25 Dezembro 2018      08:43

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Natal: a festa da verdade e do amor e que tem por base uma mentira

É Natal. As ruas ganham cor e as pessoas potenciam sentimentos positivos. Com as músicas de Natal a solidariedade cresce e as pessoas lembram-se de ser mais humanas, lembram-se que o Homem é pluralidade e que não existe eu – não no seu expoente máximo – sem um nós. As pessoas lembram-se que devem ajudar o seu semelhante e são mais verdadeiras.

Mas o Natal, como hoje se celebra, tem uma mentira por base; ou melhor, várias “mentiras”.

O Natal, tal como outras celebrações religiosas, é um ritual social e que mistura religião, paganismo, cultura e folclore, logo, muito da história do nascimento de Jesus está envolto em incorreções históricas e em sentido diferente daquele a que nos veicula a Bíblia.

Com a conversão do imperador romano Constantino ao Cristianismo, no séc. I, a Igreja Católica acabou por adotar algumas celebrações pagãs de grande significado, e o Natal, ou melhor, a data da celebração, é uma delas.

Aproveitando a festa greco-romana que marcava o solstício de inverno, uma data importante para os povos agrícolas, como o caso dos romanos, tal como era já o era antes para os povos pré-históricos, a data do nascimento de Jesus começou a ser celebrada a 24 e 25 de dezembro.

Foi já no séc. XVI com a criação do calendário gregoriano que o nascimento de Jesus – impossível de se fazer a sua datação correta – começou a ser celebrado pelos cristãos a 25 de dezembro e que nos chegou até hoje.

Começaram então a surgiu os presépios, a cena da natividade, representada das mais diversas maneiras e formas, e também elas muito longe daquela que terá sido a real.

A imagem de Jesus e da sua família judaica foi criada à imagem racial ocidental - cores de pele claras, de caras rosadas e olhos claros – quando na realidade, e de acordo com historiadores e estudiosos, a fisionomia de Jesus seria a de homem comum do Médio Oriente, de tez, cabelo e olhos escuros. Nas várias versões da Bíblia que nos chegaram não existe qualquer referência à fisionomia de Jesus, nem da sua família e esse facto terá sido crítico na cristianização da Europa e do Ocidente e terá ajudado a converter pessoas de todas as raças e cores.

O local de nascimento é outra questão. Muitos são os presépios que representam a cena da natividade num estábulo, outros numa gruta – como em Belém, na Palestina, onde se celebra o nascimento de Jesus na Igreja da Natividade construída no local da suposta gruta onde jesus terá nascido.

Passagens da Bíblia só descrevem a chegada de Maria e José a Belém, após uma viagem a que foram obrigados para participar num recenseamento, e revela a não existência de um único quarto, uma única casa, onde José e Maria – grávida - pudessem descansar.

Claro que, a imagem criada, de Jesus a nascer num cenário idílico e humilde, sob as estrelas é ternurenta e comovente, e a presença dos animais completa o ramalhete que promoveu uma visão de harmonia e paz ao longo dos séculos e ajudou também à cristianização e promoção do catolicismo.

Os próprios reis magos, bem vestidos e cheios de riquezas – tradição que se iniciou só no Renascimento -foram também eles usados como “marketing” que ajudou à expansão da igreja: reis terrestres a oferecer riquezas a Jesus, rei do Universo.

Existe na Bíblia referência a “sábios” que viajaram do Oriente ao seguir uma estrela cadente, mas a interpretação de mago ou sábio, à luz da época, será mais provável que se refira um tipo de clérigos persas (região do atual Iraque) e que eram, muitas vezes, estudantes de astronomia.

Quanto à estrela cadente, este é um facto que reúne consenso pois existe uma correspondência de datas e acontecimentos entre o nascimento de Jesus e um acontecimento astronómico anormal – com a devida margem de erro provocada pelos séculos.

Outro facto consistente é a figura de Jesus, um ser humano ímpar e de capacidades invulgares e que terá espalhado uma nova visão do mundo e do Homem. Um exemplo a seguir, muito além da religião.

 

“Tudo que é humano me comove, porque sou homem.

Tudo me comove porque tenho,

Não uma semelhança com ideias e doutrinas

Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.” – Álvaro de Campos

 

Entre verdades e mentiras, o que importa reter – ignorando a face consumista, capitalista e até mesmo fútil – é que o Natal é época de família, de reunião, de gratidão, de solidariedade; de olharmos o próximo com foco nas semelhanças e não nas diferenças; é querer mais justiça, mais igualdade, melhores condições para todos. É lembrarmo-nos de quão melhor o mundo pode ser e criarmos, na nossa circunstância e entorno, uma fraternidade mais livre e justa com base no que nos une: o Ser Humano.

 

O Tribuna Alentejo deseja a todos um Feliz Natal, todo o ano.

 

Imagem de crimtan.com

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