20 Janeiro 2019      12:03

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A Vertigem de Marguerite Duras

A Vertigem de Marguerite Duras (Détruire Dit-Elle, 1969)

- L’Homme Révolutionnaire:

Marguerite Duras, enfim, a mais notável das escritoras, e também cineasta do dizível infazível, sempre trabalhou na margem do Ser Revolucionário. Ser sonhado, incapaz de alcançar a plenitude, apesar de perfeitamente capaz de expor a sua mágoa e, a certo ponto, a sua necessidade (de mudança, claro está – o paraíso da ideia por concretizar). Só que, digamos, tal regime tende a tornar-se abstracção, vai durar 'para sempre'.

Abreviando: Ser Revolucionário ó Ser aberto ao mundo e ao seu entendimento, mas destinado a falhar, i.e., incapaz de fazer.

- O Diálogo / A Vertigem:

Afirmar que Marguerite Duras utiliza o diálogo com maestria absoluta é afiançar o óbvio. Mais importante é a) descobrir / b) revelar a chave que permite abrir tal porta: a essência da sua personagem modelo

(na obra de Duras, a personagem é sempre gerada no mesmo centro e é sempre regulada pela mesma norma – dito de outro modo, partindo de um típico conjunto de figurações, partem todas de uma posição semelhante (se não a mesma, vistas como símbolo) e, à partida, nenhuma tem vantagem sobre outra, pelo que, em rigor, não se distinguem, como não distinguimos os peões num jogo de xadrez. A individualidade é em todo o tempo uma busca infrutífera e nunca uma condição de afirmação).

As suas personagens estão necessariamente presas a todos os instantes vividos, impactam de igual forma e com igual força; pelo que, toda a acção-reacção redunda muito naturalmente num estado de constante perplexidade.

Quando falam e se dirigem umas às outras, fazem-no num contexto filosófico (binómio: dúvida / metodologia) – regem-se dentro de uma dinâmica metafísica. Assaltadas por incertezas, não podem verdadeiramente decidir, mas, ainda assim, correm riscos, pelo que acabam por se deslocar de um ponto para outro. Contudo, não é possível afirmar que avançam ou recuam. O movimento entre pontos é efectuado através de passadas suaves e sem inflexões; o olhar fixo no horizonte, vítreo, como se seguissem sinais e não conceitos, talvez intuições.

Dão azo ao poder dos sentidos e estão sedentas de sensações, mesmo que não compreendam o todo que as envolve e condiciona. Não sabem o que fazer – e, todavia, perante a oportunidade não dizem não ou nunca.

Enfim, uma ou outra é a excepção que confirma a regra, e a essas espera-as o abismo sem a delícia da vertigem. A ausência nos termos da tirania da eliminação (uma coisa é nunca ter existido; outra, deixar de existir, a contemplar o fundo sem forma).     

O princípio do terceiro excluído, segundo Duras: viver sem rumo na amplitude dos sentidos… Em consciência, claro está. Ou então a queda no abismo da Doença...da Morte.

 

Marguerite Duras, a verdadeira mulher-fatal.

 

 

Imagem de cdn-images-1.medium.com

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