28 Novembro 2018      10:26

Está aqui

Uma estrada, tantas histórias…

Muito se tem dito e escrito sobre a tragédia que recentemente afetou a Zona dos Mármores. Um acontecimento nefasto, sentido sobretudo por Borbenses e Calipolenses que, a diário, percorriam este pequeno troço que ligava as localidades vizinhas. Nós, mais que ninguém, sentimos na pele a perda dos nossos conterrâneos e partilhamos a dor das famílias e dos amigos. Algo irreparável e que nunca será esquecido.

Gente de trabalho, que lutava diariamente para pôr o pão na mesa. Pessoas que tinham sonhos e ambições como qualquer um de nós e que viram essa esperança perdida de forma trágica.

Uma palavra de reconhecimento para os operários da pedreira em questão, que trabalharam durante dias a fio, para resgatar os corpos dos colegas que ficaram soterrados. Uma tarefa inglória, que não tem sido notícia, para aqueles que assistiram a esta desgraça no preciso momento em que tudo ocorreu.

Nestas situações dramáticas, a tendência vai no sentido de serem encontrados responsáveis pelo que aconteceu. Todos querem apontar o dedo, procurando no passado motivos e razões para o sucedido. Lamento que muitas vezes sejamos tão cruéis ao ponto de crucificar, sem conhecimento de causa, aqueles que deram o “peito às balas” nesta hora crítica. É fácil julgar, mas difícil conhecer os problemas e a sua génese.

Muitos dos que agora comentam nunca por aqui passaram…

Não conheço pessoalmente o Presidente da Câmara Municipal de Borba. Não pertenço à sua família política, nem acompanhei na íntegra o seu percurso enquanto autarca. Mas reconheço e admiro a sua coragem, ao assumir as suas responsabilidades, numa situação particularmente difícil. Não aceito que sobre ele recaíam agora todas as acusações.

Tal como em relação aos empresários, que souberam durante décadas promover esta região e gerar riqueza e empregos, levando o mármore português aos quatro cantos do mundo. Também eles deram o seu contributo, através do seu trabalho, para que a Zona dos Mármores fosse um “oásis” de progresso e desenvolvimento no Alentejo. Dizer perentoriamente que a culpa é de um ou de outros parece-me extremamente injusto.

Haverá certamente culpados. Aguardemos os resultados das investigações. Ninguém esperava que isto sucedesse. Continuámos a passar na “Estrada de Borba” vezes sem conta. Sem nos apercebermos do perigo. Fomos alertados ou foi um risco da nossa parte? Afirmar que não sabíamos de nada é um pouco abusivo.

Talvez seja o tempo de refletir sobre tudo o que se passou e apurar todas as verdadeiras causas para esta catástrofe. Será que o Estado pode “sacudir a água do capote”?

Nós, os que aqui vivemos, sabemos mais do que ninguém o quanto nos dói toda esta situação. Foram muitas histórias e vivências que tiveram a estrada das pedreiras como “pano de fundo”.

Hoje passei a pé pela antiga nacional 255, através do troço que vem desde a Horta Nova até à antiga Porta da Vila, conhecida como a Porta dos Nós. Muitas memórias me vieram ao pensamento. Não vi movimento, carros a circular ou camiões a percorrer a estrada até às pedreiras e serrações. Apenas um silêncio ensurdecedor. Muito mudou nos últimos dias.

Mas tenho esperança que esta tragédia possa servir de lição. Talvez seja uma triste oportunidade para que se olhe para o sector dos mármores com uma outra atenção. Desejaria que este momento infeliz contribuísse para o renascimento das pedreiras, com um outro enquadramento legal ou com novas utilizações em termos turísticos, salvaguardando sempre todas as questões de segurança.

Teríamos que passar por tudo isto para ver isso acontecer? Seguramente que não…

Mas será necessária alguma contenção nas acusações que são feitas com o “sangue a ferver”. É fácil lançar suspeitas, mas complexo entender todas as razões que conduziram a este desfecho trágico.

 

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