A decisão do Governo de transferir o Campo de Tiro de Alcochete para o Alto Alentejo, motivada pela construção do novo aeroporto, tem gerado forte contestação e a criação da plataforma cívica “Não ao Campo de Tiro” que agora tem um site com toda a informação do processo e que pode ser visto em https://naoaocampodetiro.pt/index.html
O anúncio da localização em Alter do Chão foi feito em março de 2026 pelo Ministro da Defesa, Nuno Melo, antes da conclusão pública dos estudos de impacto ambiental e sem consulta prévia às populações. O projeto prevê ocupar cerca de 7.500 hectares em Alter do Chão, Monforte, Crato e Fronteira, ameaçando o património natural junto à Rede Natura 2000, a Coudelaria de Alter e a economia agrícola local, além de levantar preocupações sobre a segurança de um gasoduto e a legalidade do procedimento. Perante a contestação, que inclui uma petição pública, iniciativas parlamentares de vários partidos e a retração do presidente da câmara local, os opositores apontam alternativas como Mértola, Serpa ou o campo espanhol de Bardenas Reales.
A instalação do novo Campo de Tiro da Força Aérea em Alter do Chão acarreta impactos profundos e já mobiliza a oposição de várias forças políticas no Parlamento. No plano económico e agrícola, a ocupação de cerca de sete mil e quinhentos hectares de propriedade privada põe em causa entre 329 e 375 parcelas com PAC ativa e até 81 agricultores, gerando uma perda anual estimada entre 2,7 e 3,3 milhões de euros em subsídios comunitários do FEAGA, além de comprometer a olivicultura, a vinha e o pastoreio extensivo. O património natural sofre também uma forte ameaça devido à proximidade com a Rede Natura 2000, afetando a Zona Especial de Conservação de Cabeção e a Zona de Proteção Especial de Monforte, territórios críticos para habitats de montado e espécies estepárias em perigo, como o sisão e a abetarda. No plano cultural, a proximidade da histórica Coudelaria de Alter, fundada em 1748, coloca em risco a integridade da Arte Equestre Portuguesa, recentemente classificada pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
A nível de infraestruturas, o projeto enfrenta o desafio de ser atravessado ao longo de quase doze quilómetros pelo gasoduto de alta pressão Campo Maior–Leiria, a principal entrada de gás natural em Portugal, que exige uma distância mínima de segurança de 75 metros e autorizações prévias da REN que não foram acauteladas antes do anúncio governamental.
Perante este cenário, a contestação política materializou-se rapidamente através de iniciativas parlamentares de fiscalização levadas a cabo por quatro partidos com representação na Assembleia da República. O Bloco de Esquerda e o Partido Socialista foram os primeiros a agir, com propostas formais em março de 2026, focando-se na inversão de prioridades legais pela falta de Avaliação de Impacte Ambiental e na ausência de estudos prévios e custos públicos. Seguiu-se o Partido Comunista Português, que centrou os seus requerimentos na defesa das explorações agrícolas familiares e na contestação aos processos expropriativos decorrentes do Código das Expropriações.
Por fim, o Chega avançou também com iniciativas de fiscalização no final de abril, exigindo esclarecimentos sobre as decisões que preteriram as opções de Mértola ou Serpa e denunciando a falta de diálogo com as populações e autarquias locais, o que acabou por levar a Assembleia Municipal e o próprio presidente da Câmara de Alter do Chão a recuarem no seu apoio inicial e a exigirem a publicação dos estudos técnicos obrigatórios.
