26 Maio 2019      13:04

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Pela arte do desencanto, i.e., pelo desencanto na arte.

Observar o mundo, a multitude de formas de uma multitude de formas, é estranhamente o exercício mais simples. Tão simples que magoa ter começar assim. Como tem de começar.

Processo centrípeto em torno de um motor de explosão autodefinido como racional, como tal, necessita devolução. É quando as coisas se começam a tornar interessantes. Enfim, quase sempre, pode-se viver escondido ou usar uma máscara – e esses não importam.

Os que se podem dar ao luxo de não levar a sério a devolução no contexto político (suportando-o ou não), sem o peso do compromisso, por norma arriscam na devolução cultural, e, desses, os melhores devolvem nos termos soberanos da arte. Soberanos, pois referimo-nos aos melhores de entre os melhores, aqueles que jamais abdicam de si próprios.

Aqueles que odeiam todas as guerras, excepto as que, quais chamas incontroláveis, deflagram nas suas mentes.

Por vezes, decidem não as combater, e disso resultam explosões silenciosas, como as de raios-gama, que não se notam, senão nas consequências, que aparentam vir do nada (imaginem aparelhos eléctricos que de um momento para o outro deixam simplesmente de funcionar).

Outros têm (quer queiram, quer não) de levar tudo pela frente, e esses dividem-se em três grupos: furiosos e ressentidos (os que querem sempre) e desencantados (os que talvez venham a querer). Furiosos e ressentidos tendem a durar pouco; como o foguete de Oscar Wilde, causam grande alarido e logo desaparecem – e não raras vezes se confundem. Os desencantados, por outro lado, são eternos. E note-se que dentro do desencanto cabe um pouco de fúria e de ressentimento; desde que controlados, tal torna-se, inclusive, uma vantagem. Já dentro da fúria e do ressentimento não cabe nenhum desencanto, a sua intersecção provocaria uma contradição de termos, com a qual ninguém em consciência conseguiria viver. Talvez os objectivistas (em todas as variantes, mas merecem especial referência os extremistas cristãos neoconservadores – porém a esses, carentes da presença física da mais famosa maníaco-depressiva do século XX, falhada amorosa de excelência, sexualmente insatisfeita por natureza (o nome é Ayn Rand), além disso devotos da sua bíblia medíocre de pseudo-saber que recusamos nomear, como se sabe, tal como às crianças de colo ou aos gatos, não podem ser imputados crimes de consciência).

O desencanto é, portanto, a maior forma de expressão cultural que se conhece, triunfo absoluto da insubmissão artística. O desencantado exprime-se de um interior com paredes de chumbo, de um ponto de dimensão nula mas que contém tudo de inequivocamente seu, após reflexão, é claro, e já não sujeito a interferência externa sem critério. Consciente do seu fracasso latente (pelo simples facto de existir), rejeita deuses, que, como pressuposto, não pode deixar de ver à sua imagem, frágil, incompleta, pois não concebe a autoridade absoluta nem a hipótese de uma infinidade benigna a conviver diariamente com as consequências físicas e morais da existência, não raras vezes catastróficas.

No entanto, o desencantado, por definição, relativiza, e por essa razão possui um sentido de humor latente, à espreita, apesar de permanecer escondido uma parte do tempo – E ainda bem! Faz parte do jogo. Ri do que é trágico, sabendo que não há maior tragédia que existir, pelo que acima de tudo ri de si próprio.

Logo, tudo lhe é permitido. Como, por exemplo, brincar aos deuses que não existem. Sonhando-se um, brinca à criação, confunde o surgir do bem ou do mal com o seu nascimento, e sustenta tal tese pela expressão da sua arte.

Veja-se o que David Lynch fez recentemente, no episódio 8 de Twin Peaks: The Return. Julho de 1945: Bob – a força assassina que, como sabemos, num certo dia de 1990 vai eliminar Laura Palmer de modo brutal – surge com a primeira explosão atómica. Lynch, o demiurgo, feliz acaso, nasceu seis meses da Bomba (nascimento prematuro?). Bob é a manifestação do mal lynchiano, mas, pela dimensão universal do episódio, é o Mal que irrompe, pura e simplesmente. Afinal, a representação escolhida é a Bomba Atómica. A pretensão é o infinito, como no 2001, de Kubrick.

(E, como quem não quer a coisa, de que dois tão notáveis desencantados nos acercámos!)

Caso haja, não há um mal lynchiano, apenas o Mal. Como não há um ilimitado cósmico kubrickiano, há o Cosmos ilimitado. A televisão precisava do seu 2001, ei-lo finalmente – e claro que não podia vir de mais ninguém.

Argumentação final a favor do desencanto? Imaginem que triste figura faria um ressentido que quisesse fazer de deus.

 

 

Imagem de indiewire.com

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