14 Novembro 2018      10:05

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Pelos caminhos da intolerância

A recente crise de refugiados a que temos assistido originou, por um lado, uma “onda” de solidariedade e por outro, várias manifestações de reprovação à receção destes migrantes, que fogem da guerra, da violência e da intolerância.

Os argumentos utilizados tem a ver com o facto de, em Portugal, muitas pessoas passarem, desde algum tempo a esta parte, por privações e dificuldades. Não há dúvida de que a situação é difícil, complexa e inquietante. As recentes alterações na conjuntura económica têm tido como consequência a acumulação de obstáculos para a generalidade dos portugueses.

Mas, falando da realidade que conheço, penso que a gravidade da situação em nada se assemelha ao que se está a verificar no Médio Oriente e no continente americano. Se bem que os níveis de pobreza sejam elevados, fenómenos como os que temos assistido nos meios de comunicação, nomeadamente a fuga massiva de populações, não se verificam no território nacional.

Muitos de nós têm procurado noutros países uma vida melhor, o que é compreensível, dadas as dificuldades a que temos assistido. Mas, felizmente, os portugueses não têm que fugir da guerra, fome, da opressão, da perseguição e da brutalidade.

Respeitando a opinião de todos, não consigo compreender como se pode defender a ideia de que estes refugiados não precisam de ajuda. Terão ficado os mais críticos indiferentes à imagem da criança que morreu na praia da Turquia?! Ou às fotografias que nos chegam da Síria?! O que dizer sobre aqueles que cruzam agora o continente americano?

Penso que a tradição portuguesa (e europeia), vai no sentido de prestar apoio aos mais necessitados. E, numa situação de emergência, como é o caso, considero que é de todo legítimo que haja uma ação altruísta no sentido de ajudar a aliviar a dor destas famílias.

Pensar que todos são terroristas que se dirigem para o espaço europeu, nomeadamente para Portugal, com o sonho utópico de fazer renascer o Al-Andaluz, parece-me uma ideia um pouco ousada. Muitos haverá com más intenções. Não nego isso. Cabe às autoridades europeias, dentro das possibilidades, fazer a identificação e o controlo desses potenciais transgressores. Não será tarefa fácil, mas também é essa a nossa obrigação. Claro que terá que haver critérios de admissão no espaço europeu, à semelhança do que está a ser feito por outros países.

Com cidadão, não fico indiferente a este triste fenómeno, pois nem sequer sou capaz de imaginar o sofrimento dos pais que muitas vezes assistem, impotentes, à morte dos seus filhos. Não posso, de acordo com a minha consciência, permanecer imune a esta situação, sem pelo menos, tentar aliviar, ainda que de forma quase insignificante, a dor dos que precisam de um pouco de caridade. Não me revejo nos discursos fundamentalistas, quer de um lado, quer de outro. Nem defendo o espírito de “Guerra Santa”, ou cruzada contra os infiéis. Nem me parece que todos os refugiados venham com más intenções para a Europa.

A tradição histórica de tolerância, compreensão e respeito pela diferença deve continuar a ser uma virtude do povo português. Não me parece correto impor limites à causa de ajuda ao próximo.

Penso que cada vez mais será necessário desenvolver esforços, juntamente com todas as instituições e com a sociedade civil, para acolher algumas destas famílias. Considero que seria uma atitude digna se conseguíssemos criar condições para receber e integrar algumas destas pessoas que, apesar de serem de uma religião diferente, partilham connosco algo intrínseco: a humanidade. Parte dela inevitavelmente perdida neste longo caminho, à procura de uma vida melhor…

Sejamos solidários, com os de dentro e com os que procuram o nosso auxílio. Ouçamos as palavras que apelam à elevação de valores no que aos refugiados diz respeito. Não fiquemos indiferentes a estes tristes episódios, onde se conjugam o medo, intolerância e o sofrimento.

 

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