Está aqui

Juventude

Último Segundo

Estamos os dois sentados com as pernas estendidas. O sol, envergonhado, lança pequenos raios de cores quentes avisando que se vai despedir em breve. Tal como nós.

Acredito que ambos nos decidimos ficar pelo silêncio confortável por não saber passar para palavras o que estamos a sentir neste momento, nesta situação. Os nossos pensamentos queimam num volume estridente. Entre as nossas respirações tristes e irregulares, estico a minha mão até esta entrelaçar num amor profundo com o dono de um amor impossível.

O fumo da saudade

O cigarro em cima da mesa redonda com o formato da tua boca queima à medida que o meu fado é desenhado.

O cheiro já entrou dentro de mim e o meu coração sorri com a recordação, os meus pulmões pedem por mais e dou por mim a implorar por ti.

Só, encosto a minha cabeça à parede fria e o meu corpo rapidamente reage, encolhendo com a temperatura desagradável.

Um espelho rasgado

Encostada ao azulejo preto, deixo o meu corpo deslizar, sentido cada gota de água a escaldar a perfurar o meu corpo que ansia paz.

Desiludida por desiludir, cansada e deprimida, encaixo a minha cabeça no meio das minhas pernas, o meu corpo de vez em quando descontrola-se com a minha respiração inconstante, mas a água relaxa-me.

Penso no branco das nuvens e questiono-me sobre a sua textura. O meu cabelo, colado até meio das costas, abraça-me e sinto os meus olhos pequenos.

O gato cinzento

Há molduras à minha volta. Elas abraçam-me e é fácil de distinguir o cheiro a antigo. Há pinturas nelas de sem abrigos que berram solidão e pedidos de ajuda. Os pretos nas mesmas trazem até mim arrependimento.

Caminho até à rua com passos lentos sabendo o que me espera. São três da manhã e a lua está desenhada de forma a cintilar e refletir no preto dos meus olhos. O frio cumprimenta cada pelo no meu braço e relembro o quão quente estava há minutos. O vento brinca suavemente com os meus caracóis e sinto o meu corpo a congelar.

Para

Para de me puxar. Eu quero ficar.

Para de gritar. Não quero chorar.

Desamparada e com as pernas a tremer, o meu corpo é projetado contra o chão frio que cumprimenta todos os meus pelos em pé, por esta altura, arrepiados. Os meus olhos fixam-se na grande e vazia parede branca e dava tudo para voltar a ver aquela estrela cadente.

- Larga-me! - Imploro de novo como se fosse o refrão de uma canção. - Por favor - Suplico e o meu suspiro sai mais alto do que eu estava à espera.

Não é louco?

Não é louco? Como o tempo passa tão depressa e eu permaneço sentada nesta pedra que tanto marca a minha pele? Não é fascinante? Como o céu continua com o seu azul mais clarinho, embora as minhas emoções demostrem o contrário. Não é de outro mundo?

Decidi levantar-me.

O vento dança com o meu cabelo e deixo-os caírem num amor profundo. Os meus pés estão enterrados na terra e um castanho molhado com uma textura não agradável agarra o meu pé como eu te agarrava a ti.

Não é louco?

Toda a gente precisa de um coração

Toco em ti como se de uma nuvem te tratasses. Com toda a delicadeza que tenho num dedo. É mágico e frágil. Um coração tão lindo e puro.

Com as nossas mãos entrelaçadas como se a nossa vida apenas dependesse disso, os nossos olhos falam o que as nossas bocas não conseguem, falam sem darem pelas horas passarem.

Como disse, tudo gira à volta da magia mais bonita que já conhecera. Um pedaço de arte que voa para além das estrelas. Todos precisam de uma inspiração e eu encontrei a tua alma.

Todos precisam de um coração jovem e selvagem e eu tenho o teu.

Oh, sol

O sol está amarelo. O sol está a queimar-me. O sol está a puxar-me para a felicidade. O sol pretende desenhar um sorriso na minha face que suplica tranquilidade.

Sinto que o sol é meu. Sinto que o sol vive para mim.

O sol de fevereiro abraça-me no abraço mais acolhedor que conhecera desde o fevereiro passado. O sol de fevereiro canta para mim.

Mas, chega de anáforas. A luz que o sol pinta não passa de uma ilusão.

Meu futuro amante, perdoa-me. Não confies no meu coração.

O céu está nu e desenho as minhas desculpas nele.

Flores

O meu campo de visão é preenchido por uma imagem pura: a lua está a cair.

Sinto o meu coraçãozinho pequenino a apertar.

Dói. Estou hesitante. Será que é bom estar numa relação a longo prazo com a dor? Será que é bom estar a doer?

As onze da noite batem e as estrelas que pintam o céu comunicam comigo. Tentam transmitir-me algo, mas não as consigo ler. Cantam todas juntas uma melodia incompreensível. Peço ajuda a uma estrela cadente; é esta a função delas, certo?

Indenidade

Não te consigo ver.

Está tudo tão cinzento.

Mexe-te, por favor. Esforça-te por mim.

A nuvem insiste estar permanentemente desenhada à minha frente com um olhar incerto que nem o teu sorriso a consegue iluminar.

Não te afastes de mim; eu sei que me consegues ver, eu consigo sentir-te do outro lado.

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