20 Maio 2020      10:36

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O confinamento tem influência na Democracia?

O confinamento tem influência na Democracia? Foi a base de nova conferência/debate.

Promovido pela ASMAV, no passado dia 14, decorreu o debate online sobre os efeitos do confinamento no apego à democracia e à liberdade.

Nesta segunda edição, de um ciclo de sete conferências-debate que se estendem até junho, foram convidados o teólogo João Duque, professor catedrático na Universidade Católica Portuguesa, o sociólogo, Moisés Lemos Martins, professor catedrático do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho e Francisco Teixeira, professor de filosofia na Universidade Lusófona do Porto e na Escola Secundária Francisco de Holanda.

Para Moisés Lemos Martins o grande problema das democracias é que as instituições democráticas “não têm sido capazes de dar resposta à promessa”. As instituições da democracia não foram capazes de garantir a promessa ao nível da igualdade, emancipação e equidade, por isso os cidadãos desconfiam delas. Hoje, toda a mobilização é feita para o mercado e “o mercado lança-nos numa competição permanente”, alerta o professor da UMinho. Estamos sempre a trabalhar para estatísticas, tudo é feito mercadoria. A crise, portanto, existia antes da pandemia que só a veio agravar, conclui Moisés Lemos Martins.

João Duque lembra que, apesar da globalização, as massas não são iguais em todos os lugares, o que exige cautela quando falamos sobre o assunto. Lembra o teólogo que as massas nunca foram “amigas da democracia”, antes pelo contrário, sempre foi mais fácil mobilizá-las para outros regimes. Mesmo assim, João Duque tem uma perspetiva otimista, uma vez que na sua opinião hoje, nas sociedades ocidentais, as massas estão muito mais despertas para a democracia e para a liberdade. O professor vê nessa cultura de liberdade das massas uma das razões para o questionamento da instituições.

Francisco Teixeira pega na palavra “promessa”, lançada por Moisés Lemos Martins. Na sua opinião, em democracia, “promessa” tem um sentido religioso, “no sentido de uma expectativa de um reino dos fins”. O professor de filosofia recorre a textos recentes de Giorgio Agamben para  chamar à atenção da posição da Igreja Católica nesta crise sanitária. Aqueles que deviam ser os portadores da promessa escondem-se. “Em vez de um ascetismo do corpo, como antigamente, faz-se agora um ascetismo do espírito e o corpo é que conta”, ironiza Francisco Teixeira.  “Não estaremos já capturados pela ideia que a nossa vida biológica é o fundamental da vida?” – questiona Francisco Teixeira. João Duque, dá seguimento ao argumento irónico e recomenda cautela na leitura de Agamben, já que Bolsonaro poderia usar algumas das coisas que escreve para justificar as suas ações.

“O cidadão é feito na rua, é feito no trabalho”, afirma Moisés Lemos Martins sobre o ensino à distância. Dito isto, refletindo sobre as recentes comemorações do 25 de abril e do 1º de maio, lembra que, apesar de Homem necessitar de ordem para viver em sociedade, ele precisa de “buscar flores onde as flores não nascem”. O sociólogo alerta para o fato de nunca termos sido confrontados com uma situação deste género, “tateamos sobre sinais” nas palavras de João Duque. “Temos que criar novas mítico-poéticas que nos façam sonhar”, apela Moisés Lemos Martins. Para João Duque, esta paragem pode ser uma oportunidade para refletirmos sobre os problemas, nomeadamente os da democracia e os colocados pela tecnologia.

Francisco Teixeira terminou lembrando que a ideia de que a máscara é o símbolo da nossa relação, neste momento, é perigosa. “Já só nos podemos relacionar de forma híper-protegida, hipervigiada”, sinaliza.

As conferências-debate da ASMAV - que contam com a colaboração e apoio do Mais Guimarães e do Tribuna Alentejo - prosseguem no dia 22 de maio, com Inês Machado e Manuel Sarmento, 27 de maio, 1 de junho e terminam a 5 de junho, com Ana Gomes e o jornalista angolano Rafael Marques.

 

Texto adaptado de Rui Dias, publicado inicialmente em Mais Guimarães

 

Imagem de Gustavo Fring

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