24 Novembro 2018      15:11

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Polémica

Em início de época festiva, o peru foi há dois dias, vulgo, Thanksgiving ou Dia de Ação de Graças, e o Natal a chegar, logo a seguir, para não se perder o ritmo, começa a azáfama das pessoas, a busca intensa de coisas, a desculpa de oferecer prendas. Tudo serve de desculpa para comprar qualquer coisa, gastar uns trocados e oferecer, dar, partilhar.

Ora bem, o texto de hoje fala sobre tudo isso, mas fala essencialmente sobre o outro lado, o reverso da época festiva. Fala de uma polémica que se instalou, num determinado sítio a uma determinada hora entre duas pessoas específicas. Sobre o sítio, foi num determinado lugar, acima de abaixo, para lá de cá. A hora foi antes de chegar aos sessenta minutos, depois dos trinta segundos e as duas pessoas específicas, a sua identidade não poderá ser revelada devido ao novo regime de Proteção de Dados da União Europeia.

O certo é que este drama envolve um peru. O bicho estava vivo. Este não tinha sido perdoado e andava livre a picar os grãos no alcatrão, perto dos quintais das pessoas que viviam naquele determinado lugar. Os quintais eram juntos e não havia, até aquela altura, divisão entre eles. Passou a haver. O peru, animal selvagem e rebelde que falava a língua dos glu glu, lá andava, sem grandes preocupações com o futuro. O seu conhecimento de perspetivar e planear as coisas era bastante reduzido. Disso tinha pena e também tinha penas. Picava, glu glu.

Aproximava-se o Thanksgiving e, dois olhinhos de um lado, miravam-no numa casa, dois olhinhos do outro lado, noutra casa também, miravam igualmente o pobre animal que, nesse momento, ignorava o seu destino. Os olhinhos de um lado eram de um azul brilhante, tipo céu. A retina olhava, com o esquerdo, para o peru, com o direito, para a vizinha do lado. Instalava-se, gradualmente, uma tensão. Os olhos castanhos-escuros da casa ao lado mantinham a mesma tensão. A batida cardíaca subiu aos 180 em cada coraçãozinho. O do peru mantinha-se estável a 78. O pobre animal não sabia de nada. Bicava aqui, penicava ali.

Os olhinhos, castanhos e azuis, afastaram-se das janelas e foram a correr agarrar no milho e plantar estrategicamente uma linha que nos fazia lembrar a estória do Polegarzinho. A estratégia estava delineada. Qual das linhas ia o peru seguir até ao fundo da casa, desembocando no quintal, para cair na boca de alguém? Suspense.

O animal, inocente, incauto, seguiu a linha dos olhos azuis até certo ponto, desviando-se para o lado do castanho. Azul enfureceu-se e salta com a vassoura na mão, pensando já que a mesa ia ficar vazia e o frango congelado do supermercado é que poderia remediar o assunto e corre em direção ao peru, contanto em acertar com o varapau na cabeça do bicho. Castanho, quando vê a cena, irrita-se e vê o peru na mesa da outra pessoa e agarra em semelhante utensílio e corre em igual velocidade. O ritmo cardíaco continua dos píncaros e, olhando estrabicamente para ambos os lados, em simultâneo, o glu glu panica e começam as penas a alvoraçar-se e corre, foge, melhor dizendo, afastando-se dos seres humanos enfurecidos de varapau na mão. Era uma vassoura de lentisco.

Vá se lá saber como, o animal consegue, qual Boeing 747 ou Airbus A380, levantar voo. Perdoe o leitor se achar imaginação a mais, mas a verdade e que levantou mesmo e passou mesmo acima do nível de segurança, voou em liberdade. Era um peru voador. Pesava aí umas 100 libras, sem exagero. Ou com um bocadinho, talvez…

As vassouras já iam lançadas no ar, prontíssimas a abater o animal. Quando deixou de haver animal, devido ao impulso e à força motriz, tinham de aterrar em algum lugar e aterraram em cima da cabeça um do outro. Não houve peru na mesa, mas nas suas cabeças ficaram dois galos. Um em cada. E, para o almoço, frango congelado do continente e das ilhas. Nos meses seguintes, toda a gente se lembrava da polémica. 

 

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