16 Fevereiro 2017      11:48

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NÃO RECUO NEM UM MILÍMETRO

Existem assuntos que pela sua natureza não nos deixam indiferentes. É o caso do abate dos Freixos Centenários na Estrada Nacional 246-1 (Escusa/Portagem) no concelho de Marvão. Em primeiro lugar porque estava lá (ou fui chamado) no dia em que tudo aconteceu e também pela ligação afetiva àquela estrada que tantas memórias me traz, desde os passeios na juventude, como a primeira vez - que não me sai da memória - que fiz aquela estrada ao volante e olhei para o lado direito e vi Marvão radiante entre as árvores.

Jeremias da Conceição Dias, o melhor de todos os Marvanenses, deve estar a dar voltas na sua campa ao saber o que fizeram no passado dia 13 de fevereiro de 2017 – o abate de 7 freixos centenários. Em meados do século passado, Jeremias tinha conseguido evitar o abate, nessa altura, de todas as árvores. Ficou na história. Agora tenho a certeza que outros irão ficar na história pelo que fizeram e não pelo que disseram ou opinaram.

Deixem-me continuar a recordar Jeremias da Conceição Dias, que ficou conhecido por utilizar a expressão “não recuo nem um milímetro”, para manifestar que foi esse espírito que fez com que mais árvores, incluindo a que veem na foto, não fossem abaixo. Muito se pode ter escrito depois disso, muitas opiniões foram veiculadas mas quem lá esteve, como eu estive, na hora do “aperto” é que sabe dos esforços que foram feitos para suspender os trabalhos. É pouco habitual um Vereador do PSD, com o pelouro do Ambiente, contactar o Deputado do círculo pelo PS para que este interceda junto do Governo numa matéria de interesse público. Não é habitual, mas foi isso que aconteceu. Uma conjugação de esforços que extravasou muito a esfera partidária e se uniu em torno da política, no bom sentido, aquela que serve o território e as populações. Como contava um jornal regional que acompanhou de perto o desenrolar dos acontecimentos, o princípio no local, mesmo com pessoas de várias forças partidárias, do BE ao PSD, era este: “estamos todos do mesmo lado, queremos preservar o nosso património e nisso estamos unidos”.

No entanto, há aqui uma grande diferença: há quem fale e há quem faça. Há quem fale em manipulação e há quem tenha tido ação. Eu prefiro falar dos segundos. Recuando à história do Jeremias da Conceição Dias, também muita gente deve ter ficado azeda com o facto de não poder utilizar a lenha de 300 freixos, mas para a história ficou quem os conseguiu salvar. Nesta história não há heróis. Existem pessoas, com responsabilidades locais, regionais e nacionais, que fizeram aquilo que os políticos devem fazer: resolver os problemas das populações.

Tenho, por respeito à minha consciência e ao meu concelho, que destacar o trabalho, antes, durante ou depois, do Vereador José Manuel Pires, que tem a pasta do ambiente na Câmara Municipal de Marvão, o Deputado Luís Moreira Testa, pela forma como em “minutos” impediu uma ordem cega das Infraestruturas de Portugal e pela pergunta que formulou ao Ministro no Parlamento, às Associações Ambientalistas pela atenção e mediatismo que deram ao assunto, ao Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda que fez um pedido de esclarecimento e ao Vereador Socialista na Câmara Municipal de Marvão que deu entrada com um projeto para a Classificação da Alamedada de Freixos como Património de Interesse Municipal.

A estes, aos que fizeram, aos que não se desviram um milímetro para defender os interesses do local e da região temos de estar gratos. As responsabilidades, essas também têm de ser apuradas e aí vou gostar de ver a cara daqueles que defendem sistematicamente a tecnocracia pública e a galopante privatização de serviços. Em suma, obrigado aos que fizeram alguma coisa para Salvar as Árvores Fechadas e que se apurem rapidamente responsabilidades.

1 Comment

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Francisco Aires (não verificado)    9 meses 1 semana
Comentário: 
Excelente artigo, de alguém que no local viveu o momento. Claro, o que está feito, feito está, mas assim ficamos a saber quem pelas árvores se bateu, não é comum que diferentes partidos, de espectros tão diferentes, se unam em torno de uma causa comum, e isso é de enaltecer, são manifestações de cidadania, com é o caso aqui retratado, que poderão desenvolver a cidadania ou a própria democracia, o que aí se passou é a prova de que a democracia está doente, gravemente doente, só juntos a poderemos salvar e defender de alguns, muitos (i)responsáveis que se encontram em locais executivos, e que deles abusam