25 Janeiro 2020      16:56

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Whiskey com raspas de limão

Dançava como uma estrela de cinema. Fazia sapateado de forma tal que parecia envergonhar o mais profissional dos profissionais. Sabia, sem dúvida, o que fazia. E sabia fazer essas coisas todas. Era um profissional exímio das artes e da arte. O seu sonho era participar, organizar e ser a grande estrela num espetáculo a solina maior casa de espetáculos da Italiândia. A ideia estava lá e as coisas pareciam encaminhar-se para dar certo.

No primeiro dia, surgiu a ideia. Apareceu ao acordar. Com um olho aberto e outro fechado, assim algo caiu e acertou-lhe como se fosse um relâmpago. Ia organizar no centro de congressos, um espetáculo visual de dança - “A morte do Pinóquio no campo de valquírias, assassinado pelo quebra-nozes na presença das três irmãs, contra a vontade da Madame Butterfly.” A ideia parecia e era excelente. Tinha tudo para dar certo e Lopinho sabia o que fazer. O primeiro passo nesse dia foi sentar-se ao computador e escrever a ideia, que era na sua opinião, brilhante.

Segundo dia, candidatar-se aos apoios do Estado para a área da cultura. Eram muitos na Italialândia, imensos. 50% do PIB era para a cultura. Havia de conseguir o apoio. Pois, talvez... isso saberemos no vigésimo terceiro dia.

Terceiro dia, comprar roupinhas e material para a grande obra que, diga-se de passagem, também foi composta por si. A música era sublime. A envolvendo apaixonante e tudo era perfeito.

Quarto dia. As borboletas acomodavam-se no estômago e começou os ensaios. Iniciou sozinho pois a peça era de uma pessoa só e não queria gerar confusão. Sabia o que fazia.

Esta pessoa neste dia ensaiou 16 horas seguidas. O esforço seria recompensado, pensando bem.

Passaram muitos dias até que chegou o dia da carta que tinha sido enviada pelo Estado e que dizia o valor do subsídio que teria, porventura, sido atribuído. Eram favas contadas, pensou mal vou a carta no correio. Tinha tudo para dar certo. Abriu a carta a medo e lá dentro a resposta. 100 euros de subsídio. Caiu-lhe tudo. Que faria ele com a miserável quantia de cem euros... que raio ia fazer de grandioso para um valor que nem dava para pagar um quarto de hotel...

Tantos dias a esperar e o final tinha sido dramático. Mas esta pessoa não desistia. Tinha a teimosia e perseverança de um asno. O que conseguia ser por vezes. E sentia-se bem assim. Já que não o deixavam produzir o

Espetáculo fabuloso, ideia maravilhosa, havia de comprar um gravador com colunas, com aqueles cem euros e pôr-se ao lado do centro de congressos e mostrar a todos o que tinham perdido ao negar-lhe tal privilégio!

Dia trinta. Trinta dias de sofrimento e trabalho árduo.

Pôs as melhores leggings e rádio de colunas daquelas à anos 80 e avançou ao lado da porta principal do lugar onde devia ter sido a sua grande estreia. Lá, estendeu um tapete e começou a performance. Que brilhante espetáculo, pensava.

No final do dia, exausto, reparou que tinha 20 euros de gorjetas que lhe tinham deixado. Afinal tinha tido algum lucro, descontando o preço da roupa e do tijolo das colunas.

O que fazer? Bem... a decisão foi fácil. Agarrar nos vinte euros e ir beber um whiskey de 12 anos com raspas de limão.

O quê? Raspas de limão no whiskey? - perguntou o empregado. Sim, são melhores do que gelo! - respondeu.

Bem, assim seja. E aí teve uma ideia. E foi assim que o espetáculo tão desejado passou daquele nome comprido e complicado para Whiskey com raspas de limão, e todos os dias o fazia e repetia.

Ao fim de um mês já tinha comprado uma garrafa e uma dúzia de limões. Abençoado cultura!

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