30 Março 2020      18:05

Está aqui

O pior e o melhor de nós

Os momentos de crise e de catástrofe como o que vivemos são conhecidos por esta capacidade que têm de pôr a nu as piores e as melhores características da natureza humana. Foi assim no passado mais longínquo e no passado mais recente.

A peste negra, que dizimou a Europa durante sete anos no século XIV, é apontada por historiadores como o período mais individualista da nossa história. Comunidades e famílias desagregavam-se, e a empatia e a solidariedade eram substituídas pelo egoísmo da sobrevivência.

Após o tsunami que assolou os países do Índico em 2004, ao mesmo tempo que centenas de organizações não governamentais e milhares de expatriados trabalhavam incansavelmente para salvar vidas e reconstruir comunidades, outras tantas redes de exploração de crianças órfãs operavam, para fins criminais, de escravatura, de prostituição, de adoção ilegal e de recrutamento paramilitar.

Hoje estamos a assistir ao mesmo triste fenómeno no nosso país e na nossa Europa, fustigados pela pandemia que tomou conta das nossas vidas.

Ao mesmo tempo que mais de cem mil médicos, enfermeiros e técnicos se esforçavam por manter em Portugal uma resposta sanitária com meios que sabemos que cedo ou tarde serão insuficientes, aqui como provavelmente em qualquer outro país do mundo, assistimos às cenas tristes da praia cheia de gente, da senhora que no supermercado garantia que se fosse infetada voltaria ali para tossir para cima de toda a gente, dos idosos apedrejados na Andaluzia quando eram transferidos de um lar contaminado.

Mas perdoem-me se, por mais condenáveis ou mesmo odiosas que sejam as atitudes acima, destaco outra como a pior de todas. A daqueles que, tendo responsabilidades políticas ou de influência da opinião pública, estão a instrumentalizar esta crise para fins de guerrilha ideológica, manipulando os ânimos exaltados e usando, de forma maquiavélica e macabra, os doentes e os mortos como meios de propaganda política.

Falo-vos do comentador que anseia pela contagem de mortos no Brasil para responsabilizar o governo do país, do médico bloquista que devia passar mais tempo no banco do hospital e menos no facebook em campanha eleitoral fora de horas, e do dirigente do Chega que se andou a passear pelas urgências quando o pedido era para que todos os que pudéssemos ficássemos em casa. Neste caso, como em tantos outros, os opostos atraem-se. Cabe-nos rejeitar a extrema-direita e a extrema-esquerda com a mesma virulência que ambas merecem.

Poderemos tirar muitas conclusões desta crise, e o país e a Europa serão seguramente diferentes amanhã, mas tenhamos o bom senso de não deitar por terra o equilíbrio e a estabilidade que, melhor ou pior, construímos ao longo das últimas décadas.

 

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