7 Fevereiro 2016      13:40

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O ESTRANHO CASO DO EMIGRANTE PORTUGUÊS

"ENTRE NAÇÕES"

Que terá em comum Durão Barroso com um trabalhador de construção civil português em Paris? Que terá em comum António Guterres com uma cientista portuguesa a trabalhar num projecto de investigação contra o cancro em São Francisco? Que terá em comum Daniela Ruah ou Cristiano Ronaldo, com um jovem engenheiro eletrotécnico português a trabalhar na Philips em Amsterdão? A resposta é quase comicamente simples. São todos eles, ou já foram, emigrantes portugueses!

É com esta introdução que venho abordar a temática que pessoalmente apelido de “o estranho caso do emigrante português”. Porquê o estranho caso? Porque parece que de forma praticamente inequívoca, todo e qualquer emigrante português, seja ele actor, desportista, operário fabril, político, construtor civil, economista ou engenheiro, é tido no país e instituição de acolhimento como um excelente trabalhador e alguém que está bem munido da capacidade de como dizem os americanos “get the job done”, ou garantir que o trabalho fica feito, não importa as circunstâncias. Melhor dizendo, e utilizando uma expressão corrente, o trabalhador português é bom, e é especializado na “arte do desenrascanço”, arte essa talvez herdada do país de origem, onde tudo é procrastinável, e tudo é passível de ser deixado para resolução no limite do prazo!

A verdade é que o trabalhador português fora de portas, por estas razões acima enunciadas, é tido como um dos trabalhadores preferidos de empregadores por essa Europa fora, com especial destaque para países como França, Alemanha, Luxemburgo, Bélgica, Áustria e Suíça, onde a diáspora portuguesa está mais presente. Este facto devia fazer-nos reflectir seriamente! Porque razão um país com bons trabalhadores tão elogiados e desejados fora de portas, não faz os mesmos elogios aos seus trabalhadores que cá estão? Será que Portugal não sabe reconhecer o mérito quando ele existe? Ou será que o trabalhador português dentro de portas não se comporta da mesma maneira e apresenta comportamentos diferentes? A resposta comum a estas duas perguntas também é ela bipartida. A resposta a ambas as perguntas é “ambos” e “depende”! Passo a explicar.

Quando se põe a pergunta “Será que Portugal não sabe reconhecer o mérito quando ele existe?”, a resposta é sim, a grande maioria do povo português não sabe nem gosta de reconhecer mérito, e esta síndrome percorre todas as camadas da nossa sociedade, vai desde o político, ao grande empresário, ao chefe no emprego até ao mais insignificante vizinho do lado. Reconhecer mérito na sociedade portuguesa é maioritariamente encarado como “assumir uma derrota”, o que é errado, existe uma visão de que a derrota alheia é a nossa vitória, o que é uma enorme e redonda falácia. Custa a entender-se que a nossa vitória não tem de significar a derrota do outro a menos que estejamos a competir directamente. Podemos muito bem vencer os dois, é isto que nós não encaixamos! Como podemos nós como país almejar a cooperação se estamos constantemente a rasteirar-nos a nós próprios e a realçar e desejar o falhanço alheio?

Quando se coloca a questão “Ou será que o trabalhador português dentro de portas apresenta comportamentos diferentes?”, a resposta a dar será “depende”! É aqui que corro o risco de ir à guilhotina social ao dizer que tendencialmente, o trabalhador português em Portugal, na sua maioria e não na sua totalidade, padece de certos maus hábitos no trabalho. Maus hábitos de pontualidade, maus hábitos de respeito entre colegas, maus hábitos do respeito a certas regras de conduta, na sua maioria questões de moralidade. Maus hábitos esses que não revelam fora de portas! Esta questão é sempre controversa e discutível, mas como disse acima, é a maioria e não a totalidade, é uma espécie de cultura implantada. Aparte de tudo isto existe quem contrarie esta tendência, e a meu ver, para o nosso bem são cada vez mais aqueles que o fazem. Não obstante, um bom trabalhador, como muitos há, é sempre um bom trabalhador, seja dentro ou fora de Portugal.

Podemos correlacionar certos casos de emigrantes portugueses conhecidos do público em geral com os argumentos dos parágrafos anteriores. Comecemos pelo desporto e artes, Cristiano Ronaldo, Daniela Ruah e José Mourinho, todos começaram no “mercado interno” e todos revelaram boas capacidades e bons resultados, actualmente continuam a alcançar sucesso, a manter essas boas capacidades e a alcançar esses bons resultados. São o exemplo de bons trabalhadores dentro e fora de portas.

Passemos agora para a política, vejamos Durão Barroso, António Guterres e Vitor Gaspar. Estes três nomes e os seus desempenhos como governantes são discutíveis quanto à qualidade dos mesmos, a tendência portuguesa para classificar um governante varia tendo em conta a orientação política do opinador. Mas vamos partir do pressuposto que todos foram de uma forma ou de outra, num ou noutro momento duramente criticados pela sua governação.

Vamos olhar para estes três políticos portugueses, para o caminho que percorreram após os seus mandatos como governantes e para onde se encontram actualmente. Primeiro ponto comum, todos emigraram! Segundo ponto comum, todos foram internamente vistos após a sua emigração, como pessoas competentes para os cargos a desempenhar.

António Guterres foi durante 10 anos o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, o qual recebeu nacional e internacionalmente os mais rasgados elogios pelo seu desempenho, e hoje é candidato ao mais alto cargo das Nações Unidas, Secretário Geral, com apoio total da Presidência da República, Governo e Partidos, alguns desses partidos que o criticaram duramente noutros tempos.

Durão Barroso foi durante 10 anos o Presidente da Comissão Europeia, o mais alto cargo da União Europeia, o qual também recebeu interna e externamente rasgados elogios, salvo algumas esporádicas excepções por parte dos partidos eurocépticos. O que faz pressupor a existência de um trabalho pelo menos satisfatório no seio da opinião pública.

Vítor Gaspar foi durante 2 anos Ministro das Finanças do executivo de Pedro Passos Coelho, e foi dos ministros mais criticados, senão o mais criticado do executivo, era visto como o mentor e a cara da austeridade imposta ao país no respectivo mandato. É visto por muitos como um ser humano bastante inteligente do ponto de vista académico, mas um incapaz no que respeita à execução prática dos seus modelos, ou seja, um “thinker” e não um “doer”, alguém que nasceu para “pensar”, mas não para “fazer”. Algo que provavelmente também pode ter motivado a sua saída do governo. Meia dúzia de meses após a sua saída foi nomeado pela administração do Fundo Monetário Internacional para o cargo de director do Departamento de Assuntos Orçamentais da instituição, ao qual se candidatou após a saída do governo. Sendo elogiado pela directora geral do FMI Christine Lagarde, que afirmou que Gaspar possuía “impressionantes capacidades de gestão”, onde até hoje se mantém.

Adicionemos um nome extra. Vítor Constâncio! Ex governador do Banco de Portugal entre 2000 e 2010, acusado de errar as previsões macroeconómicas nos casos BPN, BCP e BPP e de ter falhado na supervisão bancária dos mesmos bancos, contribuindo para o alargamento de um buraco de dívida colossal, pago pelos contribuintes. É actualmente vice presidente do Banco Central Europeu e responsável pela supervisão bancária, sendo um dos pilares do presidente do BCE Mario Draghi.

Que existe em comum com estes 4 nomes? Todos foram criticados pelo seu trabalho no panorama nacional, e todos foram relativamente valorizados no panorama internacional, onde de uma forma ou de outra, obtiveram e obtêm sucesso. Pode dizer-se então, embora que de forma relativa, tanto António Guterres, como Durão Barroso, Vítor Gaspar e Vítor Constâncio sofrem daquilo que eu chamo de “estranho caso do emigrante português”.

Concluindo, é importante realçar que cada caso é um caso, e que muitos dos emigrantes e ex-emigrantes que possivelmente possam ler este artigo, não se reveem neste grupo que se inclui no “estranho caso do emigrante português”, mas sim no grupo do “trabalhador exemplar”, como referi mais em cima, um verdadeiro trabalhador exemplar, é exemplar tanto em Portugal como fora dele. Os motivos que levam um português a abandonar a sua terra natal, são na esmagadora maioria dos casos, por razões infelizes como desemprego e fracas condições de vida, o que fazem de um emigrante não um derrotado, mas sim um resiliente. No entanto esta tónica do “estranho caso do emigrante português” e “o não devido reconhecimento do mérito em Portugal” não deixam de ser realidades observáveis, quer no sector privado, quer no sector público, e é algo que apenas poderá ser combatido com acção directa das políticas públicas junto dos devidos agentes, para que a médio e longo prazo, se retirem os devidos dividendos positivos.

 

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