25 Novembro 2020      10:09

Está aqui

Silêncio, para eu me lembrar de tanta coisa com que já sonhei

(Espelho) - Tanta pressa! Ou está simplesmente a evitar-me?

(Giuseppe) - Geralmente não quero falar. Há demasiado barulho. É um ruído de fundo constante sobre esse vírus da má sorte, que nos desgasta mesmo que não prestemos muita atenção. Todos os dias, mesmo várias vezes ao dia: número de pessoas infectadas, número de exames realizados, número de pacientes hospitalizados, número de pacientes mortos.

Números que ocupam espaço na nossa cabeça, mesmo quando não sabemos decifrá-los, não valem nada amanhã, mas ainda estarão lá - ninguém tira esse lixo tóxico - eles vão começar a decompor-se e causar-nos náuseas.

Todos os dias anúncios, muitas vezes contraditórios, às vezes estúpidos, chamam a nossa atenção. Novas ordens - todas precedidas do "não" - de alguma forma entram nos nossos pensamentos, instalam-se ali e aumentam o enjoo. Novos "especialistas" sentem a necessidade inevitável de expressar seus pensamentos decisivos, enquanto os velhos "especialistas" nos atualizam sobre os desenvolvimentos recentes de seus pensamentos anteriores, em polémica com os novos especialistas. Talvez seja assim noutros lugares, mas na Itália tudo isso é particularmente irritante.

(Espelho) - Perdeste o bom humor que costumavas ter quando voltavas das férias?

(Giuseppe) - Felizmente não. Posso fazer outras coisas, sem me ficar apenas pelas notícias. Para além disso outras notícias, como a alegria global pela demissão do Donald,ou algum crime particularmente sangrento, não são oferecidas à atenção do público na rádio. Não tenho televisão, nem redes sociais. Assim, posso ficar em silêncio e ouvir música.

(Espelho) - Tens estado ausente. Onde foste?

(Giuseppe) - Em setembro, estive uma semana em Pantelleria. A meio caminho entre Agrigento e Tunis. Uma pequena ilha no meio do sul do Mediterrâneo, a ilhota de uma ilha maior, que é a Sicília.

Tem aeroporto, pêras espinhosas, tomate, orégãos, peixe bom, sol quase sempre, vento sempre, silêncio muito, nada de praias, multidão nunca. Há todo o mar, um mar muito bonito, onde  desces caminhando - ou de barco - para nadar entre rochedos de pedra vulcânica. Há todo o céu e poucas luzes artificiais. À noite podes ver facilmente a Via Láctea como poucas vezes na vida.Um lugar que te esvazia de todas as ansiedades.

(Espelho) - Mas também não te vi nas últimas semanas.

(Giuseppe) - Manuela e eu aproveitámos tudo o que sobrou das férias deste ano. Voltámos um pouco antes das restrições de viagem e movimento serem novamente impostas. Poucos dias depois, as folgas dos funcionários do hospital foram bloqueados.

(Espelho) - Tamanha sorte a tua. É o habitual!

(Giuseppe) - Pode ser, mas entendemos que quando podes fazer o que queres sem prejudicar os outros, é sempre um erro adiar. Além disso, a perspectiva de viajar torna mais fácil suportar o que vejo, ouço e tenho que fazer todos os dias. E acho que torna mais fácil a vida para os outros que me aturam.

(Espelho) - A válvula da panela de pressão. Não fiques muito queixoso! Onde foste desta vez? Aposto que tu estiveste de novo em Istambul.

(Giuseppe) - Quase acertaste. Queria muito voltar lá, para a Cidade das Cidades. Mas com isto da pandemia, ao voltar para a Itália havia a obrigação de cumprir quarentena em casa por 2 semanas. Os meus colegas de trabalho não terão ficado muito entusiasmados com isso.

(Espelho) - E depois?

(Giuseppe) - Um "magical mistery tour": Mântua, Ravenna, Ferrara e Veneza. Quatro cidades de encantamento no Vale do Pó, no nordeste da Itália.

(Espelho) - Agora entendo o catálogo da exposição que deixaste aqui à minha frente. Mas o que tem Wim Wenders a ver com a Cartier-Bresson?

(Giuseppe) - Wenders e 4 outras personalidades ilustres fizeram a curadoria da sua própria seleção da grande coleção de fotografias  de Cartier-Bresson, explicando o motivo de sua escolha. Wenders fez isso com um pequeno vídeo, onde comenta as fotos que mais gostou: aquele vídeo é tão bom quanto as imagens originais.

(Espelho) - Já estiveste em Veneza muitas vezes. O que há de novo?

(Giuseppe) - É um lugar onde nunca há nada de realmente novo, mas, cada vez que tu lá ficas por alguns dias, encontras sempre algo que te surpreende. Deixa as tuas pernas levarem-te para onde a curiosidade atrai os teus olhos: o Gueto Velho, Torcello, San Lazzaro degli Armeni, crianças jogando futebol à tarde no Campo S.Margherita. Senta-te um pouco num banco na praça e olha ao teu redor : as imagens que permanecem nos teus olhos valem tanto quanto a coleção de Peggy Guggenheim. Além disso, desta vez havia poucos turistas, e isso é muito raro em Veneza.

(Espelho) - Como te compreendo, esvazias-te das tuas ansiedades numa ilha remota e vais encher os olhos de beleza a Veneza.

(Giuseppe) - Ver coisas bonitas deixa -nos felizes, faz de nós melhores, recarrega-nos uma espécie de cartão de crédito da alma, do qual os outros podem receber histórias e imagens que também são boas para eles.

Mântua e Ferrara não são menos belas: na velhas aldeias, mais do que monumentos a visitar, encontras uma beleza generalizada nas casas, nas ruas, nas lojas, que se transmite à medida que caminhas ou te sentas e observas. Ravenna é um tesouro de mosaicos cristãos antigos: podes vê-los novamente 4 ou 5 vezes na tua vida e eles sempre farão a mesma maravilha.

(Espelho) - Acho que também tens estado sentado à mesa. Eu não te vejo perdido.

(Giuseppe) -  Evidentemente. Nessas regiões, especialmente no outono, se alguém decidir fazer más refeições, terá que trabalhar muito para encontrar. Além disso, saborear boa comida e bom vinho é uma festa para o espírito.

(Espelho) - E o que o estás a ouvir há 2 dias? O que é?

(Giuseppe) - Farsa (género impossível). O último álbum de Silvia Perez Cruz: alimentoi para a imaginação.

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Nota do autor:

Hoje à noite gostaria de agradecer a Flavia Wenceslau, o aspecto triste da alegre paraibana, a sua voz maravilhosa, com o violão de Eduardo Holanda, fez-me descobrir Silêncio (uma canção - poema, do qual eu peguei o título. Wim Wenders foi curador com Annie Leibowitz, Javier Cercas, Sylvie Aubenas e François Pinault da exposição “Henri Cartier-Bresson. Le Grand Jeu, visível em Veneza, Palazzo Grassi, até 20 de março de 2021. Silvia Perez Cruz publicou recentemente uma interessante coleção de novas canções em espanhol e catalão. Não percam a exposição de fotos ou o disco por favor! Para os leitores que desejam fazer a viagem que descrevi na Itália, terei o maior prazer em fornecer endereços e detalhes. Podem contactar-me pelo email gsteffenino@hotmail.it

 

Nota do editor:

Giuseppe Steffenino, natural do noroeste da Itália, está ligado a nós pela admiração que ele tem a Portugal e ao Alentejo em particular, onde, com a sua companheira, Manuela, foram salvos de um afogamento numa praia o ano passado. Aqui e ali a pandemia está a mudar a nossa maneira de viver e pensar. Esse médico com barba branca, apaixonado por lugares estrangeiros e um pouco idealista, interpreta este tempo curvo, oferecendo-nos os seus sonhos, leituras, viagens, lembranças, pensamentos, perguntas, etc.

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