16 Março 2019      13:39

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O piolho aventureiro

Baseado em história verídica, este texto não aconteceu mesmo. Começa, como todas as boas histórias com um era uma vez. Neste caso era um piolho.

O piolho, ao qual me afeiçoei, e isto só partilho convosco, chamava-se Lhinho, diminutivo de Piolhinho. Era uma coisa carinhosa. Creio que aquilo que mais me despertou a atenção foi o facto de o piolho a quem nos dedicamos ser detestado por toda uma comunidade humana.

Era nómada, saltitante e nada tinha a ver com as pulgas, parasitas detestáveis, que não pensavam. Piolho vivia na cabeça de alguém. Logo partilhava as ideias de quem pensava.

Dir-me-ão os ilustres leitores que escrever um texto sobre piolhos não é recomendável, dir-me-ão que não se escreve sobre parasitas execráveis. Lhinho tinha sentimentos, pensava (ou pelo menos vivia na cabeça de alguém), procriava (provam-nos as lêndeas todas) e era feliz. Partilhava ideias quando saltava de cabeça em cabeça, isso acontecia principalmente nas escolas primárias.

Lhinho não era um piolho qualquer. Aliás ele nem sabia o significado da palavra em si. Era discriminado e, não fora a família que o acolhera, já teria ido para o deserto, morrer sossegado. Mas este piolho não desistia, nem mesmo nos dias mais difíceis em que, após deixar a sua semente num cabelo farfalhudo de carapinha, aterrava na cabeça de um careca. Isso, mais do que tudo, estragava-lhe o dia e Lhinho ficava que nem uma barata tonta. Podia até fazer ski mas não lhe apetecia. Ficava triste.

Foi num desses dias, na cabeça de alguém que pensava demasiado e era um viajante. Não era a minha, prometo, que já há muitos anos que não vejo Lhinho pessoalmente. Ouvi falar dele.

Talvez já vos tenha visitado a vós? Bem, a verdade é que Lhinho tinha um sonho e esse sonho era fazer a circum-navegação. Tal como Fernão de Magalhães, o piolho português queria ver o mundo, queria ser o aventureiro. Apanhara essa ideia na cabeça de um historiador que andava a preparar as comemorações da viagem de Fernão de Magalhães.

Lhinho viajaria, tinha isso decidido e, mesmo deixando a larga prole atrás, tinha um sonho a cumprir. Nunca sabia quando iria ser esmagado. Um dia, manhã cedo, antes da maçada do champô matinal, o nosso piolho começou a viagem.

Ia ser longa. Semanas, meses, anos... o tempo não lhe importava, não sabia quanto tempo viveria e isso era secundário. O importante era saltitar de cabeça em cabeça, deixando descendência, que é para isso que vivem os piolhos.

Começou na Europa. Em Portugal, para ser mais credível. A cabeça era robusta, cheia de ideias. Mas era preciso dar o salto, fugir da rotina, quebrar o asfalto. O Piolho tinha tudo para conseguir. E assim o fez. Acrediteis ou não, em mês e meio já tinha passado o estreito de Malaca. Mais rápido que um navio, Timor veio logo depois. Que belezas atravessou no mundo até chegar aos antípodas. No fundo da Nova Zelândia, havia de voltar, atravessou África, América do Sul e renomeou o estreito de Magalhães para Estreito de Lhinho. Todas as cabeças o passaram a conhecer. Daí, a nossa personagem subiu pela América do Sul, Centro, passou incógnito pelo muro dos Estados Unidos e chegou a Nova Iorque.

Aí, Lhinho conheceu o seu triste destino, dramático. Numa rusga policial em Queens, terra peculiar, a nossa personagem morreria entalada na linha azul do metro, linha E. Nunca lhe tinha passado pela cabeça...ahah... piada... que aquilo fosse acontecer. Lhinho, na cabeça de um qualquer, a caminho do JFK, houve uma travagem tão forte que, soubera-se depois, forçada pela NYPD, por causa de uma ameaça de bomba na linha. Provou-se ser um saco do Mc Donald’s mas, o mal estava feito, e Lhinho morreu ao estampar-se da sua cabeça em outra dura. Aí morreu Lhinho, cabeça contra cabeça, mas viveu, circunvalou o mundo e deu o seu nome a um estreito. Descendência também deixou imensa. Por isso, cada vez que coçarem a cabeça, lembrem-se de Lhinho. Ele viverá na vossa ideia...ou cabeça...

 

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