11 Novembro 2018      10:32

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Ninguém ganhou a guerra, nem ninguém ganhará a próxima

Há exatamente 100 anos as balas calaram-se e deram lugar ao silêncio de 10 milhões de combatentes mortos e cerca de 20 milhões de mutilados.

 
Conhecido como o Dia do Armistício, às 11 horas do 11 do mês 11 de 1918, num vagão-restaurante, na floresta de Compiègne, na França, o general Weygand, o marechal Foch, os almirantes britânicos Rosslyn Wemyss e G. Hope. O ministro de Estado alemão Matthias Erzberger, o general Detlof von Winterfeldt do Exército Imperial, o conde Alfred von Oberndorff dos Negócios Estrangeiros e o comandante Ernst Vanselow da Marinha Imperial assinaram o documento que punha fim à Primeira Grande Guerra.
 
Mais tarde, a 28 de junho de 1919, o armistício viria a ser ratificado com a assinatura do Tratado de Versalhes – que acabaria por marcar também o início das Nações Unidas - e em que o Império Alemão viria a assumir as culpas pelo conflito.
 
A Primeira Grande Guerra começou a 28 de julho de 1914 – numa história curiosa que lhe contaremos mais à frente – e, como aconteceu nas duas guerras mundiais até ao momento, teve como palco principal a Europa.
 
Estiveram envolvidas as grandes potencias mundiais, divididas em dois grandes blocos: os Aliados – que tiveram por base a Tríplice Entente entre Reino Unido, França e o Império Russo- e os Impérios Centrais europeus - Império Alemão, Austro-Húngaro e Itália, ainda que os italianos viessem a não entrar na Guerra e mais tarde, a aliaram-se até ao bloco oposto.
 
Uma guerra a esta escala envolve todos, direta ou indiretamente, e Portugal também participou, tomando parte pelos Aliados e a participação portuguesa não foi inocente ou desinteressada, já que esta guerra teria um impacto enorme no império colonial português e na manutenção e garante da jovem República.
 
Em agosto de 1914, Bernardino Machado, presidente do Ministério, submeteu ao Congresso da República, uma declaração de princípios sobre a condução da política externa portuguesa – sob forte pressão da nossa aliada histórica Inglaterra - e Portugal acabava de entrar na Guerra lutando em dois continentes África – nas colónias Angola e Moçambique – e Europa – essencialmente na Flandres e na França.
 
Na Europa, Portugal participou com um contingente de cerca de 100 mil homens, muitas centenas de alentejanos.
 
Este contingente - inexperiente e formado em apenas três meses - seria dividido em dois grupos: um que apoiaria o exército britânico e outro o francês.
 
Muitos destes soldados desapareceram, muitos outros morreram. Foi sobretudo na Batalha de La Lys – também conhecida como Quarta Batalha de Ypres ou a Batalha de Estaires – que muitos destes militares lusos viriam a perder a vida.
 
Esta ofensiva das tropas alemãs, na Flandres, durou 20 dias em abril de 1918, e foi lá que combatia a segunda divisão portuguesa, comandada pelo General Gomes da Costa – que viria a ser Presidente da República - com cerca de 20 000 homens; perdeu 7 000 homens e perto de 300 oficiais no combate face aos 50 000 alemães, numa batalha descrita como um dos maiores bombardeamentos até já existidos.
 
Em poucas horas, cerca de 7500 homens perderam a vida nesta batalha num momento da História que Jaime Cortesão, décadas mais tarde, viria a descrever assim: “… Ao atravessar os campos as granadas caíam aos milhares! Alevantavam o chão todo! A terra fervia em cachão! (…) As aldeias ardiam como archotes alumiando a noite! (…) Lembrava o Inferno, a terra toda a arder!”
 
Estima-se que esta guerra tenha envolvido cerca de 70 milhões de militares.
 
Como referido antes, 10 milhões de combatentes perderam a vida e ficaram perto de 20 milhões de mutilados, sendo esta guerra o sexto conflito mais mortal da História da Humanidade.
 
Este conflito começou em consequência do assassínio do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro e há acontecimentos que, por muito que possam evitar, acabam por acontecer e, não fosse por isto, alguma outra coisa faria despoletar esta guerra. Ainda assim, não deixa de ser curioso e até quase absurdo, que o assassinato do arquiduque se tenha dado quase por mero acaso, por meras casualidades.
 
O arquiduque Francisco Fernando foi assassinado com dois tiros de Gavrilo Princip, numa esquina de Sarajevo.
 
Relatos do historiador Tim Butcher, dizem que Princip era um zé-ninguém, um jovem sérvio da Bósnia, com 19 anos e um atirador sem experiência. No entanto, foi ele quem matou a esposa e o herdeiro do Império Austro-húngaro, do qual a Bósnia fazia parte, depois de os ter encontrado por acaso, numa esquina de Sarajevo, quando nem o atirador, nem a família real, eram suposto estarem àquela hora, naquele local em frente à pastelaria “Moritz Schiller” (agora um museu).
 
O escritor bósnio Velibor Colic, relatava este acontecimento como “uma “vaudeville”, uma tragicomédia, cujas consequências, infelizmente, todos conhecemos.”
 
Já eram conhecidas várias tentativas para matar o arquiduque e, nesse mesmo dia, já havia falhado um atentado à bomba quando três dos sete jovens terroristas se recusaram a utilizar as bombas e as pistolas que levavam.
 
Contra a lógica e o bom senso, apesar de ter sofrido um atentado falhado quando a bomba atirada não acertou no carro onde seguia, Francisco Fernando decidiu continuar a visita a Sarajevo com a normalidade programada.
 
O atentado não fora casual e a sua interpretação era fácil: decorria a 28 de junho, celebrava-se o dia de S. Vito, o dia da nacionalidade na Sérvia, celebração levada a efeito após terem perdido a independência para os turcos, em 1389. Numa receção na Câmara Municipal, o governador da Bósnia, Oskar Potiorek, convenceu o arquiduque a encurtar e alterar o itinerário, evitando o centro de Sarajevo e aqui nasce a primeira casualidade: esqueceram-se de avisar o motorista e quando se aperceberam do sucedido já estavam a meio caminho, tendo então que empurrar o carro à mão, pois não tinha marcha atrás. Esta paragem aconteceu em frente à pastelaria Moritz Schiller, precisamente onde Princip estava e que, enquanto comia uma sandes, viu surgir uma oportunidade clara para concretizar a missão que lhe dera uma organização nacionalista e misteriosa de Belgrado, a “Mão-Negra”.
 
Os dois tiros que mudaram a face do mundo ouviram-se então: princesa morreu de imediato e o arquiduque meia hora depois.
 
Trinta e sete dias depois começava a 1ª Guerra Mundial e dela surge uma gigantesca transformação mundial: o desaparecimento de quatro impérios, a revolução russa, a reorganização das fronteiras mundiais e o nascimento do fascismo e do nazismo, a 2ª Guerra Mundial, o Holocausto etc.
 
Mas hoje celebra-se a Paz e, como referiu Eleanor Roosevelt e que hoje citámos no Tribuna Alentejo, “Ninguém ganhou a guerra, nem ninguém ganhará a próxima.”
 
 
 
Imagem de capmagellan.com

 

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