20 Fevereiro 2020      12:12

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Perdemos ou ganhamos com a vinda de turistas!?

É hoje reconhecido o papel do turismo em termos de desenvolvimento económico. Sabemos que o seu contributo pode ser determinante para a revitalização de áreas mais desfavorecidas, mas com um grande potencial por descobrir em termos turísticos. 

Os números são elucidativos: no caso do Alentejo, tem-se verificado uma cada vez maior procura por parte de turistas provenientes de diferentes contextos geográficos. A tendência vai no sentido do crescimento. E o que procuram estes “novos” turistas? Tradições, usos, costumes, gastronomia e património edificado parecem ser os vetores determinantes para as escolhas.

Porém, este número crescente tem feito soar os alarmes em determinados sectores da sociedade, também no Alentejo. Será este aumento considerável de turistas prejudicial para a conservação do nosso património e para a eventual alteração dos nossos hábitos e da nossa segurança?

Em muitos lugares do mundo, esta discussão tem vindo a assumir cada vez mais protagonismo. No caso do Alentejo, será negativo o crescimento turístico da região? As mudanças têm tido um impacto negativo, nos anos mais recentes? Na minha opinião, não.

Temos assistido a um aumento das respostas às solicitações dos que nos visitam, em termos qualitativos e quantitativos.

Este facto tem permitido a gradual reabilitação de património que se encontrava abandonado, convertendo-o num ativo económico, tem proporcionado um aumento dos números de empregos e inspirado novos projetos de muito sucesso, em áreas como a produção vinícola, ambiente e inovação. Trabalho em rede é fundamental para o sucesso. Por isso, é preciso olhar para o património com um outro olhar.

Mas há ainda muito por fazer.  Intervir para reabilitar é condição fundamental, mas é necessário dar uso aos edifícios, castelos, museus e espaços culturais, criando novos atrativos que permitam prolongar o período de estadia dos visitantes nas diferentes localidades alentejanas, através de circuitos e rotas.

Tendo em conta a evidência destes factos, diria que a vinda de turistas é absolutamente essencial para o futuro da região. Paralelamente, a criação de infraestruturas de apoio é prioritária para a manutenção dessa sustentabilidade entre o aumento do número de visitas e a conservação do património, nas suas diversas vertentes.

Contudo, é necessário encontrar os equilíbrios necessários, de modo a não perder as oportunidades que estão a surgir e que irão manter-se numa tendência crescente nos próximos anos, segundo as previsões. 

Seguramente o Alentejo não perderá a sua essência, ao mostrar-se ao mundo!

Por isso, considero fundamental promover uma estratégia concertada para a reabilitação dos diferentes patrimónios que caracterizam esta vasta região e a tornam única. E são esses fatores que nos diferenciam e nos colocam num patamar de excelência cada vez mais procurado. Porém, a reflexão sobre o que pode ser feito e melhorado deve ser assumida pelos diferentes sectores da sociedade alentejana.

O envolvimento das comunidades na defesa dos seus recursos e da sua identidade é um fator determinante para a definição de uma estratégia concertada que permita ainda melhores resultados.

Considero que o aumento do número de turistas pode ser fundamental para que definitivamente se olhe para o património alentejano e para a sua requalificação como um eixo prioritário. E o investimento nesta área deve ser cada vez mais uma opção a ter em conta, por parte de políticos, organizações, empresas e atores sociais. Todos somos responsáveis pela preservação dos legados que nos foram transmitidos. Se isso puder ser reconhecido e valorizado pelo que nos visitam, com algum impacto económico, onde residirá o problema?

 Esta opção pode ser uma via para o progresso, proporcionando cada vez maior dinâmica económica, permitindo a criação de mais postos de emprego e combater, de forma efetiva, a crescente tendência em termos de desertificação demográfica.

Trazer mais turistas não vai seguramente ter como consequência uma alteração dos nossos hábitos e da nossa genuinidade. É isso que nos torna únicos e que nos diferencia. O espírito acolhedor dos alentejanos é uma marca, que faz parte do nosso património. Por outro lado, este não deve estar subjugado exclusivamente aos interesses turísticos. A sua função é muito mais abrangente e remete para a nossa identidade enquanto povo. Dai os necessários cuidados com a sua defesa!

 Mas devido à sua preponderância e atratividade, capaz de gerar receitas derivadas da sua utilização enquanto recurso turístico, pode e deve ser devidamente aproveitado. Na minha perspetiva, o património não deve permanecer num patamar sagrado, quase intocável, só ao alcance de alguns privilegiados.

Penso que o crescimento de visitantes propiciou também uma certa democratização do património, que deve ser usufruído por todos, como um elemento chave para a compreensão das sociedades humanas e do seu desenvolvimento cultural, político, económico, militar e religioso ao longo dos séculos.

Nessa medida, a conservação e valorização dos bens culturais pode constituir uma ferramenta fundamental no âmbito de uma estratégia de projeção turística, chamando a atenção para a excecionalidade do nosso território nas suas diferentes manifestações.

É preciso encontrar soluções criativas e eficazes que permitam a conjugação do aumento do número de turistas e a conservação do património e das identidades locais, através da definição de planos concretos, avaliando sempre o impacto desse crescimento.

Temos que ser nos, individualmente, a assumir um papel da defesa do património, promovendo, divulgando e defendendo o que de singular e único existe na região. 

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