19 Julho 2018      13:15

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TRUMP – Da incredulidade ao pessimismo

Não gosto de Donald Trump. Nunca me identifiquei com a sua forma de estar e com o estilo que cultivou, muito antes da sua entrada na vida política.

Quando se tornou candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, fiquei surpreendido, pensando que se tratava de mais um episódio caricato, semelhante ao exemplo vindo do Brasil, quando o célebre humorista Tiririca se propôs a ser deputado federal por São Paulo em 2010. Ou seja, não era para levar a sério. Ou, para engano meu, talvez fosse.

A minha estupefação foi enorme, quando nas primeiras horas da manhã do dia 8 de Novembro de 2016, a minha mulher me diz que Trump tinha ganho a Hillary Clinton. Uma surpresa desagradável.

Fiquei muito apreensivo com a notícia e pensei que se tratava de um qualquer mal-entendido. Donald Trump, presidente da maior potência mundial?! O que é que isto quer dizer? Sinais de mudança? Vitória do populismo (um termo agora muito em voga)? Que preparação tem o individuo para desempenhar este cargo?

Penso que a maior parte dos europeus teve a mesma reação. Meio mundo ficou incrédulo com o desfecho da campanha eleitoral americana e com os resultados verificados. Foram considerados por muitos analistas como um “retrocesso civilizacional”.

Mas penso que todos despertámos para uma realidade que é bem diferente da nossa (como salientou, e muito bem, o nosso Presidente da República). Trump representa uma grande percentagem do eleitorado americano, que se revê no seu discurso ideológico radical e nas promessas eleitorais apregoadas durante a campanha.

Os votantes que deram a vitória ao Partido Republicano são conservadores nacionalistas e identificaram-se com o discurso anti-imigração de Trump, levado até às últimas consequências. E esta é que revelou ser a verdadeira sociedade americana. Pelo menos, a grande maioria.

O segmento da população das terras do “Tio Sam” que nós conhecemos melhor e que é representado pela classe intelectual, um tanto ou quanto elitista, ligada às artes, ao cinema e à música, não se identifica, na minha opinião, com as medidas que tem vindo a ser adotadas, quer a nível da política externa, quer a nível da política interna, por Trump. E têm erguido a sua voz contra a atual gestão do seu país.

Mas esses votos e essa aparente influência não foram suficientes para originar um outro cenário político nos Estados Unidos.

O discurso demagógico e ofensivo de Trump, alicerçado numa forte presença em alguns media nas décadas que antecederam a sua eleição, chegou de facto ao coração de muitos americanos, que se sentiam inseguros com o aumento do número de imigrantes, frustrados com a falta de emprego e amedrontados com ameaça terrorista global. Falando sobretudo para este eleitorado e colocando a América em primeiro lugar na sua propaganda, estavam criadas as condições para a sua vitória, o que veio efetivamente a acontecer. Apesar das polémicas, das controvérsias, dos escândalos e das notícias que falam do alegado envolvimento russo nas eleições americanas, a verdade é que Trump vai ditando as regras no xadrez político mundial, com a tomada de posições firmes em relação à União Europeia, à China e ao conflito coreano.

E se a aversão que a maioria dos políticos e meios de comunicação europeus promove em relação a Trump é um facto, é claro que este parece estar completamente imune e indiferente em relação a todos os ataques de que tem sido alvo, estando já a pensar numa recandidatura em 2020.

Com uma estratégia baseada no conceito do “orgulhosamente só”, Trump vai levando a “água ao seu moinho”, para surpresa da comunidade internacional, esquecendo até o papel importante dos Estados Unidos a nível da NATO, das Nações Unidas e na defesa dos direitos e das liberdades. Parece claro que muitos líderes europeus e mundiais têm vindo a “engolir sapos” de forma consecutiva, tendo em conta as políticas erráticas de Trump em diversas matérias. E se os media têm promovido uma verdadeira e agressiva campanha anti-Trump, na minha opinião, esse facto só fortalece o líder americano.

Infelizmente para nós, penso que a postura “trumpista” ainda vai trazer muitos dissabores, a curto prazo e com consequências imprevisíveis.

Mas com os índices de popularidade interna tendencialmente a aumentar, o presidente americano reforça a sua moral e os seus argumentos, para dar continuidade às suas ideias e estratégias políticas, muito distantes de uma certa “América” liberal e tolerante que todos conhecíamos, representada, afinal, por uma aparente minoria mais esclarecida.

 
Image de capa da http://time.com
 
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