2 Fevereiro 2019      13:02

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V. A investigação

Na esquadra, os dois investigadores começaram a juntar as peças do puzzle. O caminho que tal investigação seguiria ainda não era muito claro. Aparentemente não havia sinal de crime, aparentemente, a vítima morrera sozinha, no meio daquela rua, sem que essa morte fosse causada por terceiros. Após os dias em coma, vivendo imagens num subconsciente que nunca poderia reportar, os órgãos vitais do falecido decidiram parar e as máquinas que os mantinham foram desligadas. Não foi o primeiro caso, não será o último.

Na esquadra, em cima de uma mesa estendiam-se vários objetos da vítima. A escova de dentes, cheia de bolor, a lâmina de barbear enferrujada ainda com pequenos resquícios de sabão e pelos retirados à força da pele. As camisas amarrotadas, os casacos rotos. Toda a imagem refletia os últimos anos daquele pobre homem que perdeu tudo o que tivera. Tudo naquela mesa era a continuação dele, depois da morte. As coisas que ficam de nós são a nossa continuação no futuro que não vemos.

Havia também, a mala de viagem, já sem rodas e de tamanho modesto que estava em cima dessa mesma mesa. Dentro dela, uma pasta cheia de documentos. No entanto, em nenhum deles se indicava claramente a identidade daquele homem. Nunca, por eles, saberiam a sua origem. Tinha escondido muito bem a sua idade. Longe de tudo e de todos, era anónimo.

Era necessário fazer um teste de ADN para descobrir algo mais. Isto se tivesse, algum dia, sido recolhida uma amostra do seu ADN para qualquer fim. Poderia ter feito um dos testes que agora se fazem para saber a sua origem genética. A base de dados da polícia assim o ditaria se dele houve traço genético. Foram retirados cabelos e outros elementos que permitiram essa identificação. Um dos passos e o mais interessante para a polícia. Não para nós que já sabemos a identificação, mas para os polícias cujo início da investigação era muito semelhante a uma tábua rasa.

O teste ditou que o falecido tinha 79% de constituição do ADN ibérico, principalmente português, 7% italiano, provavelmente derivado da presença romana no território português, 6% judeu sefardita e o restante do norte de África. Ele era, portanto, como tantos outros portugueses. Para nós, não constitui novidade, para os investigadores sim. Falavam entre si sobre a descoberta num interessante sotaque. Confrontaram de seguida os resultados com as bases de dados policiais de outros países ou redes policiais e eis que, do nada, surge a cara do homem que tinha morrido no meio de uma rua. Era português e era a pessoa que eu conhecia bem. Ou melhor, que eu tinha conhecido no passado, até ao seu desaparecimento.

O passo seguinte foi o de contactar a polícia portuguesa. Tinham de informar a família e resolver o mistério, até nas suas próprias cabeças, das razões que levaram àquele homem a renunciar à sua família, ao seu país e ter ido para tão longe. Que teria feito de tão horrível ou que teria acontecido que o marcaria e levaria para longe? Tudo são perguntas que nos surgiram à medida que vamos avançando no adensar nesta história. Estava nos antípodas do que tinha sido, a todos níveis. Ali morrera sem passado. Somos nós o sabemos. Só a polícia de Wellington, Nova Zelândia poderia resolver o enigma e recuperar a memória do falecido.

Uma semana depois, os dois detetives apanharam um voo da Quantas em direção a Lisboa. A viagem para lá seria longa e a viagem de regresso teria várias paragens. Todos os lugares onde ele também parara.

 

(continua…)

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