O 4.º Censo Nacional de Sisão, coordenado pelo BIOPOLIS/CIBIO e divulgado em junho de 2026, estima a população actual da espécie em apenas 1.736 machos — um declínio de cerca de 90% face ao primeiro censo, realizado em 2006. Os resultados foram classificados como “alarmantes” pela SPEA-BirdLife, que acusa o Estado português de falhar claramente as suas obrigações ao abrigo da Directiva Aves da Comissão Europeia por não implementar medidas de conservação eficazes. O sisão não é a única vítima: a abetarda, ave emblemática das estepes alentejanas que atingiu o seu pico máximo de 1.400 aves na ZPE de Castro Verde em 2012, conta hoje com cerca de 800 exemplares, e o tartaranhão-caçador segue a mesma trajectória de colapso. A causa é sempre a mesma: a substituição dos cereais de sequeiro por olivais e amendoais intensivos transformou radicalmente a paisagem do Alentejo.
A explicação para este colapso está nas políticas agrícolas que moldaram o campo alentejano nas últimas duas décadas. A produção de cereais deixou de ser subsidiada em 2005, com os apoios a serem reorientados para pastagens de gado, e o financiamento europeu através da Política Agrícola Comum tem apoiado culturas permanentes intensivas que destroem o habitat, enquanto as medidas agroambientais que incentivam a manutenção de cereais de sequeiro continuam subfinanciadas e de adesão voluntária. O resultado é uma paisagem transformada: as estepes cerealíferas que cobriram durante séculos as planícies do Baixo Alentejo — um habitat semi-natural criado pelo Homem através de séculos de agricultura extensiva — estão a desaparecer a um ritmo que nenhum programa de conservação consegue acompanhar, levando consigo todas as espécies que evoluíram para viver nesse espaço único.
Castro Verde é hoje o principal reduto das aves estepárias portuguesas — e mesmo aqui a pressão é crescente, com milhares de hectares de agro-estepes a converterem-se para olivais intensivos e super-intensivos, vinhas e girassol. O sisão nidifica no solo e não consegue viver num olival. A abetarda não nidifica num amendoal. O tartaranhão-caçador não caça num arrozal. Estas aves precisam de planícies abertas, de pousios com ervas altas e de campos de trigo depois da colheita — paisagens que estão a desaparecer sem retorno. O 4.º Censo diz que restam 1.736 machos de sisão. Se nada mudar nas políticas agrícolas e de conservação, o 5.º Censo, previsto para 2030, pode confirmar a extinção de facto de uma espécie que foi, durante séculos, a voz mais característica das planícies do Alentejo.
