31 Outubro 2017      09:59

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MACHADO DE TALÃO

Os Museus guardam coisas belas ou importantes, de uma forma redutora e aos olhos de uma criança isto é um Museu. E assim este objeto, não sendo muito belo deve ser muito importante. Trata-se de um machado de talão, porque lhe cresce uma parte traseira bastante pronunciada, e é feito em bronze. O bronze é uma liga metálica de cobre e estanho bem mais dura que o cobre anteriormente utlizado para os primeiros objetos metálicos do período Calcolítico e de toda a humanidade. Na Pré-história e a seguir à Idade da Pedra, Paleolítico e Neolítico, seguem-se a idade dos metais, resultado da exploração de novos recursos naturais, que não só os animais e plantas.

Depois da invenção da cerâmica, que promoveu uma revolução no armazenamento de alimentos e bens e que pela sua plasticidade se tornou também um suporte para a transmissão do simbólico e do poder numa forma portátil, na idade dos metais os objetos de metal alcançam um valor transcendente para lá do seu valor próprio. O objeto metálico da idade dos metais é um bem de prestígio ao mesmo tempo útil e inútil porque é mais uma ideia de si do que ele próprio. Este em concreto é da Idade do Bronze, que se seguiu à idade do Cobre ou Calcolítico quando o homem só conseguia trabalhar este metal e antes da Idade de Ferro, quando ainda não se tinha arranjado forma, conhecimento para trabalhar o ferro, o mais mortal dos três metais porque mais cortante e eficiente, porque pode ser estendido, batido e é fácil de moldar sem se partir e transformado em objetos mortíferos, as armas.

As armas na Idade do Bronze e este machado em particular, não parecem muito mortíferas. Estes objetos metálicos são outra coisa. São o reflexivo do seu contexto no II milénio a.C., de uma organização política do território do estabelecimento do poder e da construção de povoados fortificados em pontos de altura, estratégicos e defensáveis com o objetivo de obter vantagem, aliás tudo neste período tem a ver com superioridade em relação ao outro e a pré-invenção dos estados. Em breve chegarão os Fenícios, Gregos e Romanos para nos nomear, descrever e nos organizarem territorialmente desde o oriente ao ocidente onde estamos.

No Alentejo o que foi que aconteceu? Depois dos eco-primitivos, construtores da paisagem do IV e III milénio, os construtores de estados sobem aos montes, cercam-se de muralhas, organizam-se em comunidades, unidades familiares, povoados, casas, individualizam-se. É um momento de ataque e defesa de um território ecológico de subsistência, mas também de exploração do minério, como o cobre e estanho que dão o nome a esta idade.

Deste período cronológico Évora tem dois importantes sítios arqueológicos. O Castelo do Giraldo e um outro sítio, muito importante, mais importante, mas esquecido, descuidado, negligenciado, a Coroa do Frade. Estão os dois no concelho de Évora, são os dois monumentos inventariados, classificados, protegidos. O primeiro, o Castelo do Giraldo é mais antigo, tem uma ocupação da idade do Bronze, é uma estrutura fortificada, com linhas de muralha e algumas estruturas de habitação, abandonada ainda nesta época e novamente ocupada durante a idade Média. Essa ocupação na idade Média é normalmente atribuída à passagem do Giraldo Sem Pavor que conquistou a cidade de Évora aos muçulmanos no ano de 1165. A verdade é que deste emblemático lugar de Valverde se tem uma extraordinária visibilidade sobre o território até Évora, um bom sítio de atalaia para conquistar uma cidade, mas também um bom sítio para criar uma lenda. A Coroa do Frade é também uma fortificação da Idade do Bronze, um sítio arqueológico com particular interesse entre outras razões porque se encontraram ali dezenas de moinhos manuais de rocha granito que serviam para moer cereal e provavelmente bolota para fazer farinha. A fortificação é constituída por uma linha da muralha, de forma tendencialmente circular, completada  por linhas defensivas secundárias, aproveitando afloramentos de grande dimensão existentes no local. Estas linhas de muralha subdividiam o espaço e hierarquizavam a sua funcionalidade. Foi utilizada durante o Bronze Final no momento de abandono do Castelo do Giraldo podendo ter recebido as comunidades que o povoavam, quem sabe se por aliança, por extinção, por reorganização do território. São dois importantes sítios arqueológicos no concelho de Évora, duas imensas oportunidades para conhecer mais sobre a história da cidade e do Alentejo, estudando os sítios, protegendo e divulgando a sua singularidade no território nacional e encontrando neles o que é semelhante, equivalente ao resto do país e trazê-los para escola e para a comunidade como uma aula prática do ensino da história, do português, da geografia e das ciências. 

Os sítios arqueológicos são feitos de marcas, símbolos, estruturas, objetos e da presença ou ausência do homem, mas essencialmente de objetos. Por sua vez os Museus estão cheios de objetos, como este machado de talão que não era lá grande arma, mas era certamente bem impressionante. No entanto este machado não é de nenhum destes dois sítios arqueológicos da idade do Bronze do concelho de Évora. No Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, na sala de arqueologia onde está exposto, a legenda diz ser um objeto de proveniência desconhecida, como são muitos os que ali se encontram, mas outra vez, muitos são da coleção do Frei Manuel do Cenáculo, que durante décadas comprou, colecionou, reuniu, inventariou, estudou, removeu objetos de sítios arqueológicos, curioso pela arte e engenho humano e da natureza. As coleções iluministas ambicionavam reter uma linha da evolução da história, e estão repletas de transformações e criações humanas e curiosidades naturais. Quem comprou este machado soube reconhecer, no século XVIII, que era um objeto antigo, testemunho de conhecimento do meio e revelador de ordem e organização de sociedades ainda antes da escrita.   

Este machado é um meio de guerra, mas é também uma arma da paz e desde a idade dos metais, da introdução da escrita e da invenção da História, que nos trouxe aqui, a nossa ideia de nós é restringida ao tempo da guerra e ao intervalo que a antecede. Este machado de talão representava a força e o poder, mas a maneira como era usado e mostrado eram o que bastava para fazer a guerra ou para manter a paz. Nas ações dos homens vê-se o mundo que somos.

O Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo tem entrada gratuita aos domingos e feriados até às 14h para todos os cidadãos residentes em território nacional. O texto e fotografia são da exclusiva responsabilidade da autora. 

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