24 Julho 2018      11:46

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Quando o Alentejo fazia tremer os grandes e o dia em que Pusckas quase vestiu a camisola do Lusitano de Évora

A estreia de um clube alentejano no campeonato nacional da 1ª divisão deu-se na época de 1945/46, através do extinto Sport Lisboa e Elvas, onde conseguiu duas participações, surge então “O Elvas”, a primeira grande potência do futebol na região alentejana com duas participações no escalão maior. No entanto, é o Lusitano G.C., que com 14 presenças consecutivas, se assume como a maior potência desportiva do Alentejo, contrariando a tendência geográfica de clubes do Litoral e, mais tarde, surge o Campomaiorense, clube que, tal como os seus antecessores, fez do seu estádio e da determinação das suas gentes uma fortaleza difícil de derrubar. Deixo, no entanto, para outra ocasião, os feitos destes três grandes baluartes do futebol alentejano.

Passado, presente e futuro são a matéria-prima de tudo o que preenche a nossa mente. Uma mente que guarda memórias, como se de uma máquina do tempo se tratasse, e que nos leva para bem longe, para o reino dos sonhos. Dos bancos do jardim às geladas pedras da bancada do Campo Estrela, na companhia do meu pai, passando pelas longas conversas com os saudosos Du Fialho e Dinis Vital, indo até aos grandes jogos do Campomaiorense na 1ª Divisão, era assim que em criança e adolescente ouvia vezes sem conta as “estórias”, os feitos e as marcas de quem tanto contribuiu para que a nossa região fosse reconhecida, dignificada e respeitada no futebol português. A esta força de palavras, palavras estas abafadas pelas emoções, recordava de uma forma genuína e tão nossa, do povo alentejano, a forma como milhares de adeptos eram calorosamente recebidos nas nossas praças, comércio e cafés. Do movimento que se via e das excursões de “biciclete a pedal” oriundas das proximidades. E é aqui, na espontaneidade e força das palavras, no olhar convicto de quem viveu esses gloriosos tempos, que encontramos a verdadeira percepção da força e da importância que o futebol representa: na forma como tem a capacidade de projectar e valorizar determinado território; de inverter tendências ou momentos economicamente adversos e de convergir o tecido empresarial num único e comum propósito.

É claro que todos estes representantes do futebol alentejano têm, talvez, grandes recordações mas, na verdade, alguns deles ou por esquecimento ou mesmo desconhecimento nem sempre são lembrados com o destaque que merecem. Deste modo, decidi salientar um episódio único na vida do Lusitano e que me parece merecer honras de ser imortalizado.

Com as brilhantes prestações internas, o Lusitano G.C. começava a ganhar prestígio e os convites provenientes de clubes da vizinha Espanha sucediam-se. E foi assim que no ano de 1958 que surgiu o convite do colosso Real Madrid onde perfilavam Di Stéfano, Kopa, Puskas entre outros. Já um pouco antes, o clube eborense havia jogado com o Bétis em Sevilha empatando a um golo e durante a paragem do campeonato, e dadas as boas relações entre clubes, os verdes e brancos aceitaram também dois jogos com o Barreirense. Voltando ao convite do Real Madrid e contextualizado no interregno onde a Selecção Espanhola disputava as eliminatórias para o Mundial de 1958, o Lusitano era solicitado para um jogo a realizar no Estádio de Chamartin, recorde-se ainda que a esmagadora maioria dos jogadores da equipa espanhola estavam ao serviço da sua Selecção, além de que a equipa alentejana foi apresentada como o grande campeão do “fair play” pois havia obtido um prestigiante empate com o terceiro classificado, o Bétis. Assim sendo, e em jeito de protocolo, todas as despesas seriam a cargo do Bi-Campeão europeu e a equipa lusitanista seria reforçada com o célebre húngaro Ferenc Puskas. Para surpresa dos eborenses, o Barreirense não quis o adiamento do jogo marcado para o mesmo dia na cidade museu e a contar para o campeonato português perdendo-se desta forma a oportunidade de um grande futebolista como Puskas envergar a camisola do Lusitano G.C. e de o clube pisar num dos mais prestigiados palcos europeus.

Às gerações vindouras, à classe política, dirigente e associativa da nossa região, aos organismos, aos demais agentes do fenómenos desportivo e adeptos em geral: o Alentejo necessita de um clube que o represente, dignifique e promova a nível nacional e quiçá internacional.

A imaginação é a matéria-prima dos sonhos!

 

Imagem de capa de medium.com

 
 
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