12 Maio 2019      13:04

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Um monólogo pós-2008

Sobre o estar de fora – Um monólogo de través pós-2008, do qual, estranhamente, ainda não resultou um filme.

Alguém exclamou, a rapariga, e desse impressivo tumulto final nada se pode aproveitar. Do que foi dito antes, um pouco mais: palavras casuais, com a pretensão da melodia e contudo traídas pelo arrastar gorgolejante do nervo, como se em metal rasante: "Não! Recontro! Fome! Eu! Todos! Nunca! Pois então."

Quanto ao que a voz não definia, era assim: rosto de miúda, os olhos meio escondidos, talvez esverdeados, bastante claros, a boca memorável, por expressiva, como o esboço de um Mestre no intervalo da tarde a preparar a hora mágica, cabelo curto, como precisamente convém e, estranheza, a ausência de nariz como imagem – Coloca-se um: aguçado, irreverente, nem pequeno nem grande, justo.     

Nisto um dos homens – eram dois – falou, a expressão de abertura como se para um palco imaginário, elevando-se ligeiramente da cadeira da esplanada, e depois, já sentado, como um entrevistado de perna cruzada distante do mundo real, isto é, como se verdadeiramente soubesse ou acreditasse saber, não é assim tão diferente, podem crer:

“Seja feita a vossa vontade: Todo o Homem-Vivo (com maiúscula, e apenas esse) é filósofo por formação, logo o tipo que aqui nos trouxe, sagaz, não poderia escapar a esse ónus, "eu valido o meu percurso nas vossas contradições, e faço-o com um sorriso honesto, no qual exponho também as minhas", é o tal estar do lado de fora que discutíamos antes do teu acesso de loucura…

O que – e que se lixe o tipo a partir de agora! – levanta um problema interessante, e por problema entenda-se questão intersecção de questões: Quem se pode colocar de fora – Quem tem esse direito? A resposta é clara e unívoca, ou devia ser: O eu pode, porque em rigor já parte de fora – uma parte substancial do ser está assente num processo de recolha e construção, a individuação pela cultura – cultura essa que vem de uma circunstância exterior ao individuo, que a pode inclusive rejeitar. Um partido, uma organização, não, precisamente por necessitar de e assentar num padrão, pois quem está fora do partido não lhe pertence – ponto.

Por isso, a revolução, essa mesmo, que te leva aos clamores insanos, e tu pensas ser tão diferente disto, tanto precisa (pelo menos numa primeira fase, nada menos que a decisiva) do indivíduo para se regenerar e potenciar, quer como conceito, quer como atitude. De uma vez por todas.

A aquisição de valores. A começar na individuação, conceito junguiano, anterior natural dos resultados do processo revolutivo. E para quê? Valores – valores unos e universais, os tais de cuja validade vocês tanto desconfiam. Como quase todos nestes tempos com sabor a fim. Mas não todos. Não Dostoevski, que era de outro tempo. De pena lesta e boca em esgar escrevia que o futuro reside na Universalidade, não pela conquista, mas pelo maior dos ideais: a união de toda a humanidade.

Os partidos estão à partida condenados pela genética, mesmo os novos, pois já partem de uma necessidade de contrariar os existentes. E não podem acrescentar? Sim, claro, mas não hoje, as pessoas desconfiam e estão mal preparadas para reconhecer o diferente, e por outro lado sentem o diferente como antes o foram todos os diferentes, sequência do dito de Lampedusa - ‘que mude para que fique na mesma’. Estão escaldadas, e é preciso dizer que com uma certa razão… Ou seja, as instituições per si não têm valores, representam quem os domina, tornam seu o que em rigor não é de ninguém ou é de muito poucos, e depois tentam expandi-lo como lógico ou, bem pior, por ser perfeito.

Assim sendo, para voltarmos ao conceito-base:

(o que é que cabe a cada um, dentro do que é de cada qual)

resta o óbvio, o indivíduo.

Sublime ironia, a revolução possível não existe senão em nós próprios, um macrocosmos de harmonia como destino final pelo cruzamento de biliões de insurreições com resultado incerto. Utopia – A Ilha dos Sonhos? Sim, a revolução possível por contraponto com a revolução ansiada que já sabemos por A + B redundar de modo inevitável em fracasso.

E é o único caminho disponível? Tempos medíocres precisarão de risco ou quietude? … Precisam de tempo e do melhor de uma individualidade responsável – sem religião, por exemplo.

Mas, por outro lado, o que fazer com o frio no estômago perante a beleza do fundo do abismo que só uns quantos iluminados num dado momento parecem entrever? Estamos bem tramados, portanto.”

 

Imagem de rbth.com

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