20 Fevereiro 2021      14:05

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Uma família de papagaios

Era uma larga família de papagaios, uma família tão comum como qualquer outra família, só que esta era de papagaios. Eram o papagaio, a papagaia e os papagaios pequeninos que somavam na totalidade, dez. Era uma família numerosa de 10 pessoas.

Na cidade onde moravam, não eram os únicos, porém esta família era especial porque é dela que vamos falar. Imaginem uma casa pequena onde viviam a família toda junta. Imaginem a situação em que viviam, numa completa confusão. Os conflitos geracionais e intergeracionais acumulavam-se e multiplicavam-se a cada momento. Até entre o pai papagaio e a mãe papagaio as coisas complicavam-se, não raramente.

Eram, no fundo, uma família normal, com características e dinâmicas de uma família numerosa.

Os perfis das crias eram idênticos aos de qualquer outra família. Os dois mais velhos andavam já na universidade, quatro na secundária, um no ensino básico e o mais novo estava ainda na creche. Assim tinha de ser porque a mãe trabalhava a fazer vozes em programas de televisão e o pai era motorista internacional da TIR. Passava algum tempo fora, o que por um lado nem era muito mau porque assim não havia ainda mais discussões do que as já existentes quotidianamente.

No entanto, o que era interessante desta família? Eram as cores? Não tanto quando a contente gritaria que aquela casa era, todos imitando todos e todos falando ao mesmo tempo. A pobre mãe já não tinha paciência para aguentar aquela prole toda. Ficava-se pela falta de paciência porque tinha de os aguentar a todos.

Entre os adolescentes, as hormonas de papagaio saltavam à vista e os problemas típicos da adolescência acumulavam-se. O pai passava a batata quente à mãe e a mãe lá tentava, dentro das suas possibilidades, resolver as problemáticas e os dramas. Era quase sempre difícil. Tinham de mudar de vida e pôr a render aquela confusão toda que, acreditava, existiria algum ponto positivo.

Durante um dos seus trabalhos de vozes, dobragem do filme Rio II, ouviu a produção falar num reality show destinado a famílias numerosas com inúmeros talentos. Era isso! Ia pôr a papagaiada a fazer alguma coisa de útil e aprender um talento! Iam entrar no concurso.

O pai faria mímica, era melhor deixá-lo de bico fechado. A mãe, claro, imitaria vozes e os restantes membros da equipa aprenderiam um talento único. O problema foram quais e a sua contestação, mas inscreveram-se.

O programa chamava-se A Casa da Passarada e tinha sido já um sucesso em diferentes vertentes e com diferentes espécies. Neste, só poderiam entrar aves. Coisa rara, mas que tinha de obedecer às regras do concurso.

Ensaiaram durante meses e durante todo esse tempo tinham a certeza que iam ganhar! Ainda sem saber quem eram os adversários, a vitória estava à vista, acreditavam.

Pois bem, sabemos agora que os restantes candidatos eram uma família de patos, uma de galinhas, outra de catatuas. Estavam também, ainda, entre os concorrentes, uma família de águias, outra de abutres, uma de piscos e uma de perdizes.

Entraram todos para dentro da casa, onde seriam vigiados o tempo todo, as suas vidas manipuladas e dissecadas, dentro e fora da casa. Que bom que era ser famoso! Toda a gente falava neles. Pelo menos na primeira semana, assim seria. Eram uma família exuberante, cheia de cor. Todos esperavam ver o seu talento. A mãe tinha preparado, dentro e fora da casa, um espetáculo organizado e cronometrado. Começaram lindamente com aplausos do público e do júri, mas rapidamente tudo descambou e começaram todos a imitar-se e a gritar como papagaios. Foram, pois claro, a família mais votada para sair e num ápice, a semana pôs todos de volta à casa inicial e sem nada. Na rua, alguns ainda os conheciam e riam, às escondidas. Nunca mais participaram em nada e o tempo esqueceu-os.

E quem ganhou o concurso? Pois bem, foram os patos que tão bem se sincronizaram na famosa canção: Todos os patinhos sabem bem nadar... cabeça para baixo e rabinho para o ar...

 

 

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