11 Junho 2021      17:43

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Quando se festejavam os “Santos Populares”, na Princesa do Alentejo!

Ontem fiz uma viagem ao passado, recordando a Vila Viçosa de outros tempos, quando eu ainda era uma criança!

Não sendo saudosista por natureza, regressei a memórias de há 35 anos, quando se comemoravam os Santos Populares nas Ruas de Santo António e dos Combatentes da Grande Guerra, em pleno coração do burgo calipolense.

Uma tradição que se perdeu, sem que se saibam os verdadeiros motivos, mas que tinha um grande significado para os Calipolenses, sobretudo para os que moravam no centro histórico. Talvez a falta de gente seja o principal motivo, um problema que nos deve preocupar cada vez mais.

Por estes dias, nessa altura, viviam-se horas muito preenchidas, do nascer ao pôr-do-sol.

Na realidade, a azáfama começava uns meses antes, com a produção de bandeirinhas multicolores que haviam de dar uma vida muito peculiar às velhas e estreitas vielas de Vila Viçosa, que ficavam enfeitadas até ao “São Pedro”.

A solidariedade e a entreajuda imperavam. Cada um contribuía com o que podia. As vizinhas juntavam-se, ao serão, quando começava a primavera e os dias eram mais longos, a cortar o papel e a dar forma aos enfeites que haviam de ficar suspensos nas paredes das casas, desde a oficina do Isaurindo até ao Largo José Sande, passando pelo Terreiro de Santo António e pelo antigo quartel dos Bombeiros, que haviam de se juntar à festa.

As conversas giravam à volta de todos os assuntos, dos mais empolgantes aos mais corriqueiros. Falava-se dos que tinham emigrado para a Suíça, dos casamentos e dos boatos, das intrigas e das histórias insólitas que iam acontecendo na vila ou noutros lugares.

Todos davam o corpo ao manifesto. Os mais novos, como eu, corriam a trazer e a levar as folhas coloridas de papel de seda, de uma porta para outra, que haviam de ser cortadas pelos mais velhos, com saber e mestria, para ficarem com o mesmo formato.

A Paula, a Lena, a “Bubu”, a “Aurorita”, a “Totó” (que vinha emprestada de outras paragens), a Clotilde, a Beatriz e a São eram algumas das responsáveis por essa tarefa. O “Pinóquio”, eu, o “Tói da Pastelaria”, o Luís Ovelha, o meu irmão “Barrasquinho”, o “Tchaxi” e o “Marreco”, juntamente com a restante rapaziada, eramos os estafetas responsáveis por todos os recados de última hora.

De vez em quando, lá eram distribuídos sopapos por quem não cumpria as regras ou se portava mal. Nesse tempo, eram muitas as crianças que enchiam de alegria aquelas ruas empedradas e cheias de história, com alucinantes correrias entre a antiga “Corredoura” e o Castelo.

Outra tarefa importante era o fabrico de cola de farinha, que haveria de servir para colar as bandeiras às finas cordas, de modo a que ficassem suspensas, em ziguezague, de uma ponta a outra do casario, pregadas por entre as janelas e as varandas. Eram muitos os metros necessários para preencher os arruamentos e as noites tornavam-se muito longas por esse motivo. Era quase uma corrida contra o tempo.

Durante esses dias, não havia tempo para as tradicionais “futeboladas” na antiga “Estacada”, velha memória das Guerras da Restauração, em que a estrela da companhia era o “Fuzil, o Maradona do Castelo” e que acabavam quase sempre à bordoada!

Quando faltava um dia para o Santo António, uma das missões mais importantes era forrar as ruas com fetos cheirosos (ou afetos, na gíria popular), juntamente com a recolha das batatas novas, que eram cozidas numa panela, na casa de alguma vizinha, não esquecendo a pelagem dos tomates e dos pimentos assados para as saladas.

O povo reunia-se então, querendo mostrar brio com a organização do festejo. Era como se houvesse uma competição saudável para a nomeação da rua mais bonita e engalanada. Isto porque na Rua de “Santa Luzia” e na “Rua da Vaqueira” também se faziam as comemorações dos Santos.

Num determinado ano, até na nova urbanização da Quinta Augusta, os Santos tiveram lugar! Mas, que me desculpem todos os outros, nada fazia frente aos convívios “antonianos” da Rua de Santo António, abençoados pelo padroeiro e que se estendiam pela antiga Rua dos Gentis, madrugada fora.

Chegados os dias de festa, a animação era grande, mas ninguém escondia uma certa ansiedade. Era preciso ultimar os pormenores e sempre se viam vizinhos a retocar as bandeiras suspensas, à última da hora, pendurados de forma arriscada em escadotes de metal, fazendo grandes equilibrismos para não haver quedas. Tudo tinha que brilhar. Por vezes, a ventania destruía parte do que já tinha sido colocado e era preciso repetir a operação. Houve um ano, se não me falha a memória, em que choveu e o trabalho que tinha sido feito ficou todo destruído.

Na véspera do dia do Santo lisboeta, o povo ia chegando. Vinha gente de todas as partes da vila, para ver o resultado final. Muitos iam só para “dar fé” sobre o trabalho que a comunidade de vizinhos tinha feito. Alguns eram das ruas “rivais”, que vinham espreitar para saber se a nossa rua estava mais bonita ou não. Amigos, primos, tios e forasteiros juntavam-se à festa, vindos das Aldeias ou dos Pelames, esquecendo as mazelas, as doenças, as preocupações e as mágoas. Era uma festa do povo, que surgiu quase espontaneamente, sem nenhum decreto oficial ou anúncio prévio de quem quer que fosse.

Os bailes enchiam as ruas de alegria e o cheiro a sardinha assada perfumava o ambiente. Os fogareiros começavam a ser preparados logo no final da tarde. E só vinha produto de qualidade. Lembro-me que, num ano, o meu pai foi propositadamente à lota de Setúbal, pela madrugada, buscar várias caixas de sardinhas, que desapareceram num instante à chegada, frescas e gordas.

Quem não gostava de sardinhas, podia sempre escolher febras ou entremeada, que em última instância tinham sempre um certo sabor a peixe assado. O mesmo acontecia com o frango, estorricado por entre os pingos de gordura das sardinhas. Só o doce aroma dos fetos espalhados no chão atenuava o intenso cheiro da sardinhada nas brasas.

Todos se empenhavam ao máximo, para que tudo corresse na perfeição. Era uma festa pequena, mas cheia de sentimento, que permitia esquecer a rotina do dia-a-dia e punha as pessoas a conviver, numa altura em que não existiam os telemóveis ou a internet. Como não podíamos ir a Lisboa ver as marchas, fazíamos a festinha em casa.

Não havia pobres, nem ricos. Todos tinham a mesma condição de vizinhos e até se esqueciam zangas ou desavenças antigas.

Cada um contribuía com o que podia. Ou trabalho, ou géneros, ou somente boa disposição. Uns traziam o vinho, outros, as azeitonas pisadas, juntamente com algum chouriço. Estes ingredientes eram absolutamente necessários para os festejos, que decorriam, ano após ano. Todos se uniam à volta deste ritual, exaltando os laços fraternos da boa vizinhança. Por entre petiscos e os copitos de vinho, lá se ouviam as gargalhadas dos saudosos “Cara-Linda”, “Baléu das Dúzias” e “Carrasco dos Seguros”, não esquecendo a postura mais austera e de poucas falas do “Zé da Pedra”.

Por vezes, até tinha lugar um Festival da Canção improvisado, com vários artistas e duetos, sem necessidade de utilização de aparelhagem de som, tal a gritaria que se formava. Grandes talentos musicais se perderam, numa altura em que ainda nem se sonhava com o “The Voice Kids”.

Mas o tempo passou… Muitos partiram e as ruas foram ficando cada vez mais desertas, com as casas abandonadas e algumas em degradante ruína. Já não se vêm crianças a correr por aquelas ruas antigas e a tradição perdeu-se. Ficam as boas memórias desse tempo e a esperança que um dia, os “Santos Populares” se possam de novo festejar na “Princesa do Alentejo”!

PS : Não me levem a mal pela recordação dos anexins, mas muitos e muitas dos evocados foram figuras emblemáticas da Vila Viçosa desse tempo e são recordados com saudade.

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