25 Setembro 2017      10:02

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A PLACA DOS OLHOS DE SOL

Para os mais distraídos, que possam não ter notado, o Museu de Évora mudou de nome aos 101 anos de idade. No dia 3 de Março de 2017 passou a denominar-se Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo. O curioso é que a notícia que dá a boa nova, divulgada nos media, repetia em contraposição “temia-se que o Museu passasse a ser gerido pelo Município” ao abrigo da proposta de lei da transferência de competências para as autarquias. Tal escolha de palavras parecia antever uma catástrofe para o Museu e da mesma depreender que era o pior que podia acontecer ou ainda que algo corre mal na gestão cultural do município. Mas não é esse o tema deste artigo, mesmo porque vejo aqui uma oportunidade para o município criar o novo Museu de Évora, um museu municipal, com uma biblioteca municipal, uma galeria municipal e um auditório municipal de que a cidade tanto necessita.

A classificação como Museu Nacional é um grande feito para Évora e para o Alentejo, porque reconhece e equipara o Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo ao Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa, ao Museu Nacional Machado Castro em Coimbra ou ao Museu Nacional Soares dos Reis no Porto, também porque é o primeiro museu nacional a sul do Tejo. É o reconhecimento do trabalho realizado no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo pela sua equipa e pelos sucessivos diretores. O mérito maior é da coleção, que é impar, representativa e resultado da construção de uma ideia de património do século das Luzes, da inquietação de saber enciclopédico e no caso da pintura, do muito bom gosto do seu comprador e algum olho para o negócio… ficámos nós a saber agora, no tempo em que arte é assunto de leilões.

Em 1916 o Museu constituiu-se a partir da coleção de Manuel do Cenáculo e assumiu a responsabilidade de acolher as coleções de arte da cidade e depósito de coleções de peças arqueológicas resultantes de investigação e escavações arqueológicas realizadas na região, entregues por isso à guarda do Museu e que constituem algumas das coleções de arqueologia.

O objeto que escolhemos para iniciar o conjunto de 10 textos sobre 10 objetos do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo é esta placa de xisto gravada, conhecida como a Placa dos Olhos de Sol, um elemento votivo, de adorno para os mortos no Neolítico, de contexto funerário, bastante comum no Megalitismo Alentejano. O Megalitismo Alentejano é o nome que se dá à grande concentração de monumentos funerários do Neolítico no Alentejo, dentro do Alentejo a região de Évora é também muito importante pela quantidade de monumentos que detém, pela sua construção e preservação de monumentos no seu todo. O Neolítico é o período cronológico a seguir ao Paleolítico (há 30 000 anos os seres humanos, caçadores recolectores no Paleolítico inventaram a arte rupestre e antes de 1995, da descoberta das gravuras de Foz Côa era, aqui no Alentejo, na Gruta do Escoural, que Portugal tinha a mais antiga manifestação artística do país) é o tempo da revolução agrícola, o clima ameno contribuiu para a rápida ocupação do território de planície e construção da paisagem. Os monumentos megalíticos, as antas, cromeleques e menires distribuem-se de forma organizada como sinais na terra. Perdeu-se a literalidade da representação binária macho fémea, bisonte-cavalo do Paleolítico Superior e ganhou-se a diversidade do abstrato, uma arte de representações simbólicas, incompreensíveis para espíritos científicos, mas deveras cheias de possibilidades para descrições criativas, místicas, panteístas das rochas e da Grande Deusa Mãe do Neolítico.

Como esta Placa dos Olhos de Sol, encontrada dentro da Anta Grande do Zambujeiro em Valverde na escavação arqueológica realizada nos anos 60 do século passado pelo investigador Henrique Leonor Pina. A descoberta resultou do achado fortuito da Anta quando, na mesma data, alguém da vizinhança rebentou com uma laje do topo, confundindo o chapéu da anta com um afloramento natural de granito para extração de pedra. Resultou num grande e fundo buraco. Não é de estranhar, a Anta Grande do Zambujeiro é o maior monumento Megalítico da Península Ibérica, uma sepultura coletiva constituida por uma câmara e um corredor de acesso, originalmente coberta por pedras e terra formando uma mamoa, integrada e fundida na paisagem. Sendo muito grande tinha muito espaço para acumular objetos e entre os muitos e muito variados que continha, pontas de seta, lâminas de sílex, cerâmica simbólica e uma folha de ouro decorada, encontrou-se esta placa de xisto gravada. 

Uma placa de xisto é um elemento de adorno e elemento votivo entregue aos mortos. Denota a prática de momentos cerimoniais que, para o Neolítico, parecem ter tido alguma importância, afinal empenharam muita organização e força a construir Antas, Cromeleques e levantar Menires para acreditarmos que assim não fosse. Para além das construções, a relação com a paisagem é o contexto da ação, as gentes do Neolítico não eram só detentoras de uma nova tecnologia lítica, inventores da agricultura ou domesticadores de animais, estes homens e mulheres eram possuidores de um sentido de pertença e de ligação com o meio. Ao mesmo tempo reconheciam o especial e único que cada ser humano é e por isso, nas horas e dias que se seguiam à morte eram distinguidos com cerimónias fúnebres pelos seus companheiros, atos de extremo cuidado e altamente ritualizados. O morto era depositado dentro da anta com as suas posses, cerâmicas, objetos naturais e curiosidades para que nada faltasse na vida na morte. Como distinção máxima eram identificados com uma placa de xisto gravada, de padrão de desenho geométrico, único e irrepetível, um registo de identidade para mortos defendem uns ou a representação da Deusa Mãe, a personificação da Terra, defendem outros, tal é a diversidade de leituras que o Neolítico permite.   

Esta placa de xisto gravada, de forma trapezoidal, dividia em três campos, no corpo inferior com representação de padrões geométricos em ziguezague, formado por linhas preenchidas por reticulado, no meio corpo é atravessada por quatro linhas contendo decoração linear repetida formando um padrão igualmente reticulado, mas de maior dimensão, encimada por representação facial com olhos concêntricos, sobrancelhas e raiados à volta dos olhos lembrando um sol (descrição livre). Não sabemos quem representava, nem o que representava, sabemos que era uma peça única, distintiva daquele ou para aquele que morreu. Chamar-lhe Placa dos Olhos de Sol é a descrição sonhadora de um objeto que é mais misterioso do que revelador. A Placa dos Olhos de Sol, com o seu olhar concêntrico, olha-nos nos olhos e parece falar-nos: escuta, a tua história começa aqui, somos filhos da natureza, fomos os construtores da paisagem e os criadores do Alentejo… e a partir daí, no Museu, segue a nossa história.

Numa visita ao Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo encontramos esta peça exposta na sala da Arqueologia. É uma das primeiras peças que vemos, ela é também das mais antigas do Museu, de há 4000 - 3000 anos a.C. no Neolítico Final. Se aceitarmos a sugestão de visitar o Museu do mais antigo para o mais recente fazemos uma visita por ordem cronológica desde o Neolítico até à atualidade com 6000 anos de história até à escultura contemporânea exposta no claustro do Museu. E se acreditarmos que a Placa de Olhos de Sol é a uma representação da Deusa Mãe, então a nossa visita faz um círculo perfeito, começa com uma representação feminina, deificada do Neolítico e termina com uma representação feminina, deificada pelo escultor contemporâneo.

O Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo tem entrada gratuita aos domingos e feriados até às 14h para todos os cidadãos residentes em território nacional. O texto e fotografia são da exclusiva responsabilidade da autora.

 

   

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