7 Julho 2019      12:11

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Orson Welles - o homem das margens no meio de um filme...

Famoso pelas entradas e saídas de cena – mais pelas entradas, verdadeiros esplendores onde a militância artística (jogo de expectativas para com o espectador ideal) exercitava competências em plena consonância com um aspecto físico que remetia para os portentos da mitologia pagã –, Orson Welles era também um actor fabuloso. Dono e senhor de uma voz de grande alcance, daquelas cujos sussurros se fazem ouvir tanto no íntimo dos nossos sonhos acordados, como no outro lado do mundo, e de uma presença estranhamente dorida e clarividente, como um bebé grande que já nasceu adulto e com a consciência do sacrifício que o espera. Só uma coisa nunca poderia ser (e nunca foi – enfim, talvez para a Rita Hayworth, em A Dama de Xangai; que ainda assim tornou sua, suprema expiação, pintando-lhe os cabelos de louro): servil!

Vejam-no (procurem num Youtube perto de vós, o filme está no domínio público desde 1973, pelo que não, não terão o prazer da busca ilícita), por exemplo, na cena fulcral do jantar de família em The Stranger (1946), de frente para o convidado de última hora (enorme Edward G. Robinson), o investigador que está lá para o capturar,  a tentar fingir que não é o nazi que tanto orgulho tem em ser. A subtileza nas mudanças de registo. O anseio (não menos subtil) pela verdade, a sua verdade, uma pequena brecha na alma à disposição do público, exigente se for ideal – súbito prazer que transborda serenamente na mais aterradora das inversões, quando diz “aniquilação” e esconde um sorriso no último momento (instante tão extremo quanto o possam conceber), pois não esquece que, naquele momento, é ele o animal acossado.

Fotografia de Miguel Martín.

 

 

 

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