16 Fevereiro 2019      10:29

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VII. O princípio do desfecho

Na casa da ex-mulher de Amaro, os investigadores não encontraram nada relevante, que pudesse indiciar o que terá acontecido, o motivo do seu desaparecimento. Mentimos, embora não tivessem encontrado nenhuma pista evidente do desaparecimento da senhora, faltava na casa, uma mala, algumas roupas e o perfume preferido da desaparecida, notou um dos filhos. Evidentemente, poderia ter sido uma estratégia para encobrir o crime, se tivesse havido crime. Só podia ser isso, pensaram os investigadores. Na cabeça dos filhos havia ainda a dúvida. O pai não poderia ter feito aquilo. Achavam ambos que não era possível. Talvez.

Os neo-zelandeses reuniram-se depois com os portugueses e, desolados, despistavam agora toda a esperança de encontrar um rasto no apartamento de Amaro ou no seu consultório.

O dia acordou cedo, como sempre acorda e era o dia de irem ao apartamento. Ficava num dos bairros novos de Lisboa. Tinha dois quartos e uma garagem onde estava o carro do médico estacionado. Teria apanhado um Uber para o aeroporto? O telefone dele tinha desaparecido, e não tinha sido possível ainda aceder à sua conta online.

O apartamento estava desarrumado, um pouco à semelhança do quarto que tinha na Nova Zelândia. No frigorífico, alguns legumes e fruta bolorentos, queijo em igual estado de deterioração e um sumo com aspeto estragado. Havia muito tempo que ninguém ia ali, claramente.

No quarto, a cama por fazer e um odor a tabaco ainda no ar, emanando de um cinzeiro com duas beatas. A porta do armário estava aberta e faltava ali também uma mala, notou um dos filhos. Teriam fugido juntos? Teria assassinado a mãe e deixado a mala em qualquer sítio para fingir que tinham fugido juntos.

Daquilo que conheço de Amaro, da sua inteligência, seria ardiloso ao ponto de fazer isso é de pensar nesses pormenores, mas não o via com tamanha maldade. Não era um homem mau.

Iriam então ao consultório. Ficava num hospital público de Lisboa e ninguém lá tinha entrado desde que o senhor doutor desaparecera. Falaram com a auxiliar de serviço, que lhes abriu a porta e a quem fizeram uma série de perguntas. Como convém, a senhora era bastante interessada nos assuntos alheios e notara efetivamente que o senhor doutor andava meio estranho. Tinha notado também e bem que, dois dias antes a ex-mulher tinha aparecido e tinha discutido no gabinete. Não ouviu o que disseram mas ele ficou visivelmente enervado. Tanto que saiu a correr logo que a mulher também saiu do gabinete.

No dia anterior ao desaparecimento, recebeu uma chamada telefónica que o deixou ainda mais perturbado. O homem gritava, não não! Notou isto a auxiliar de serviço. E, no dia seguinte, simplesmente desapareceu. Nunca mais ninguém o viu.

Os detetives vasculharam o computador em busca de alguma informação, mas nada. Foram ao lixo e aí sim, amarrotado, tinham uma estranha nota que dizia EK194. Que poderia querer aquilo dizer?

Dadas as circunstâncias, interveio um dos detetives poderá querer dizer que é um voo? Fez rapidamente uma pesquisa e, bingo, era o voo da Emirates de Lisboa para o Dubai, o que sai à noite. Já havia mais uma pista. Poderia ser a grande abertura para a descoberta do que acontecera.

Deslocaram-se, logo se seguida a companhia aérea para verificar se aquele passageiro de seu nome Marcelino Amaro tinha embarcado. Confirmava-se! Amaro tinha embarcado e tinha ido para o Dubai. E mais, no mesmo voo, seguira a ex-mulher de Amaro. Tinham viajado no mesmo voo até ao Dubai. E de lá, seguiram para Hong Kong. Continuaram viagem juntos. Cada um deles viajara com uma mala de cabine e nada mais.

Começavam agora a perceber melhor o que acontecera, ou pelo menos assim pensavam. Porém, era preciso agora ir a Hong Kong continuar o rasto do ex-casal. Teria de haver lá alguma resposta. Passos seguintes, contactar a polícia daquela região administrativa especial para tentar identificar os sítios onde tinham ficado, que cartões tinham usado, se os tinham usado, em que hotéis se instalaram, a duração e os passos seguintes de ambos. Amaro, já sabemos, acabaria os seus dias de vida na Nova Zelândia, como um homem atormentado. Sobre a mulher, nada ainda. Hong Kong daria mais respostas, acreditavam.

Contactaram a polícia e, feitos os preparativos da viagem, embarcaram no voo, também da Emirates. Chegariam a Hong Kong 18 horas depois.

 

(continua)

 

 

 

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