolha;

— mea-culpa,

há mais chaparros nesta terra e

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