26 Setembro 2020      11:24

Está aqui

Malagueta

Numa terra muito distante, onde era de noite quando aqui é de dia, havia uma ilha, perto de outra ilha ainda maior. Lá, onde a água roda ao contrário do que cá deste lado, morava um ser execrável.

Ah pois é. O nosso convidado desta semana era um animal, rude no verdadeiro sentido da palavra. Isto porque o nosso texto de hoje é sobre um programa de televisão na Austrália. E, claro, sobre o apresentador desse programa de entretenimento que era a pessoa mais resmungona e agressiva com que o senhor leitor alguma vez se cruzará. Porém, mesmo com todos esses defeitos, tinha chegado a apresentador do mais reputado e maior programa de todo o continente da Oceania.

Não havia cidadão que não parasse o que estava a fazer para ver esse grande momento diário de entretenimento e informação. O apresentador chamava-se Ruim Malagueta e era natural da Tasmânia. Nunca tinha sido casado. Não havia ser da sua espécie que o conseguisse aguentar mais de uma hora. A própria ideia de passar um dia inteiro com aquele ser era ultrajante. As suas relações tinham sido com a sua própria espécie e nada mais. E, como disse, nem esses aguentavam duas horas seguidas.

As únicas entidades que o aguentavam, porque tinha de ser, era o pessoal da produção e os convidados. Tudo lhe corria bem na vida e ainda assim reclamava o tempo todo. Gritava, atribuía alcunhas, enxovalhava e ainda assim continuava a ser o mais bem sucedido apresentador em todo o continente. O seu programa, líder de audiências versava os problemas matrimoniais dos seus convidados e o apresentador era, como se prevê, um diabo!

Nunca um casal que apareceu naquele programa para se reconciliar, cumpriu os objetivos. Todos se separaram depois. Se tal se devia ao mau feitio do apresentador não saberemos nesta história. Poderá o senhor leitor decidir a seu bem-querer, sem que o forcemos a decidir. Ao contrário de Ruim, este narrador não tenta, de forma alguma, influenciar a sua simpatia ou antipatia pelas personagens, mas este senhor era insuportável. Já conheceram alguma vez um habitante da Tasmânia? Esses diabos que gritam uns com os outros o tempo todo. Se conhecer, sabe do que eu falo.

Tudo corria bem até ao momento em que começou a correr mal. Um dia, chegou a crise e os casais já não se queriam divorciar. Ruim é o seu programa deixaram de ter audiências e convidados e já nem a produção aguentava o seu mau-feitio, as suas queixas, os seus gritos. Foi despedido por todos! No fundo, se ele pudesse também se tinha despedido a si próprio.

Inconsolável, ainda gritava mais. A sua forma de estar tornava-o mais feio a cada dia que passava. A amargura faz-nos feios. E quanto mais revolvemos em torno da dor, mais feios e resmungões e barulhentos ficamos. Ruim Malagueta era assim.

Entregou-se ao álcool ums tempos e decidiu, depois dessa longa caminhada no deserto, reabilitar-se e procurar novo emprego.

Vendeu tudo, não deixou ninguém atrás porque não tinha e viajou até aos Estados Unidos da América, mais precisamente are Hollywood, em busca do sonho americano no cinema.

Tudo parecia real, mas o único trabalho que lhe ofereceram foi de desenho animado. Isso implicava que deixasse de existir, passaria a ser um rascunho do que fora... e ainda assim, era melhor que nada.

E foi assim que surgiu o famoso desenho animado Tasmanian Devil! Fim da história!

Sei que mudou o nome de Ruim Malagueta para Taz, mas o resto da vida dele não sei... deixamos de nos falar há muito tempo.

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