30 Maio 2020      11:20

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Será que aprendemos alguma coisa com esta crise?

Parece-me que este é o momento adequado para colocar as seguintes questões: afinal o que é que aprendemos com esta crise? Será que o modelo de sociedade que fomos criando ao longo dos tempos é o mais adequado? Terá alguma sustentabilidade uma sociedade que tem como base o consumismo? Será que vamos ter que continuar a viver da mesma maneira? Será que se for encontrada uma vacina ou uma cura eficaz para o COVID 19 volta tudo ao mesmo?

Acredito que esta crise nos pode ter dado grandes lições. Em primeiro lugar, ficou claramente demonstrado que o modelo de desenvolvimento com base na criação de megacidades (superpovoadas), de megacomplexos industriais e comerciais, não estão preparados para enfrentar este tipo de crises pandémicas (até mesmo crise catastróficas de outro género). É um modelo que agrava e complica a resolução/mitigação destes problemas. Tudo ganha proporções gigantescas!

As sociedades megaconcentradas não tem a flexibilidade, nem a versatilidade para encontrar soluções eficazes para responder a grandes problemas. Aumentam as mortes, agrava-se a pobreza e progride a desgraça envolta de inúmeros medos.

Em segundo lugar, penso que já é senso comum que a vida das pessoas se foi tornando cada vez mais desumanizada, mais egoísta, e pouco participativa. Com esta crise deu para perceber que tudo pode ficar rapidamente posto em causa. Percebemos (acredito eu) que consumir desregradamente não nos leva a lado nenhum, nem o planeta consegue suportar tal dimensão consumista.

Em terceiro lugar, percebemos que uma parte do nosso trabalho pode ser feito em casa e/ou em qualquer parte do País.  Percebemos, também, que parte desse trabalho pode ser feito com mais família, com mais tempo, e com menos gastos e desgaste. Basta ver a diminuição dos custos com combustíveis e portagens dos últimos tempos. Também é mais económico para algumas empresas.

Se me perguntarem se o teletrabalho é a única e melhor prática a utilizar, claro que direi que não. Mas realizar uma parte do nosso trabalho em casa parece-me uma solução interessante e viável. E claro, não dá para todas as profissões!

Em quarto lugar (para mim uma das mais interessantes conclusões), as pessoas poderão estar mais disponíveis para mudar de vida. Sair das grandes cidades e mudar para cidades e vilas de média dimensão pode ser uma boa solução para mudar de vida. Viver em zonas e em territórios de baixa densidade, como é o caso do Alentejo, pode ser uma forma para mudar de vida e garantir mais segurança, mais tempo, mais família e claro, uma qualidade de vida substancialmente melhor.

Para tal, torna-se fundamental mudar o paradigma, incentivando as pessoas à mudança, mas sobretudo criando as condições para que as pessoas concretizem essa mudança. Para isso é fundamental mudar políticas, através da criação de infraestruturas digitais, nomeadamente a instalação da banda larga, para acelerar a digitalização da economia, criando condições para o teletrabalho, a modernização e fixação de empresas.

Mas também é decisivo apostar em infraestruturas de transportes, através da aposta na criação de redes de transportes limpas, estimulando a expansão da ligação às capitais de distrito. A recuperação de parte significativa do sistema ferroviário é decisiva neste processo. Fizemos muitas asneiras, mas é tempo de as inverter!

Este deverá ser um processo dinâmico de atração e fixação de pessoas para o interior do País, potenciando um novo modelo de ``industrialização´´, através do apoio a empresas de menor dimensão, e ao mesmo tempo estimulando a transição energética e digital.

Num modelo desta natureza encaixa perfeitamente o turismo rural e local, mais personalizado, mais flexível, mas sobretudo mais seguro e saudável. Encaixa perfeitamente numa estratégia desta natureza a recuperação da produção nacional, respeitando mais aquilo que é feito ``cá dentro – made in Portugal´´, e aproveitar as vantagens ecológicas comparativas dos ``circuitos curtos´´. Uma coisa é certa, o aprofundamento do uso das tecnologias ajuda a aproximar o produtor ao consumidor. Essa é uma forte vantagem para a produção do nosso território. Saibamos aproveitá-la!

Desenvolver um modelo territorial que passe pelo reforço das cidades e vilas de média dimensão é decisivo. Esta pode ser uma oportunidade para mudar e estancar a sangria demográfica que fomos verificando ao longo de várias décadas. Claro está, para isso é decisivo a dinamização de centros urbanos de menor dimensão, criando complementaridades, apostar na especialização (que foi denominada de inteligente), criando novas redes, sempre com o objetivo de tornar estes territórios sustentáveis e viáveis.

Por último, parece-me decisivo apostar na valorização ambiental, paisagística, patrimonial e cultural dos territórios de baixa densidade. Respeitar e remunerar as funções de ecossistemas, deve ser uma aposta concreta.  Garantir a resiliência dos territórios, através da sua proteção e valorização, é uma questão de soberania. A agricultura, florestas e pescas encaixam ``que nem ginjas´´ neste modelo.

Só assim nos podemos preparar adequadamente para choques futuros.

 

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