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Opinião

A fadiga

Movimentavam-se dolentes debaixo do calor insuportável do Alentejo. As sombras eram mais pesadas que o próprio corpo. Num horizonte que se perdia de vista, caminhavam como se na penumbra fosse.

A fadiga vivia em todo o lugar da vida dos homens e das mulheres da baixa província. A fadiga movimentava-se no meio das coisas. No rosto das pessoas, o cansaço tomava o corpo da fadiga e tornava a dança do sol com o calor o suspiro da fadiga.

Os homens e as mulheres sabiam que os seus cansaços tinham um nome e viajavam entre pedaços de fazenda nessas terras.

As cadeiras à noite pela fresca

as cadeiras sentam-se
e arejam a noite
da terriola mais quente.

as vozes saem de casa
e a rua escuta epopeias
exaltadas pela sua gente.

são as primeiras redes sociais
sem seguidores ou amizades formais
o mito do vizinho que enriquece
e o zum-zum da vizinha que enlouquece
não passam de fake news imorais.

mas que bom que é falar sem internet
sem binários mal interpretados
e sem medo da palavra a dizer;
por isso a rua da minha aldeia é assim:
a voz da liberdade a prevalecer.

 

As peripécias de um candidato autárquico

Apesar de não ser um novato nestas andanças, talvez seja a primeira vez em que assumo um papel de maior destaque, na corrida às autárquicas.

A experiência demonstrou-me, ao longo de diversas campanhas, que a exposição pública e o escrutínio sobre os nossos comportamentos e ações são elevadas e cada movimento é visto com toda a atenção, sobretudo num meio pequeno, como aquele em que resido. Basta um pequeno deslize para originar um boato.

Em busca do 13º

A crença dos pitagóricos de que tudo é constituído por números, conduzi-os à categorização dos números de acordo com diversas características. A principal abordagem dos pitagóricos para a organização dos números consistia em considerar primeiro um arranjo geométrico e depois o tamanho. A organização dos números, de acordo com essa regra, origina sequências de “números figurados”.

A queimar no bolso e por dentro

Numa noite de primavera do ano de 1934, um senhor de certa idade desceu os degraus de pedra que levam a uma das pontes....

“Pago com uma nota de 5 euros. Retiro algumas moedas de troca. A nota permanece no balcão. O lojista cumprimenta-me e desaparece na sala dos   fundos. Eu, distraidamente retiro a nota de 5 euros, despeço-me e caminho em direção à saída."

A história, no entanto, não foi assim, mas sim assim:

“Retiro conscientemente a nota de 5 euros, digo adeus e caminho para a saída”.

A obstinação

Estavam duas pessoas no carro. Uma sentada no lado direito e outra sentada no lado esquerdo. Uma conduzia e a outra servia de co-piloto. O problema era que o co-piloto devia indicar o caminho a seguir e como era obstinado não queria por o mesmo do condutor.

Andaram dez quilómetros. Um a dizer que o caminho era pela esquerda e o outro pela direita. Tanto discutiram que acabaram por ter um acidente num cruzamento em que nem a direita nem a esquerda servia. Há quem diga que foi uma decisão mal tomada. Outras pessoas chamaram-lhe obstinação!

Cabrita para dar e vender

O Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, é efetivamente alguém impressionante!  Este ministro tem um ´´talento´´ especial em fazer todo o tipo de asneiras. É um verdadeiro superministro das argoladas e é o melhor que há para a oposição.

Mas uma coisa é certa, é sem dúvida o verdadeiro PRR deste Governo. Associado ao ministro existe sempre um verdadeiro Plano de Recuperação e Resiliência. Quando parece irremediavelmente perdido, lá acaba por ser salvo (mais uma vez) pelo Primeiro-ministro António Costa. Um amigo do coração!

A culpa

Haverá muitos de vós que a sentem, por coisas cuja solução não podem dar e haverá tantas outras coisas cuja resolução vos ultrapassar mas continuam a sentir esse peso de quilos e toneladas na cabeça. Parece pesada… aquilo que fiz foi errado. Não era o caminho certo, não era o que eu tinha feito, mas não sei por que razão continuo a sentir culpa. A culpa é tão intrínseca ao ser humano como o solstício ao verão, as nuvens na chuva, os relâmpagos na trovoada… nada existiria um sem o outro. A culpa não morre sozinha, já se dizia quando nasci e quando cresci.

A pergunta

pergunta o velho ao jovem,

sabes o que esta casa gasta?

e prosseguiu sem esperar resposta:

mais do que as contas normais,

o desgaste das paredes e

algumas telhas que vão caindo.

a sombra que persegue a minha voz

é a maior despesa desta casa.

 

o jovem ficou em silêncio

longe da sua própria sombra;

quem cala consente

ou está ausente na fraqueza

de simplesmente concordar.

 

não eram palavras

nem teses fundamentadas

que o velho esperava ouvir.

 

A preguiça

A seguir ao medo, escolhi a preguiça para nos fazer companhia neste fim de semana. Se na semana passada acordei com medo por volta das cinco e meia da manhã, hoje, dia nunca de antes do dia primeiro, acordei com preguiça. Sabem aquela que nos atormenta quando nos deitamos na cama e que não nos deixa sair dela antes do meio dia ou de qualquer hora depois do sol raiar e se sobrepor ao que já estava além do território oval terrestre?

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