13 Maio 2020      12:07

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Lendas do Alentejo, uma herança cultural a preservar

“E vós, formosas moiras encantadas,

Na noite de São João ao pé da fonte

Áureas tranças com pentes de ouro fino

Descuidadas penteando enquanto o orvalho

Nas esparsas madeixas arrocia

 E os lúcidos anéis de perlas touca…”

(Garrett 1963: 499)

Transmitidas de geração em geração, as lendas fazem parte das nossas vidas e, com as suas fantasias, encantos, medos e dúvidas,  continuam a marcar a infância das nossas crianças. De cariz multicultural, as lendas são o reflexo da cultura e tradição oral que através dos tempos, aliam factos reais e de cariz histórico ou meramente resultantes da imaginação (GRAÇA & INÁCIO, 2019). Tal como refere Marques (2013), as lendas “constituem um espólio literário, um património imaterial que se apresenta como a melhor testemunha de uma tradição multidisciplinar: histórica, literária e linguística.”De norte a sul do país encontramos uma variedade de narrativas com um cunho característico de cada região, facto a que o Alentejo não é exceção.

 No imaginário colectivo, com múltiplas origens, tipologias e personagens, toda esta herança demonstra um particular fascínio pelas mouras encantadas. Dos tesouros que guardam tão afincadamente até ao sofrimento, com a sua linguagem simples e simbólica, retratam todo um imaginário referente à presença muçulmana no nosso território. Se mais a norte as mouras são retratadas de forma mágica e semi-humana, no sul encontramos um traço de cariz mais histórico e humano, vivendo em fontes, cisternas, castelos e torres abandonadas, ou mesmo em rios e lagos (1).Poucas deverão ser as fontes, castelos ou fráguas da região, que não estejam associadas a uma lenda com mouras encantadas. Em forma de serpente ou cobra pedindo ao forasteiro que a desencante ou em forma de donzela que promete riqueza aos que lhe quebrarem o encanto, assim podemos encontrar alguns exemplos de como estas narrativas são uma verdadeira herança pelo nosso território: Lenda da Moura de Alcácer do Sal; Cova da Moura Encantada entre o Castelo de Alter Pedroso e o de Alter do Chão; Lenda do Castelo de Noudar; Lenda da Fonte do Mouro - Beja; Lenda da moura encantada da fonte fausta -Ferreira do Alentejo; Lenda da Represa da Moura - Grândola; Lenda da moura Salúquia - Moura e Lenda da Cobra Moura do Castelo de Valongo  - Évora, entre tantas outras. Não menos relevantes e de conhecimento geral, são também as lendas de índole histórica que por estas terras abundam: entre outras, Lenda da Sempre Noiva - Arraiolos; Lenda de Geraldo Geraldes - Évora; Lenda da Batalha de Montes Claros - Borba; Lenda da “Flor da Rosa”- freguesia do concelho do Crato; Lenda do Cavaleiro do Castelo de Elvas ouLenda do Milagre de Ourique. Também encontramos um conjunto de lendas de carácter religioso, como são: Lenda de Nossa Senhora de Monforte; Lenda do poço do Diabo de Cuba; Lenda de Vila Viçosa; Lenda de Nossa Senhora D`Aires - Viana do Alentejo e Lenda de Nossa Senhora da Estrela - Marvão.

As lendas são uma relíquia a recordar e transmitir. As suas narrativas suportam um potencial didáctico de vital importância para o desenvolvimento do conhecimento e respectiva compreensão histórica por parte das crianças, constituindo” uma das mais originais produções do nosso imaginário. Para além dos valores e dos saberes que nos transmitem, relembram que a nossa formação cultural muito deve ao convívio intenso entre os diversos povos que contribuíram para a sua afirmação.”(2). Os Municípios, as  Escolas, as Bibliotecas  e  família, podem desempenhar um contributo importantíssimo reforçando o papel das crianças na sua transmissão. Um estímulo que lhes proporcionará mais responsabilidade, independência e empatia, através de novas vivências que estas narrativas lhes podem proporcionar.

  1. e (2) - ATAS/ANAIS do XXII COLÓQUIO DA LUSOFONIA, SEIA,setembro 25-29, 2014

 

Imagem de capa de Luis Leitão

 

 

 

 

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