1 Junho 2019      10:45

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Manigâncias

A porta tinha sido aberta há pouco tempo. Aberta não. Tinha sido arrombada e só pouco tempo depois os donos da loja deram por isso. O furto tinha sido enorme e tinha dado imenso prejuízo.

A dona da loja vertia lágrimas como quem abre a comporta de uma barragem hidroelétrica.

Quando iriam recuperar tudo aquilo? Nem seguro tinham feito e não havia agora nada que pudessem fazer para tentar recuperar alguma coisa.

Os ladrões estavam identificados. Tinham sido aqueles malandros que andavam a fazer manigâncias ali e nas aldeias vizinhas.

Dois moços encorpados, de bom ar, que pareciam não fazer mal a uma mosca, tinha perpetrado o ato infame. Tinham violado as portas da loja e saqueado, tal como se de mercenários se tratassem. Nem os fatinhos aprumados que vestiam poderiam agora disfarçar a maldade com que tinham atuado.

A senhora continuava a chorar desalmadamente e não sabia como sair daquela embrulhada. O marido pensava na espingarda e na vontade em enfiar um balázio em cada um deles. Não tinha de ter pena ou compaixão daqueles animais. Bem os tinham enganado com as manigâncias que faziam com as mãos. Deixaram toda a gente deslumbrada com aquilo e isso faz com que todos na aldeia abrissem as suas portas emocionais e contassem todas as suas coisas, maiores e mais pequenas. Revelaram os seus segredos todos, deixaram que os dois larápios cheios de manha ficassem a saber tudo.

O Manuel da ponta de baixo ficou sem as galinhas, a Antónia da esquina nunca mais viu as pipas de vinho nem tão pouco o Aníbal vou mais as ferramentas da horta. Nem a Igreja se escapou e lá se foram as relíquias e tudo o que era ouro e prata. E, tudo isto levado na camioneta de caixa aberta do Ilídio.

Mas como acontecera aquilo? Como não sentiram o roubo na pele? Onde estavam todos?

A única explicação possível era de terem sido endrominados na noite e terem levado com uns pozes que os puseram a dormir. Era, de facto, assim que funcionava. Era dessa maneira que endrominavam as vítimas estes larápios.

Manigâncias... artes... pessoas que só daquilo sabiam fazer vida. Certo é que dormiram todos, como em filmes e noutras histórias e o recheio das coisas desapareceu numa camioneta de caixa aberta.

Mas a mulher da loja não estava para aceitar isso. Depois de encher a ribeira que passava na aldeia com as suas lágrimas, pôs a cabeça a pensar, a seco. Ia recuperar as coisas custasse o que custasse. Pensou, pensou e chegou à conclusão de que o próximo golpe só podia ter lugar em Almojinha de Cima, que ficava a uns quilómetros desta, a de baixo.

Vestiu as roupas do seu marido, pôs uma boina na cabeça, desenhou um bigodão meio mal feito e umas patilhas e as botas cardeadas lá a levaram ao lugar onde não estavam à espera dela. Foi à noitinha e, enquanto estavam os dois endrominando toda a população, mesmo sem saber conduzir, viu a camioneta do Ilídio, tapada com uma lona, um oleado verde escuro.

Salta a mulher lá para dentro, destrava a camioneta, pé na embraiagem e no acelerador e, deitando aquele fumo a cheirar a gasóleo queimado, lá vai ela com os bens todos que tinham sido recuperado aos das manigâncias.

Acelera por aqueles montes abaixo e, asm luzes ligadas, não vê a curva e estampa-se no vale do Córrego das Andorinhas.

Felizmente, não sofreu quaisquer ferimentos mas ficaram as coisas todas sem aproveitamento.

Os homens das manigâncias nem se atreveram ir à procura. Fugiram na hora, levando consigo o papa reformas do Ti Xico coxo.

Ficou em lágrimas de novo a mulher mas contente o mesmo tempo porque podem tê-la endrominado mas não se ficaram a rir! Sorte foi não lhe ter arreado com um cajado na espinha!

 

 

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