4 Junho 2014      01:00

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Socialismo em debate - Diálogo

Um“- Porque é que a entrada para a UE não serviu os interesses de Portugal? Os comunistas portugueses já sabiam o que aí vinha e este discurso hoje em dia toma características de futurologia! Já é hora de escutarem os comunistas portugueses e Álvaro Cunhal em "Discursos", 1980!

O outro- Não conheço todas a História... mas, será que defendes o "orgulhosamente sós" do pré-25 de abril?

Um- O discurso, a cuja História te referes, data de 1980, logo pós 25 de Abril.

O outro- ... mas o "orgulhosamente sós" é do tempo do Salazar...

Um- E o que tem isso a ver com este discurso?

O outro- ... se o discurso defender a não entrada na CEE... ou for agora usado para defender a saída da UE... tudo! Como se o Cunhal, que muito respeito pela coerência, e por, publicamente, em entrevista, ter declarado ter tido uma visão errada da sociedade ideal, não tivesse um dia desejado integrar a União Soviética...

Um- Não estarmos na UE não implica estarmos sós! Onde viste essa entrevista? Gostaria também de a ver...

O outro- ... creio que foi na casa dele, com a Judite Sousa... declarou, também, a vitória democrática de Soares!

Um- Bem... não quero dizer que não acredito no que estás a dizer, mas, desenquadradas de tudo o resto, é-me difícil avaliar essas frases isoladas.

O outro- O que eu memorizei foi, muito claramente, que ele, já velho, entendia o desajuste entre o modelo que defendeu e a realidade atual, à qual esse modelo não tem qualquer aderência. Não esqueçamos que Cunhal discursou perante líderes soviéticos na União Soviética. Era entendido por eles como um garante da extensão da URSS até ao extremo ocidental da Europa. Antes a UE que a URSS!

Um- Pois claro! Sabes lá tu o que foi viver na Rússia antes da Revolução. Só quem não sabe o que havia antes pode considerar a revolução Russa como má! Perfeita, não foi. Teria sido bem melhor se "Nações " do capital, logo após a Revolução, não tivessem declarado guerra à Rússia, uma nação que se tinha acabado de libertar dos "Czares". Todos esses factos contam; a Rússia melhorou muito em termos de economia, desenvolvimento e justiça social no regime comunista.

O outro- Sou um fã incondicional da revolução russa (exceto o genocídio da família Romanov). O que se seguiu, de Gulag para cima e de Estaline para baixo... foi infernal.

Um- Não defendo os métodos, mas não é um pouco isso que acontece em todas as revoluções? Não foi uma guerra que impôs o regime? Não acontecem mortes em todas as guerras? Não acredito que não tenhamos feito o mesmo aquando da expulsão dos mouros da península ibérica. Os vencedores em todas as guerras não matavam os seus inimigos e famílias? Qual é a grande diferença? Sei que estamos a falar de mortes, mas não vejo críticas tão grandes a outros acontecimentos similares no mundo.

O outro- Eu faço críticas similares a todos os regimes similares no mundo. A União Europeia não resulta de uma revolução armada e não matou ninguém a tiro!

Um- Ainda bem que explicaste isso de não ser a tiro. Porque mata de outras formas. Não estou a falar de regimes, estou a falar de revoluções, muitas delas que não alteraram sequer regimes, apenas provocaram alterações no poder. A própria democracia em que tu vives e em que a UE assenta foi conseguida a tiro em todos os seus países. A diferença é que, depois de conseguida cá, os outros países não nos atacaram por tentarmos impor essa democracia.

O outro- O ataque que alguns países fazem a países onde pseudo-ideais comunistas governam, como a Coreia do Norte, resultam de ser evidente que há lá ameaça para a civilização. Contudo, sempre que são ataques armados, como tantos dos EUA (no caso do ataque ao Iraque, governado por um partido pseudo-socialista), eu não apoio. Que precisamos lutar contra aqueles que pelo obscurantismo, seja político ou religioso, tentam dominar as massas, é evidente. A tiro é que não! Ghandi foi grande!

Um-Ninguém falou da Coreia do Norte, país do qual sei muito pouco sobre o seu funcionamento e organização. Acho que todos os países deveriam caminhar para o socialismo mas que os seus povos devem ser os responsáveis por esse caminho. Ghandi não foi Grande esse foi o Alexandre, no máximo foi "gandi" (forma fofinha de dizer grande). Não vejo onde é que a Revolução Russa e Cubana se tornaram ameaças para a civilização! Foram sim ameaças para os grandes capitalistas mundiais, aqueles que dominam aquilo a que chamamos "civilização".

O outro- Tornaram-se ameaças para a civilização quando foram lideradas por militares (militarização), sem reconhecimento democrático, e ditadores.

Um- Mas com ampla base de apoio do povo!

O outro- Não há base de apoio do Povo que não passe pela contagem de votos em eleições verdadeiras. O Salazar também dizia o mesmo, com todo o respeito por ti (que sei nada teres de salazarista), forjando, até, votações para justificarem a revolução de 28 de maio de 1926! As aclamações monárquicas portuguesas eram de "salas cheias" como se isso representasse uma Nação!

Um- O que eu acho é que as avaliações feitas pela "opinião pública" às revoluções comunistas no mundo são muito tendenciosas. Não concordo com estes regimes a 100%, acho que os povos deveriam ter tido a certa altura a hipótese de validarem estes governos com votações. Agora, não são piores do que a maioria dos regimes "livres" em que a sociedade atual vive. Acho que estes regimes são modelos válidos para muitas das teorias marxistas, e o que desejo para Portugal é a construção de uma sociedade com base nestes modelos mas imposta por um ganho de consciência social dos trabalhadores e do povo. Isso consegue-se envolvendo estes nos momentos importantes da defesa da sua classe, quer seja nos locais de trabalho, na rua (manifestações e greve), culminando com o voto. Gostava de ver essa entrevista do Álvaro porque tenho dificuldade em entender o contexto do que me estás a dizer...

O outro- Há muitos socialistas não apoiantes do comunismo português que se dizem da Esquerda Democrática. Não falo apenas de apoiantes do socialismo português. Falo de todos os socialistas portugueses que acreditam no voto como única forma de legitimar o poder. Falar de ampla base de apoio popular, revolucionária, sem votação seguinte, é, precisamente, como falar de luta sindical e, em momento de greve, aceitar que existam piquetes impedindo que trabalhadores, que não querem fazer greve, possam trabalhar. A ideia totalitária de que uns quantos, ruidosos, sabem o que é melhor para todos e que, portanto, se alguns se opõem, não têm esse direito e devem ser reprimidos, é, precisamente, a maior fragilidade de alguns dos pensadores atuais, ditos defensores do comunismo português, que não conseguem esconder a tendência para a luta a favor de uma ditadura do proletariado. Nenhuma ditadura pode ser minimamente decente. Nem do proletariado nem do patronato. Só há verdadeira democracia numa democracia participada e direta em que cada cidadão representa um voto. É a lei dos grandes números, estatística, a favor da civilização. Pode-se enganar muita gente pouco tempo. Pode-se enganar pouca gente o tempo todo. Não se pode enganar toda a gente o tempo todo! Cito-te para te dar toda a razão deste infinito-Universo: "...acho que os povos deveriam ter tido a certa altura a hipótese de validarem estes governos com votações..." Isto sim é a defesa da verdade! E, essa "altura", deve ser, sempre, o mais depressa possível. Aliás, isso aconteceu no Portugal do processo revolucionário em curso, felizmente!

Um- Num piquete de greve não está representada uma minoria, e ninguém é impedido de trabalhar. São coagidos a não fazê-lo no sentido contrário ao que o patronato faz. Tu vives numa ditadura do capital e, como é supostamente legitimada por votos, está tudo bem. És livre. Mas a verdade é que te escondem muita coisa e existem muitas pessoas que andam enganadas o tempo todo! Ninguém é livre enquanto não tiver direito à Paz, Pão, Habitação, Saúde e Educação! Não és livre quando nasces já condicionado pelas condições de vida da tua família! Aceito que as pessoas devam decidir o seu destino através do voto, mas que para isso tenham liberdade no momento de votar. Mas, desde o meu nascimento que a sociedade em que vivo me tem enganado. Vejo amigos meus que, por não terem tido a sorte de terem os pais que eu tive, que me abriram o olhos para além do óbvio, que me ensinaram a pensar, a refletir, a questionar, andam enganados! Mas, e os outros jovens, não passaram (grande maioria) pelo ensino, muitos deles até com graduações superiores à minha? Quando no nosso ensino público, que os cidadãos pagam, é que somos ensinados a viver em democracia, como é? Em que nos ensinam as leis da nossa sociedade para quê? É que a maioria do povo não as conhece... e porquê? Porque não interessa que as pessoas sejam informadas, porque pessoas informadas não se deixam enganar tão facilmente. Então se te “obrigam” a viver num país e apenas te obrigam a cumprir os deveres e escondem os direitos, não és livre. Quando um governo é eleito sobre falsas promessas e após dezenas de manifestações e demonstrações de que o povo já não os aceita como governantes não abdicam do poder, será que és assim tão livre?

O outro- Tu também vives assim... não apenas eu. O que se passa, em mim, é escolher entre democracia e ditadura, decidindo antes que a democracia se legitima pelo voto. A base de apoio do comunismo português, por exemplo, é a que é (10 a 15%, pouco mais ou menos). Não é a que resulta de ver uma manifestação. Barulho não legitima qualquer comportamento pseudo-democrático. Só o voto expressa a liberdade.

Um- Sim. Isso não está em causa. O comunismo português nunca alegou o direito a ser governo por as manifestações fazerem barulho. Exige, sim, a demissão de governos que se recusam a ouvir a indignação da população! Quer seja através de votos, manifestações, greves e/ou abstenção! O voto não expressa a liberdade se não for feito em liberdade, e a maioria das pessoas não é livre!

O outro-... devo dizer-te, como te disse antes, que há onde tenha havido uma tentativa de acordo entre socialistas portugueses e comunistas portugueses para as eleições autárquicas... os comunistas portugueses não quiseram  e, agora, temos lá o que tínhamos... e eu estava com os socialistas portugueses e teria agradecido uma coligação com os comunistas portugueses... de comunistofóbico nada tenho... receio, contudo, um governo português constituído por pessoas que, a serem comunistas portugueses, hoje e agora não conseguem, absolutamente, renegar o governo monárquico-esotérico-pseudo-comunista da Coreia do Norte... há liberdade de voto quando cada um pode votar em quem quer...

Um- ...liberdade de voto por si só não é liberdade...

O outro- A liberdade, em abstrato, filosófica, é inalcançável, utópica, limite assimptótico. A liberdade prática, de um homem que desde que nasce até que morre vive “com uma enxada na mão”, é a que é. E estimo que possam ser os comunistas portugueses a mais fazerem para serem pedagógicos para com essas pessoas, sempre que elas mantenham a confiança nos enviados dos comunistas portugueses. Cada um tem a sua missão. A mim, como se percebe deste nosso diálogo, interessa-me reduzir a diferença entre os 20% mais bem pagos e os 20% menos bem pagos. Isso não depende apenas do aumento do salário mínimo, mas também da redução do salário máximo. E é no Estado que a coisa dói. Porque é no Estado que mais facilmente se pode encontrar uma chefia negligente. Porque é no Estado que o rendimento ganho pelos assalariados não depende da produtividade. Este governo não é social-democrata nem democrata-cristão... é liberal. E o liberalismo económico apenas pode ser justo quando todos são capazes de negociar. Enquanto houver um único quase-escravo, de "enxada na mão" desde que nasce até que morre, não poderemos ter uma sociedade justa com um governo liberal. Há que educar, todos, para que um dia o liberalismo possa existir. O liberalismo é, apenas, para "equipas do mesmo campeonato". Na nossa sociedade pede-se que equipas de minis (crianças jogadoras de minibásquete) joguem de igual para igual com os Bulls de Jordan (equipa de basquetebol profissional). Apesar de todos saberem que para os apoiantes desses minis, minis são, apenas, pequenas cervejas...”

  
Nota do autor: Este diálogo resulta da transcrição editada do diálogo real entre dois amigos. Um, próximo do socialismo português, encaixável na chamável social-democracia global, outro muito próximo do comunismo português, encaixável no socialismo global. Ambos certos, ambos intelectualmente honestos, ambos em busca da verdade redentora da sociedade humana mundial, aceitaram expor as suas ideias, que, aqui, nesta crónica, se apresentam anónimas, mas, na sua origem foram expostas, passo-a-passo, frente-a-frente com uma audiência de observadores atentos.

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