24 Abril 2018      18:20

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Quanto vale a Liberdade?

Há 44 anos Portugal via terminar a mais longa ditadura europeia e que durara 48 anos.

No dia de hoje, em 1974, o Movimento das Forças Armadas (MFA) – composto na sua maioria por capitães com participação na Guerra Colonial, com o apoio de muitos outros soldados milicianos – dá, finalmente início aos anseios do povo e põe em curso a revolução que preparava há uns anos.

A primeira reunião dos capitães terá sido na Guiné, em Bissau e a segunda em pleno Alentejo, no Monte do Sobral, nas Alcáçovas, concelho de Viana do Alentejo (Évora), a 9 de novembro de 1973. A última e definitiva reunião aconteceu cerca de um mês antes da revolução, a 24 de março de 1974.

Otelo Saraiva de Carvalho instalou um posto de comando secreto no quartel da Pontinha (Lisboa) e às 22:55h - do dia 24 de abril - a música “E depois do adeus”, de Paulo de Carvalho, deu o mote para os preparativos das forças revolucionárias, tendo muitas partido rumo à capital.

Era já dia 25, pelas 00:20h, quando passa no programa “Limite”, da Rádio Renascença uma transmissão gravada com a primeira estrofe de “Grândola Vila Morena”, a canção que Zeca Afonso escreveu para homenagear o cante – banida pelo lápis azul da censura - e que tocou de seguida. Era a segunda senha e significava “tropas em movimento”.

 

"Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo" - Sophia de Mello Breyner

 

Na madrugada de 24 para 25 de abril, as forças revolucionárias marcharam para Lisboa empurrados pela esperança de um Portugal livre e democrático. Logo que a população se apercebeu dos acontecimentos prestou um forte apoio a estes homens e à revolução em movimento.

Eram 00:30 e os militares do MFA ocupam a Escola Prática de Administração Militar. Meia hora depois foi a Escola Prática de Cavalaria de Santarém, momento em que o capitão Salgueiro Maia proferiu as célebres palavras: "Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui." (Veja aqui a parte correspondente do filme “Capitães de Abril”, realizado por Maria de Medeiros, em 2000.)

A missão dos revoltosos da Escola Prática de Cavalaria de Santarém era uma das mais complicadas: ocupar o Terreiro do Paço!

Em simultâneo, iniciou-se a movimentação de tropas em Estremoz, Figueira da Foz, Lamego, Lisboa, Mafra, Tomar, Vendas Novas, Viseu, e outros pontos do país.

Pelas 3:00h as tropas revoltosas, em sintonia, iniciavam a ocupação – sem grande resistência -de pontos fulcrais para o sucesso da revolta: o Aeroporto de Lisboa, o Rádio Clube Português, a Emissora Nacional, a RTP e a Rádio Marconi.

O regime reagiu eram já 4:15h, quando foi ordenado que as forças sedeadas em Braga avançassem sobre o Porto para recuperar o Quartel-General, no entanto, também estas forças tinham aderido ao MFA e ignoraram as ordens do regime.

Poucos minutos depois - pela voz do jornalista Joaquim Furtado, no Rádio Clube Português - surge o primeiro comunicado do MFA:

Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas.

As Forças Armadas portuguesas apelam a todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal, para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas, no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os Portugueses, o que há que evitar a todo o custo. Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica, esperando a sua acorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração, que se deseja, sinceramente, desnecessária.”  (Ouça aqui.)

 

Seguiu-se o Hino Nacional, “A Portuguesa” e a marcha militar "A Life on the Ocean Waves" de Henry Russell e que viria ser o hino do MFA.

 

As forças revolucionárias da Escola Prática de Infantaria de Mafra controlavam já o aeroporto de Lisboa e às 04:45 o MFA lê o segundo comunicado no Rádio Clube Português:

A todos os elementos das forças militarizadas e policiais o comando do Movimento das Forças Armadas aconselha a máxima prudência, a fim de serem evitados quaisquer recontros perigosos. Não há intenção deliberada de fazer correr sangue desnecessário, mas tal acontecerá caso alguma provocação se venha a verificar.

Apelamos, portanto, para que regressem imediatamente aos seus quartéis, aguardando as ordens que lhes serão dadas pelo M. F. A.

Serão severamente responsabilizados todos os comandos que tentarem por qualquer forma conduzir os seus subordinados à luta com as Forças Armadas.

 

Com o aeródromo de Tires também ocupado e com a Escola Prática de Cavalaria a ocupa o Terreiro do Paço. Surge mais um comunicado do MFA: “Para que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal, apelamos para o bom senso dos comandos das Forças Militarizadas no sentido de serem evitados confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo. Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica, esperando a sua ocorrência aos hospitais a fim de prestar a sua eventual colaboração, que se deseja sinceramente desnecessária.

A todos os elementos das Forças Militarizadas e policiais, o Comando do Movimento das Forças Armadas aconselha a máxima prudência, a fim de serem evitados quaisquer recontros perigosos. Não há intenção deliberada de fazer correr sangue desnecessariamente, mas tal acontecerá caso alguma provocação se venha a verificar.

Apelamos, portanto, para que regressem imediatamente aos seus quartéis, aguardando as ordens que lhes serão dadas pelo Movimento das Forças Armadas. Serão severamente responsabilizados todos os comandos que tentarem por qualquer forma conduzir os seus subordinados à luta com as Forças Armadas.

Informa-se a população de que, no sentido de evitar todo e qualquer incidente ainda que involuntário, deverá recolher a suas casas, mantendo absoluta calma. A todos os elementos das forças militarizadas, nomeadamente às forças da G.N.R. e P.S.P. e ainda às Forças da Direcção-Geral de Segurança e Legião Portuguesa, que abusivamente foram recrutadas, lembra-se o seu dever cívico de contribuírem para a manutenção da ordem pública, o que, na presente situação, só poderá ser alcançado se não for oposta qualquer reação às Forças Armadas. Tal reação nada teria de vantajoso, pois conduziria a um indesejável derramamento de sangue, que em nada contribuiria para a união de todos os portugueses. Embora estando crentes no bom senso e no civismo de todos os portugueses, no sentido de evitarem todo e qualquer recontro armado, apelamos para que os médicos e o pessoal de enfermagem se apresentem em todos os hospitais para uma colaboração que fazemos votos seja desnecessária.

 

Quando, por volta das 6:30h, um pelotão do Regimento de Cavalaria 7, comandado pelo Alferes Miliciano David e Silva, fiel ao Governo, ao Terreiro do paço, o confronto está eminente, mas, após conversações, estes colocam-se às ordens do MFA.

 

Quando surgem o quarto comunicado, já o MFA sabe que Marcelo Caetano, o Presidente do Conselho de Ministros, a cabeça do regime, está no Quartel do Carmo; e quando surge o quinto já uma força do Regimento de Lanceiros 2, contrária ao MFA, tomava posição na Ribeira das Naus; quase ao mesmo tempo, no Terreiro do Paço, Salgueiro Maia prendia o Tenente-Coronel Ferrand de Almeida.

No Tejo, a fragata "Gago Coutinho" toma posição frente ao Terreiro do Paço e tem ordens para disparar sobre as tropas de Salgueiro Maia, apesar de nunca ter chegado a fazê-lo.

 

Os ministros da Defesa, da Informação e Turismo, do Exército e da Marinha, o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, o Governador Militar de Lisboa, o sub-secretário de Estado do Exército e o Almirante Henrique Tenreiro conseguem, entretanto, fugir do Ministério do Exército – estavam cercados no Terreiro do Paço – por buraco que abriram na parede em direção ao Posto de Comando das forças leais ao Governo.

Seriam perto das 10 horas quando acontece um dos momentos mais dramáticos e cruciais da revolução quando, na Ribeira das Naus, o Alferes Miliciano Fernando Sottomayor não obedece às ordens do Brigadeiro Junqueira dos Reis para disparar sobre Salgueiro Maia e as suas tropas. Tive o privilégio de há uns meses ter podido ouvir este relato na primeira pessoa de alguém que esteve presente e me contou os factos com tal emoção que parecia que estava de novo lá, bem no cerne dos acontecimentos, neste dia de Libertação.

Quanto a Sottomayor, por não obedecer ao seu brigadeiro, recebe ordem de prisão e a ordem para disparar sobre os soldados revolucionários volta a ser dada, no entanto, nenhum militar presente a cumpriu e foi o próprio Junqueira dos Reis quem dispara dois tiros para o ar, abandonando em seguida o local.

Momentos depois, na Rua do Arsenal, o Brigadeiro Junqueira dos Reis dá ordem de fogo sobre o Tenente Alfredo Assunção - enviado por Salgueiro Maia para negociar com as forças de Junqueira dos Reis. A ordem também desobedecida e o Brigadeiro Junqueira dos dá três murros no Tenente Assunção.

Com o MFA a controlar as operações pelo país, a coluna militar comandada por Salgueiro Maia, cerca o Largo do Carmo e tem ordens para abrir fogo sobre o Posto de Comando e provocar a rendição de Marcelo Caetano.

 

Nesta caminhada – do Terreiro do Paço para o Carmo - Salgueiro Maia foi apanhado numa foto a morder o lábio. Mais tarde, quando questionado pelo porquê dessa reação, respondeu que o fazia para não chorar, pois naquele momento já sentiam que a revolução não iria parar: "A marcha para o Carmo foi extraordinária pelo apoio popular que agregou, que contribuiu bastante para que o Carmo perdesse a vontade de resistir. Nunca tinha visto o povo a manifestar-se assim. No Carmo, ao chegar houve desde senhoras a abrir portas e janelas até ao simples espectador que enrouquecia a cantar o Hino Nacional. O ambiente que lá se viveu foi de tal maneira belo que depois dele nada mais digno pode acontecer na vida de uma pessoa."

A população distribuía comida, leite e cigarros pelos militares presentes no Largo do Carmo, mas forças da GNR – comandadas pelo Brigadeiro Junqueira dos Reis - tomavam posição na retaguarda das tropas de Salgueiro Maia, em defesa do regime.

 

Perto das 14 horas já decorriam conversações entre o General Spínola e Marcelo Caetano, para a obtenção da rendição do Presidente do Conselho, e meia hora depois surge o décimo comunicado do MFA e que dava conta da ocupação dos principais objetivos e de ter o esquadrão do RC 3, comandado pelo Capitão Ferreira, a cercar as tropas do Brigadeiro Junqueira dos Reis.

 

No Carmo, Salgueiro Maia, ao megafone, faz um ultimato à GNR para que se renda e ameaça rebentar com os portões do Quartel do Carmo, abrindo fogo sobre a fachada do quartel momentos depois, o que provocou o início das conversações para a rendição de Marcelo Caetano.

 

Quando elementos da PIDE/DGS abrem fogo sobre a multidão que cercava a sua sede feriu 45 pessoas e mataram quatro civis.

 

Eram 16:30h e a situação estava num impasse. Salgueiro Maia prepara-se para disparar de um blindado sobre o Quartel, mas Pedro Feytor-Pinto e Nuno Távora, da Secretaria de Estado da Informação e Turismo - portadores de uma mensagem do General Spínola para Marcelo Caetano - interrompem a contagem para os disparos e entram no Quartel, tal como Salgueiro Maia, meia hora depois. Exigiu a rendição a Marcelo Caetano que lhe disse que só se renderia a um Oficial-General para que o Poder não caísse na rua e coube ao General Spínola ir receber a rendição de Marcelo Caetano.

 

Às 18:30, a Chaimite Bula entra no Quartel do Carmo para transportar Marcelo Caetano à Pontinha e, momentos depois, na televisão (RTP), pela voz de Fialho Gouveia, surge uma declaração do MFA na RTP (veja aqui).

 

No mesmo dia, a PIDE/DGS, a Legião e a Mocidade Portuguesa foram extintas e os dirigentes fascistas foram destituídos.

 

A revolução acabou por ganhar o nome de revolução dos cravos porque, Celeste Caeiro, florista, começou a oferecer cravos aos tropas do MFA que por ali passavam, transforma esta flor no símbolo da revolução. Pessoas saíam de casa com presuntos e compartilhavam com as tropas, as crianças alinhavam lado a lado com os militares, num raro clima de fraternidade entre o povo português.

Até aqui, Portugal estava isolado do mundo; “orgulhosamente só”, e numa guerra sem fim. A Revolução devolveu a esperança e sacudiu a ditadura do país, mas o pós-revolução não foi pacífico.

O Processo Revolucionário em Curso (PREC) atirou com o país para as portas de uma guerra civil.

A luta entre a extrema-esquerda e a social-democracia levou a um clima de pré-guerra civil que culminou no golpe militar de 25 de novembro de 1975, após o “verão quente” pelas disputas entre as forças radicais e as forças moderadas, pela ocupação do poder do Conselho da Revolução.

 

“Abril Já feito e ainda por fazer.” – Manuel Alegre

 

O 25 de abril e o 25 de novembro continuam a redefinir-se; não são um processo que terminou no passado e tem sido posto em prática e desenvolvido até aos dias de hoje. A democracia tem que ser praticada todos os dias; a Liberdade tem que ser valorizada e defendida em todos os momentos.

Ainda assim, o pós-25 de abril trouxe-nos claras melhorias nas condições de vida como se pode verificar nos seguintes dados:

• Esperança de vida das mulheres: 70,8 anos (1970) 80,6 anos (2002)

• Taxa de mortalidade infantil: (permilagem) 37,9% (1974) 5,0% (2002)

• Taxa de mortalidade materna: (por 100 mil nados vivos) 73,4% (1970) - 2,5% (2000)

• Partos em estabelecimentos de saúde: 37,5% (1970) 99,5% (2000)

• Taxa de atividade feminina: 19% (1974) 46% (2003) • Feminização do ensino superior: 44,4% (1970-71) 56,0% (2001)

• Taxa de cobertura: – água canalizada: 47,0% das casas (1970) 97,4% das casas (2001) – esgotos: 58,0% (1970) 96,7% (2001) – eletricidade: 63,0% (1970) 99,6% (2001).

• Analfabetismo: 33,6% (1970) 9,0% (2001), dos quais 11,5% mulheres, 6,3% homens.

Para mais informações veja aqui o documentário do sociólogo Álvaro Barreto sobre a situação.

 

“Se abril ficar distante / Desta terra e deste povo / A nossa força é bastante/ Para fazer um abril novo!” – Ary dos Santos

 

Agora, diga-nos uma coisa – como perguntaria Herman José – “onde é que você estava no 25 de abril de 1974?” conte-nos a sua experiência.

 

Para mais informações pode ver ainda

25 de abril para crianças

Fotografias de Alfredo Cunhal

Relatos da ação no Largo do Carmo gravados em 1974

Entrevista de Salgueiro Maia

 

 

Fotografia de Alfredo Cunha

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