29 Dezembro 2018      11:33

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A Ondulação

Andava ao vagar das ondas e vagueava como se delas fosse parte integrante. Acreditava-se, a quem se perguntava, que o homem era um sonhador. Sonhador porque sonhava com as coisas e com o dia e com a noite. E os dias e as noites sonhavam nele. Muitos diziam de si que era doido. Também era, todos somos, até os mais sérios, temos a nossa picadinha de loucura. Ainda bem que assim somos. Palermice seria não acreditar nisso. Um loucura, gestos que transparecem sem que os queiramos deixar transparecer. Deixemos, porém, todos os sonhadores e os doidos de parte um dia ou dois e concentremo-nos no homem que navegava ao sabor da ondulação.

Muitos acreditavam que tinha sido marinheiro e pescador, talvez as duas coisas ao mesmo tempo, que não são incompatíveis entre si. Muitos outros diziam que a forma como tratava as ondas lhe tinha vindo de anos a olhar para o mar, sozinho, num rochedo sem fazer um ruído. Não o poderia fazer, sabemos porquê.

Aprendera a dominá-las com o olhar, dizia-se. Aprendera a sua língua, a língua das ondas do mar. Era uma língua bonita, como a das baleias ou das sereias. Era uma língua especial que muito poucos conheciam. Aquele ser, sabia.

Por isso e porque tudo tem uma razão para assim ser, aquela pessoa dominava tão bem as ondas como uma multidão enfurecida. Convencia a multidão como quem domina as velas de um navio, o que no fundo vai ter à ondulação e ao domínio das pessoas que são como as ondas do mar, mesmo que não falem a sua língua. A cada dia são diferentes. Mudam e os seus actos e gestos têm consequências. Muitas delas que só as ondas conseguem combinar e ver no seu conjunto. De um lado daquele ser, o mar e as ondas. Do outro, um rio sereno. Como as nossas almas tantas vezes, um lado revolto e um lado sereno que nunca se tocam ou juntam.

No rio que passava do outro lado, o silêncio que lhe levou a voz desde sempre. O seu lado mais escuro. Ali não havia ondas, só pequenos arremedos mas esses não contam.

Da pessoa, comparavam-na ainda a um flautista, agregados de multidões e de todos. Todos o queriam ouvir, ainda que não dissesse uma palavra. Gesticulava e isso dizia mais do que uma verborreia de palavras que embora bonitas, pouco diriam além do que se diria.

Podia ter sido um sedutor e ter andado vagarosamente a fazer a corte a uma qualquer dama. Fizesse isso e teria consigo toda a fama de domador de ondas, de pessoas, de crenças e de mulheres. Mas assim não acontecerá porque não tinha de ser. Não falava.

Era mudo, desde nascença, a sua intensidade, seu discurso enternecedor e convincente vinha do olhar, daquele mais profundo. Possuidor de um olhar intenso, olhos cheios de palavras, mas da sua boca não saía uma única.

Enquanto escrevo estas palavras, fala-me do ano que termina daqui a uns dias. Conta-me ele, em olhares e gestos, iguais aos que usava para falar e manobrar as ondas, cada dia do ano, a cada movimento do mar e do modo como as ondas sentem o que os homens fazem no mundo e ao longo dos continentes. Acena-me que as ondas dos diferentes mares falam umas com as outras e conseguem prever o futuro, na sua língua, essa que não percebo.

Segreda-me, em gestos, que o ano que termina se alterou muitas vezes por causas das ondas. Acredito nos seus gestos e no que me eles dizem.

Este homem terá sido pescador ou marinheiro um dia, saltando de onda em mar. O barco que conhecera, aqui descrito, amalgamava-se com as águas do mar e não se diferenciava das gotas do oceano. Era um ponto só indiferenciado na imensidão ao seu redor.

A conversa sobre o ano que terminava agravava a minha condição de pessoa confusa com as revelações acerca deste fim do ciclo de 365 dias. Os dias, um maior do que o outro, os mais pequenos no fim e no princípio, meses e meses de espera. Coisas mais ou menos perfeitas que se construíam.

E, todos os dias, confidenciou-me, em olhares, ondulação é diferente, capaz e incapaz de nos alterar ou acrescentar a visão, o pensamento profundo e as nossas ações.

Quem me dera, como aquela pessoa, entender o ano que passou, pela boca das ondas. Quem me dera, como aquelas ondas, prever o futuro desconhecido e incerto. Pudesse eu falar a sua língua, como o homem que não falava a minha mas que eu compreendia como minguem. Queria sabê-lo, ao futuro. O passado já o vivera, ainda que não conhecesse as diferenças, conhecia só aquilo que me fora contado pelas ondas. Mas, o mar e aquela pessoa sabiam. Tudo pela ondulação do mar, tudo nos gestos que navegavam no vazio das ondas, hoje, aquela pessoa, as ondas e eu sabíamos do passado e prevíamos o futuro. Mais do que os dois outros, eu sabia destas palavras que nunca me poderiam ter sido contadas por um mudo e que a ele foram sussurradas pelas ondas.

Quanto a si, olhe pela janela e, se tiver mar e se no mar tiver ondas, veja delas o que dizem e sinta se delas mesmas consegue ver o rosto do homem que conta o passado e prevê o futuro em palavras que não conhece. Veja e ouça as palavras que não são ditas.

 

 

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