22 Fevereiro 2019      10:16

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Lobos em pele de Cordeiro

Sempre pelas piores razões, o Partido Comunista Português tem sido empurrado para o centro dos holofotes do escrutínio público ao longo das últimas semanas, reagindo com nítido desconforto à natural exposição mediática a que está sujeito.

Primeiro, a atual conjuntura política que se vive na Venezuela obrigou o PCP a assumir uma posição pouquíssimo popular junto dos portugueses, mas que as correntes da rigidez ideológica assim forçaram: declarar-se intransigentemente do lado do regime chavista contra as pretensões de Juan Guaidó, seguindo o argumento que acusa o Presidente da Assembleia Nacional venezuelana de ser uma simples marioneta do imperialismo norte-americano. A rigidez ideológica é tanta que um voto de pesar pela morte de manifestantes na Venezuela foi chumbado pelo PCP (e BE), mostrando que a vulgata marxista até à vida humana se sobrepõe. Mas isto não se tratou de nada de novo. Apesar de tudo, não é esperada outra posição por parte do PCP do que uma injustificável defesa do socialismo na Venezuela.

O que não seria de esperar, por detrás da manta de indiscutível superioridade moral que caracteriza a ação política do PCP, foi a onda de casos embaraçosos que inundaram a comunicação social durante as últimas semanas e que deixaram ficar claro a hipocrisia do partido dos trabalhadores. Toda esta situação de alta pressão pública foi suscitada pela situação que envolveu o genro do Secretário-Geral do partido num conjunto de generosos contratos de prestação de serviços com a autarquia comunista de Loures. Seguiram-se mais duas poderosas machadadas na credibilidade pública do partido: foi lançada uma investigação do Observador que denunciou a existência de uma “rede vermelha” composta de empresas ligadas a militantes do PCP que firmaram centenas de contratos com autarquias do partido; e uma reportagem da TVI que denunciou os contratos com empresas para alojamento local da Associação dos Inválidos do Comércio, cujos órgãos de direção são controlados por militantes do PCP.

A reportagem da TVI fez questão de sublinhar os despejos que os Inválidos do Comércio vão causar como resultado dos contratos para arrendamento dos seus imóveis – situação que nos elucida sobre o estado de espírito reinante no PCP. Segundo os dirigentes da associação, este despejo tratou-se apenas de uma consequência do negócio, negócio este que foi proveitoso numa “ótica de gestão”. (O termo “ótica de gestão” quererá dizer o mesmo, nesta circunstância, que numa ótica motivada pelo lucro)

Envolvido na elaboração destes contratos pecuniariamente proveitosos esteve o pai do eurodeputado do PCP, João Ferreira. Este, confrontado pelo jornalista sobre o facto, respondeu à provocadora questão com um exercício de inexplicável arrogância. O eurodeputado recorreu à famosa frase de George Bernard Shaw –  “nunca lutes com um porco, ficas todo sujo e ainda por cima o porco gosta” – para descrever o atrevimento do jornalista. Claro está, é o eurodeputado do PCP que define quem é que faz o papel de porco.

Mas ainda nos falta a peça de investigação lançada pelo Observador, que denunciou a existência de uma alegada rede de empresas com ligações a militantes do PCP que adjudicam, numa lógica de quase escandaloso privilégio, contratos com várias autarquias do partido – e parte considerável das mesmas são alentejanas. Uma breve pesquisa no portal estatal Base.gov é suficiente para verificar que existem vários nomes que se repetem nas sucessivas listas de contratos adjudicados por autarquias do PCP.

Este esquema só demonstra uma coisa muito simples: o PCP é um partido do sistema, comprometido com o sistema, e que precisa, imperiosamente, do balão de ar do Estado para sobreviver. O PCP, como já foi dito por Rui Ramos num elucidativo artigo, é um partido do Estado – vive no Estado e vive do Estado. E, como agravante, tem uma máquina organizada para sugar os recursos do Estado, fazendo uso de todo o poder autárquico que ainda possui para garantir a sua sobrevivência.

A hipocrisia revolucionária não é novidade para ninguém. Simplesmente nunca foi devidamente denunciada, nem esteve o PCP acostumado a ser ele próprio o alvo de tanto escrutínio público. Podia vestir, à sua boa vontade, a máscara da superioridade moral e da seriedade política para atacar adversários, enquanto que na prática mantinha a funcionar uma máquina que lhe foi garantindo a sobrevivência material. Por isso é que é perfeitamente normal que o partido não tenha sido capaz de responder racionalmente a esta anormal onda de escrutínio público.

O partido nunca esteve habituado ao escrutínio e sempre o tentou evitar a todo o custo. Existindo escrutínio público sobre o partido depressa se descobririam todos os esquemas que o mantêm vivo. Também não seria nada de novo, nem deveria surpreender ninguém. Afinal o escrutínio público é mania das democracias burguesas. Não passa de um eufemismo para “anticomunismo” e só se pode traduzir na prática num ataque cerrado da classe dominante sobre o PCP, sob a forma de tentativas de difamação, provocação e distorção da realidade que só visam um objetivo: destruir o honesto partido dos trabalhadores. Sob este ataque cerrado, as respostas do PCP não se fazem com uma esperada elucidação dos factos; elas vão sempre ao encontro do vocabulário panfletário da vulgata marxista – não contestam os factos apresentados, mas apenas contra atacam acusando o atacante de tentar “branquear o fascismo”, de tiques “pidescos”, de seguir a cartilha do “mccartismo”, de ser um instrumento da Reação, e assim até ao infinito.

Na transição portuguesa para a democracia, foi este o partido que tratou de desestabilizar a sociedade portuguesa, radicalizar a agenda política e dividir os portugueses. O corolário da sua ação, sempre movida por um maniqueísmo simplista, pela violência e pelo internacionalismo antiportuguês, poderia ter-se figurado numa guerra civil, não nos valessem alguns verdadeiros democratas. Hoje, tendo deixado de ser o satélite soviético em Portugal, o partido mantém-se à nossa custa. Por enquanto ainda governam parte do sul português. Até quando?

 
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