20 Maio 2018      12:26

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Um piquenique nas imediações do reino dos anjos?

(Picnic at Hanging Rock)

(Peter Weir, 1975)

Um verdadeiro mistério (ousemos dizê-lo) não vive em nós, ditos pensantes, no pressuposto da sua resolução; pelo contrário, seres ditos pensantes querem-no para sempre misterioso, seja por deontologia, seja por temor; duas manifestações, afinal, muito humanas, ainda que apenas uma nos acompanhe desde o instante zero. O mistério dirige-se para o impalpável, e claro que nada nos deveria ser pedido perante o mistério; nada para além da sua contemplação ou, em certos casos muito particulares e de preferência com a duração do microssegundo, bem entendido, algum reflexo incondicionado de autodefesa.

O mistério, se resolvido, como tão bem sabem os que conhecem o cinema americano (e o cinema, como tão bem sabemos todos, é o meio instrutivo de excelência das últimas dez gerações), apenas pode redundar no vazio da imbecilidade (escusemo-nos a exemplos, tantos são) ou no horror absoluto (basta recordar, ah! – arrepio fantasmático semelhante ao frio da morte, Seven e Chinatown). E mesmo esses, enfim, reconheça-se que não são verdadeiros mistérios, antes enigmas ao alcance (ainda que para mal dos seus e dos nossos pecados) de qualquer detective talentoso e perseverante. Essa não-resolubilidade sistémica do verdadeiro mistério é o modelo de, por exemplo, Tarkovsky. Homem contemplativo e fascinado pelo que não se desvenda, ou seja, desejoso de não descobrir. Homem de enorme talento.

David Lynch também abraça o mistério, mas gosta de se colocar como deus, mesmo se menor: oferece-nos o mistério irresolúvel, porém como se soubesse o que mais ninguém sabe. É uma perspectiva como outra qualquer, perdoável por vir de um deus provocador. Amamo-lo de igual modo, ou mais ainda.

Dito isto, o mistério também deve ter o seu quê de longínquo, o que lhe confere poesia. Não é só. Não simplesmente. Se o mistério é por definição inexplicável, também é conveniente que contenha elementos exóticos, mas diferenciáveis. Por outras palavras, o outro lado do Universo é bem menos eficaz como ponto de partida do que a nossa querida Austrália. A um podemos ir a outro não, apesar de ambos se encontrarem no outro lado de.

Talvez por isso, do que o cinema nos ofereceu nas últimas décadas, somos levados a acarinhar de modo especial o mistério contido no assombroso filme de Peter Weir, Picnic at Hanging Rock; na aparência, filme sobre o desaparecimento de três alunas e uma professora na Austrália, no dia de São Valentim – em 1900, durante um piquenique junto ao rochedo nomeado no título.

Muito brevemente sobre o filme:

- Cada elipse, neste filme de elipses, tem a dimensão figurada da eternidade.

- Filme sem heróis nem heroínas, apenas os que se deleitam perante o mistério e os que o temem (estes últimos, tolos, dividem-se por sua vez em dois grupos: os que o querem resolver e os que fingem que o mistério não existe).

- Muda constantemente de ponto de vista; e não, não é a câmara, enquanto elemento exterior, que se fixa constantemente nas diferentes personagens, antes se coloca milagrosamente no olhar de cada uma delas. Olhar atomizado e capaz de querer, mas, por todas as razões expostas anteriormente, incapaz de progredir para lá de um certo ponto.

- Certas personagens, de entre as deleitadas, falam como anjos, i.e., (como se) num nível de compreensão superior.

- Como se pode ver pela professora também desaparecida, a razão não faz com que se esteja mais próximo de qualquer resposta.

- A certa altura, uma das alunas desaparecidas reaparece nas proximidades do rochedo. Não se recorda de nada, passa a viver como se imersa num êxtase, espécie de sopa imemorial de tanto (tudo o) que a transcende. Eventualmente foi ejectada de volta para o mundo real (e como arriscamos ao dizer tal coisa!), pelo que a inocência também não é o caminho.

 

Imagem de australiangeographic.com.au

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