3 Março 2020      10:05

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Porque defendo a criação da Casa-Museu de Florbela Espanca em Vila Viçosa

Desde 2014 que tenho desenvolvido um conjunto de iniciativas com o objetivo de trazer à discussão pública esta temática. Faz sentido a criação de um equipamento cultural que vise valorizar e salvaguardar a memória da poetisa alentejana, na terra que a viu nascer?

Penso que as opiniões sobre esta possibilidade serão unânimes. Pode discordar-se da forma ou da estratégia, mas considero que, relativamente ao conteúdo, é opinião geral que esta iniciativa faz todo o sentido.

Voltando ao início, o desenvolvimento deste projeto teve a ver com a constatação de um facto: em diversas abordagens que efetuei sobre questões patrimoniais, fui-me deparando com um número significativo de objetos relacionados com o universo “florbeliano” em diferentes lugares e com distintos estados de conservação.

Manuscritos, fotografias, objetos pessoais e pinturas estão dispersos por diferentes coleções privadas, o que enriquece, na minha opinião, o espólio já identificado na posse do Grupo “Amigos de Vila Viçosa” e de outras instituições públicas. O trabalho desenvolvido foi no sentido de inventariar esse acervo e fotografar esses materiais, permitindo criar uma base preliminar de investigação, que pudesse no futuro constituir o suporte programático da Casa-Museu. Esse trabalho está concluído. Muitos desses proprietários estão na disposição de ceder esses objetos, com a condição de que os mesmos possam vir a ser expostos em segurança e com dignidade.

Esta disponibilidade de muitos colecionadores em apoiar esta ideia foi também um incentivo.

Relativamente às diretrizes do projeto, que foram sendo aperfeiçoadas, vários fatores foram sendo assumidos como fundamentais: a necessidade de prestar uma justa homenagem à Poetisa e à sua obra literária, com a valorização deste espólio, a conservação destes bens de diferente tipologia e a possibilidade de permitir novas linhas de investigação sobre Florbela e o seu entorno familiar.

Como é que Vila Viçosa, no início do século XX, “olhou” para Florbela? Qual a opinião que a Poetisa tinha sobre a sua terra natal? Penso que estas interrogações podem ser analisadas e discutidas com a criação deste projeto museológico, que terá como missão discutir a complexidade e a excelência da produção literária de Florbela Espanca. Terá sido esta uma relação pacífica? Quem melhor do que um Museu “Florbeliano” para estudar e problematizar estas questões, através de um novo enfoque?

Na documentação que fui encontrando, é possível concluir que o ambiente cultural em que Florbela foi educada, com diferentes influências artísticas, foi determinante na evolução da sua obra. As circunstâncias vividas em Vila Viçosa influenciaram de modo definitivo a forma como, através das palavras e desde tenra idade, interpretava a realidade envolvente. As vivências, os sentimentos, as angústias presentes nos seus sonetos são reveladoras de uma insatisfação quase permanente, tendo em conta as condicionantes que limitavam o seu espírito criativo, pelo facto de ser mulher. Em alguns desses documentos, foi possível encontrar uma Florbela com opiniões políticas muito objetivas, através de uma análise social perspicaz e com um curioso sentido de humor.

Tendo em conta estes pressupostos, fui desenvolvendo, ao longo dos últimos anos, um projeto que considero poder vir a constituir, no futuro, o programa museológico da Casa-Museu, devidamente melhorado e atualizado, com o apoio de uma equipa de trabalho multidisciplinar.

Porém, para poder albergar este variado acervo já identificado, é necessário um edifício. A inexistência de um espaço digno limita as opções de valorização deste espólio. E sabemos hoje qual o impacto positivo que um projeto com estas características pode alcançar. Os museus são pontos fundamentais da oferta turística.

A questão dos espaços “florbelianos” em Vila Viçosa é interessante. A casa onde nasceu, em 1894, na Rua do Angerino, nas imediações do Castelo, foi demolida em 1939/40, no âmbito das intervenções do Estado Novo, promovidas pelo Ministro Duarte Pacheco. É do conhecimento público que Florbela viveu parte da infância e adolescência no imóvel da antiga Rua da Corredoura, normalmente associado à poetisa calipolense, devido à sinalética do local.

 No âmbito deste projeto, foi possível confirmar que Florbela também viveu, juntamente com o seu irmão Apeles e com o pai João Maria Espanca, na casa da Rua Gomes Jardim, a antiga “Rua de Três”. Era aqui que o patriarca tinha o seu estúdio fotográfico, a Photo Calypolense e também era no local que se dedicava ao comércio de antiguidades. Foi aqui Florbela casou com Alberto Moutinho em 1912. Estes factos são confirmados pelos familiares, com destaque para o grande investigador Túlio Espanca.

Do ponto de vista histórico, penso que qualquer um dos dois espaços mencionados pode ser utilizado com o objetivo de acolher o projeto museológico, pelas razões apontadas. A decisão sobre esta questão é sobretudo política. Os pareceres solicitados pelo Município calipolense sobre esta matéria legitimam a possível utilização de qualquer um dos dois, tendo em conta a relação histórica e afetiva de ambos com Florbela.

As opiniões podem ser divergentes no que toca a esta questão, devido às dimensões ou à localização de cada um deles, mas o que importa referir é que existe um trabalho desenvolvido e que antecede a escolha do imóvel, fosse qual fosse o selecionado para esse fim.  

Nada surgiu ao acaso. Há um trabalho feito que antecede as possíveis escolhas.

Existe um programa, que necessita de aperfeiçoamento, mas que define as premissas que devem orientar a missão do futuro espaço cultural, que seguramente trará imensas vantagens, do ponto de vista da investigação, a nível turístico, da conservação das coleções e como tributo a uma figura ímpar da cultura portuguesa, cuja homenagem tem sido constantemente adiada na terra onde nasceu.

Estou na disposição de partilhar toda a documentação produzida com o Município de Vila Viçosa para a constituição da futura Casa-Museu de Florbela Espanca, sem nenhuma condição. Penso que os materiais já identificados serão muito úteis na abordagem que possa vir a ser desenvolvida. Este facto implicará um conjunto de investimentos a vários níveis (projeto de arquitetura, design, museografia, merchandising, pessoal, etc.), que seguramente terão retorno a médio prazo.

Acredito que, com a aquisição do edifício da Rua Gomes Jardim, solução votada pela maioria do executivo calipolense, poderá estar lançada a semente para a criação de um espaço cultural digno, que desenvolva um trabalho de qualidade em termos científicos, suportado por uma equipa que integre vários especialistas e que promova um conjunto de ações que valorizem ainda mais o nome de Florbela e a sua obra.

Seguramente que Vila Viçosa ficará a ganhar com esta iniciativa.

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