10 Outubro 2018      17:43

Está aqui

Que dia é hoje? – Homenagem a todas as pessoas diagnosticadas com Demência

Eu, que estou aqui sentado á tua espera e não tenho tempo, não recebo a tua visita.

Eu que estou aqui sentado no mesmo lugar há tanto tempo, perdi a noção do tempo que não olho para ti, do tempo que não toco na tua pele limpa e suave. Já nem me lembro do quão confortável é um abraço. Um abraço daqueles, que me davas em dias cinzentos e me aconchegavas a alma. Esta alma, que anda sedenta de ti, oh tempo malvado.

As estações estão a passar a correr e seguem tão apressadas que lhes grito, vezes sem conta e medida, para caminharem devagar, porque eu atrás delas já não consigo. Nem tenho tempo, nem vagar.

Contínuo à espera, sentada. Oiço ao fundo da sala alguém a chamar o meu nome, mas não respondo. O meu corpo não quer, é preguiçoso vejam bem. Tanto que por ele fiz, tanto que o estimei e agora é desobediente e mal-educado. Não se admite! E tanto tempo que lhe dei. Tanto pó de arroz que lhe meti em cima para ficar mais bonito. E perfumes? Tantos e tão caros, quando saía para os bailes lá na aldeia. Na aldeia com nome de flor. Ai que agora não me recordo. Era um nome bonito, de uma flor branca. Ora digam lá vocês! Qual era o nome? Pois, vocês não têm tempo e, eu aqui neste mesmo lugar de sempre, não me consigo lembrar. Esta cabeça malandra já não aguenta os pensamentos passados. Mas, quem sabe, se me vieres dar um abraço eu me consiga recordar daquele baile? Se o abraço for apertado, quem sabe se a minha memória não acorde a tempo de te dizer o nome da aldeia, cuja flor é branca e eu esqueci. Quem sabe?

Quem sabe se, me deres um tempo do teu tempo, eu não retribuo na mesma moeda? Vem, vem ter comigo e dá-me o prazer da tua companhia. Quinze minutos já é excelente. Vem, vem.

Vem, que eu estou aqui sentado à tua espera e não tenho tempo. Já nem tenho noção de quantas camisas eu passava a ferro em sessenta minutos. As sopas de grão com espinafres que tu tanto adoravas…e o pão com chouriço? E o bolo de mel? E o tempo que eu passava na máquina de costura, que perdia a noção das horas do jantar lá me casa.

Sabes, eu existo e já não me conheço. Não me conheço porque não me lembro.

Por isso, enquanto aí estiveres olha os meus olhos, agarra a minha mão e ouve o meu coração. Lá no fundo, eu sou eu, desde sempre, apenas sentimos de maneira diferente, vemos e ouvimos de maneira diferente.

Se te pudesse pedir uma última coisa desta vida tão alegre e bem vivida, apenas te pediria para não ires embora e ficares. Como se de uma ligação coronária se tratasse, o tempo que me dás é a vida no seu todo, e se tu estas eu também estou. Se tu fores eu também vou.

Aqui deixo a minha tão especial e grandiosa consideração a todas as pessoas afectadas com Demência, aos seus cuidadores incansáveis e a todos os profissionais envolventes em todo o processo.

De notar que, segundo  a OMS o número de diagnósticos com demência irá triplicar até 2050, passando dos actuais 35,6 milhões para aproximadamente 115,4 milhões, devendo por isso ser considerada uma prioridade de Saúde Pública. (in Relatório da Organização Mundial de Saúde, Demência: uma prioridade de saúde pública).

 

Imagem de capa de dnoticias.pt

 

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