18 Maio 2018      11:10

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Um dia de Desencantos

Os dias são assim, a forma como correm acaba por condicionar as vontades que tínhamos ao início do dia. Não cai desamparado na cama, mas conto fazer isso depois de embrulhar os desencantos de hoje nesta meia dúzia de caracteres.

Sei bem que profissionalmente nem todos os dias são bons, mesmo tendo o privilégio de em grande parte da minha vida fazer coisas que me dão gozo fazer. Hoje o dia profissional não ajudou, mas não é um dos meus desencantos de hoje. As relações verticais podem e devem ser admitidas desde que, sejamos capazes, sempre, de salvaguardar aquilo que é essencial: defendermos em liberdade e com dignidade/empenho aquilo que nos compete defender.

As notícias ao longo do dia sobre o Sporting, o meu clube do coração, foram atiradas para a fogueira do ridículo, como seriam em qualquer circunstância, quando tudo o que acontecia no médio oriente ia sendo relatado com a simplicidade contabilística do acumular de mortos e feridos. Jovens, mulheres e homens foram morrendo ao longo do dia por se manifestarem contra o estado de Israel, contra aquilo que chamam de ocupação e contra aquilo que entendem com ultrajante que é o reconhecimento (pelos estados unidos) de indivisibilidade da designada capital de Israel (Jerusalém).

Dizem uns que o Hamas instrumentalizou palestinianos a protestarem de forma violenta investindo, com pedras, contra a fronteira do estado soberano de Israel. Apedrejando os militares Israelitas que tinham armas automáticas e que dispararam.

Outros dizem que Israel é um estado terrorista e que assassinou 50 pessoas hoje!

Que dizer de expressões como “estamos a defender a paz para o nosso povo e não vamos parar enquanto não a alcançarmos…”. Quem é que é capaz de adivinhar, com segurança, se a frase foi proferida por um palestiniano ou por um israelita?

Comia eu uma pizza ao jantar e, na minha frente, a televisão mostra tudo no seu excesso de imagens, de sons e de pessoas em fuga anárquica por entre os destroços da humanidade. Que distância tão humilhante que sinto entre aqui e ali. Na televisão a entrevistadora pergunta ao entrevistado “…o que fazemos agora? Que atitude deve Portugal tomar?”

E a imagem da Ivanka Trump a dar a boa nova da embaixada prometida pelo pai entra pelo ecrã dentro como se fosse algo surreal. Uma jovem bonita, no meio do caos, a representar, substituindo o pai que, numa atitude de total cobardia, aparece apenas via vídeo. Diz que prometeu e que cumpriu. Dizem que se fez história! Morreram 50 pessoas e 2400 ficaram feridas pelo que sou tendente a concordar com essa ideia.

Não embarco nos histerismos nacionais em defesa de uma ou de outra posição (que é coisa que não entendo muito bem porque o fazem). Todos sabemos que a história, naquele local, é intensa, mas mesmo assim é muito difícil aceitar que as duas partes de um conflito neguem a dignidade e a liberdade a todas as pessoas.

Hoje, por causa da história daquele local, não será um dia muito diferente de muitos outros que se tem vindo a vulgarizar anos após anos e gerações após gerações, de pessoas comprometidas com um conflito, aparentemente, eterno. Foi um dia de raiva e um dia de recorrentes desencantos.

Talvez, afinal, não haja nenhuma novidade neste evento de hoje!? Isso é muito preocupante e é o maior desencanto de todos pois remete as mortes e os feridos de hoje para a fogueira da irrelevância. As mortes não podem ser irrelevantes, nem por Deus, ou mesmo pelos Deuses todos.

 
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