12 Março 2015      00:00

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Pronomes de tratamento de 2ª pessoa

Professora, você já pôs os materiais na reprografia? é uma pergunta feita por alunos nossos na universidade, na qual o pronome de tratamento você não foge ao uso generalizado que do mesmo tem sido feito em vários tipos de interação verbal do viver quotidiano. Se, como canta António Pinto Basto em Fado Corrido - Mestre Alentejano: “[…] e tratam por você pessoas a quem venero [...]”, o uso deste pronome é de emprego corrente como forma da intimidade familiar, nomeadamente de filhos para pais - não só no Alentejo, como também em várias outras partes do nosso país - diz-nos a gramática do português europeu que o mesmo poderá ser também usado como forma de tratamento de igual para igual ou de superior para inferior (em idade, em hierarquia).

Reconhecendo que a língua é dinâmica, em adaptação às circunstâncias vividas pelos falantes e aos contactos – cada vez mais globalizantes – que os mesmos encetam, o que se verifica, na verdade, é que muitos falantes portugueses fazem uso sistemático daquele pronome para com as pessoas com quem falam, frequentemente ignorando outras formas de tratamento como a senhora/ o senhor. Veja-se, por exemplo, o que acontece na Escola (de aluno para professor ou entre docentes e funcionários), em qualquer tipo de actividade comercial (de funcionário para cliente), na televisão - no relacionamento entre apresentador e público assistente - ou até na prática clínica (de médico para paciente). Será esta, pois, uma influência directa do português do Brasil, país onde tal pronome é corrente?

A reacção dos alunos a quem fundamentadamente desaconselhamos aquela forma de tratamento é sempre de surpresa, assinalando: “mas nunca ninguém nos disse nada a este respeito”. Saliente-se, também, a dificuldade no uso de forma de tratamento revelada em textos escritos, nomeadamente em e-mails, que alunos nos enviam. Com efeito, neles as formas variam entre Profª, Profª + nome próprio, você e V. Exª. Ora, entre os pólos você e V. Exª, medeia, naturalmente, uma distância considerável, que, no caso último, também não seria de contemplar no contexto de proximidade regular mantido entre docentes e discentes. Distância essa que, na cultura portuguesa, não é desfeita, por exemplo, através do simples emprego do Nome Próprio, em interacção verbal, oral ou escrita, como acontece, por exemplo, entre alunos e docentes universitários em Espanha.

Muito menos se considera, neste mesmo contexto, o uso do pronome tu, de aluno para docente, sendo que em casos que ocorrem em sentido inverso, isto é, de docente para aluno, os alunos o aceitam sem qualquer tipo de reserva.

Poderá isto significar que o ensino das formas de tratamento não é alvo de devida atenção nos vários ciclos de estudos a que são obrigados na sua formação académica, apesar de elas serem fundamentais no relacionamento com o Outro.

A propósito do emprego do pronome de 2ª pessoa tu, como forma própria da intimidade mantida no seio de muitas famílias (mesmo de filhos para pais), entre amigos e até, por vezes, de médico para paciente, neste caso para além do uso de você acima referido, assinale-se a frequência que o mesmo assume no discurso de alguns actores do mundo do futebol - de Jorge Jesus a José Mourinho, de Cristiano Ronaldo a Luís Figo ou a Paulo Futre. Será pura influência da língua espanhola a que quase todos estiveram ou estão expostos, ignorando, assim, formas portuguesas, ou simplesmente uma estratégia de aproximação ao grande Auditório da modalidade, presente e ausente? Seja como for, este pronome de tratamento não deixa, contudo, de causar alguma estranheza nas alocuções proferidas por tais pessoas. Nomeadamente, diríamos, a quem, como nós, faz da análise do discurso uma prática regular.

Olga Baptista Gonçalves

Este texto é da autoria de Olga Baptista Gonçalves, Profª Auxiliar do Departamento de Linguística e Literaturas da Universidade de Évora, que não segue o novo acordo ortográfico.

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