A associação ambientalista Quercus manifestou-se contra a construção de uma nova incineradora no Algarve, considerando a proposta do Governo uma solução obsoleta e desajustada para resolver a falta de capacidade dos dois aterros da região. Em comunicado, a organização alerta que esta infraestrutura contraria frontalmente as metas do Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos (PERSU 2030) e os compromissos climáticos assumidos por Portugal, falhando em promover os princípios da economia circular.
De acordo com os ambientalistas, o Algarve regista a maior produção de resíduos por habitante no país, totalizando 400 mil toneladas anuais, das quais 85% acabam depositadas em aterros que correm o risco de esgotar o seu tempo de vida útil já no próximo ano. A Quercus sublinha que este cenário de rutura resulta de décadas de falta de investimento público em sistemas sustentáveis e de reciclagem. Adicionalmente, aponta que o modelo de incineração é tecnicamente ineficaz para a realidade algarvia, uma vez que estas centrais necessitam de um fluxo constante de resíduos e não conseguem lidar de forma eficiente com a forte oscilação sazonal provocada pelo turismo no verão.
A organização refere também o elevado impacto ambiental do projeto, avaliado em 300 milhões de euros. O comunicado detalha que a queima de resíduos liberta mais dióxido de carbono por quilovat-hora gerado do que as próprias energias fósseis, além de produzir cinzas perigosas que requerem tratamento especial. Face a isto, a associação exige esclarecimentos urgentes ao Ministério do Ambiente sobre os estudos técnicos que sustentam a decisão e sobre que tipo de resíduos serão efetivamente queimados.
Como alternativa à queima, a Quercus defende um forte investimento na recolha seletiva, na modernização das centrais de tratamento mecânico e biológico já existentes e na aplicação do sistema tarifário “Pay As You Throw” (pagar em função do lixo produzido). Sugere ainda a criação de circuitos dedicados para o setor hoteleiro e projetos de compostagem comunitária. Perante o atual panorama nacional, a associação anunciou que vai avançar com a criação de um Livro Branco dos Resíduos em Portugal, reunindo contributos da academia, da indústria e da sociedade civil para desenhar uma estratégia sustentável inspirada nos melhores exemplos europeus.
